"AIDS  MATA"

                                     Paulo Longo

          Que a AIDS traz à tona a questão da morte é necessário dizer. Que a "incurabilidade" da AIDS tem sido usada desde o início da epidemia é fundamental discutir. "Será que nunca faremos, senão confirmar a incompetência da América católica, que sempre precisará de rídiculos tiranos?" (CAETANO VELOSO)
          Certamente todos se lembram das campanhas terroristas veiculadas na televisão há alguns anos, nas quais era reforçada constantemente a mensagem de que "AIDS mata", que se você não se cuidar, a AIDS vai te pegar", que você não deve "morrer de amor". Isto já sabemos. AIDS não tem cura (ainda) e muita gente morre das infecções decorrentes. Muitos temos sofrido as perdas que a AIDS tem provocado e isso nos chateia, nos irrita, nos faz sofrer. Mas será que é isso que temos que veicular?
          Algumas pessoas - poucas, felizmente - tem voltado a insistir que as campanhas de prevenção tem que veicular mensagens com o conteúdo acima. Já houve até quem sugerisse que uma campanha mostrando "pessoas morrendo de AIDS numleito de hospital" teria "um grande impacto", pois atingiriam às pessoas através do medo. Ou seja, uma população aterrorizada tomaria mais cuidado.
          Esta proposta, além do extremo mau gosto, apresenta uma série de erros conceituais. Primeiramente assume o princípio ditatorial e fascista de que as pessoas só aprendem "na porrada". Parte da idéia de que toda uma população aterorizada toma "vergonha na cara". Parte ainda do princípio de que a morte é o maior temos de qualquer ser humano. Errado! Experiências com diversos grupos sociais, principalmente os considerados mais marginalizados apontam este erro. Fatores, como por exemplo uma auto-estima muito baixa e uma total fatal de horizontes e perspectivas, muitas vezes reforçados pela sociedade auto-denominada normal, fazem com que a AIDS seja considerada apenas mais uma possível causa de morte. Ouve-se: "AIDS mata? E daí? Outras coisas também matam..." Associar AIDS unicamente à morte é também contribuir para o crescente movimento de que a doença é um castigo divino (?) a condutas e comportamentos desviantes e condenáveis. É reforçar a idéia de que os doentes de AIDS estão divididos em dois grupos estanques e bem definidos: os terríveis vilões que fazem o que não devem e pegam AIDS (bem feito!) e as pobres vítimas que acidentalmente entraram em contato com os fluidos contaminados dos que realmente merecem morrer.
          Veicular que AIDS mata é limitar a discussão sobre a epidemia. É acreditar que a AIDS traz apenas a morte e que não é um processo dinâmico, que muito ocorre ao longo da infecção. Além disso, a morte é um fenômeno individual, a AIDS é um fenômeno social. A morte física quando ocorre, é precedida de muitas outras mortes, principalmente da MORTE CIVIL: a perda da cidadania daqueles "terríveis vilões de comportamentos desviantes", tolhidos de seus mais básicos direitos.
          O princípio fatalista envolve ainda a idéia de que quem tem o HIV vai morrer de qualquer forma. Errado, mais uma vez! A cada dia reduz-se a relação infecção-óbito em todo mundo; a cada dia infecções oportunistas são identificadas e tratadas mais cedo e com mais sucesso. Limita ainda o teste anti-HIV - ainda hoje muito mal utilizado - a uma mera sentença de morte. Limita as perspectivas de quem tem o HIV.
          Sendo uma doença de transmissão sexual, a vinculação AIDS-Morte acaba contribuindo para uma lamentável associação SEXO = MORTE, gerando a culpa, o isolamento, a discriminação, entre outras conseqüências a longo prazo. Sexo é e deve ser VIDA e não morte. As mensagens devem promover informação e educação continuadas auxiliando na incorporação de medidas para um sexo mais seguro e não do sexo enquanto ameaça.
          "Mostrar pessoas morrendo de AIDS". Esta proposta zoológica de promover um espetáculo circense em torno do sofrimento alheio infelizmente ainda consegue aliados. A indignação não parte de uma surpresa, pois há hoje em todas as sociedades um crescente movimento de fortalecimento das propostas neo (?) nazistas e neo (???) fascistas. Há quem defenda a urgente necessidade de um retorno de ditadura no Brasil, vide o assustador resultado da últimas eleições.
          "Estar morrendo" nada mais é que uma outra forma de dizer "estar vivendo". Sim, porque o "estar morrendo", na verdade, não existe. A morte não é um estado pelo qual se vai passando aos poucos. Morre-se ou não, não existe o "estar morrendo", existe o estar vivendo e o estar morto. Este é o processo, o caminho e a dinâmica da vida.
          Dizemos não à limitada e terrorista idéia de que o povo só aprende com medo. Se assim fosse, muito já haveria mudado. Seria extremamente simples para as autoridades de saúde o mero reforço de que AIDS MATA para deixarem de fazer o seu papel, lavarem as mãos e não investirem nos que "vão morrer mesmo".
          Não vamos deixar de discutir a morte, pensar sobre ela. Mas não podemos permitir que este fundamental processo da vida seja usado para promover o medo, a ignorância e o preconceito.