
OS POSITIVOS
Arnaldo
Dominguez
Uma bipolaridade, até certo ponto, bastante recente, está
resgatada da realidade pelo "imaginário social", reatualizando velhos
preconceitos, deslocados agora para outra simbologia. E se tal fato permite,
por um lado, um descanso no antigo onfronto, de tal sorte "abrandando",
entre aspas, por outro, mantém intensificada e fortalecida a posição
"esquizo-paranoide" de MelaineKlein, que dimensiona, com a devida eqüidistância,
os aspectos do bem e do mal, em extremos delimitados entre os "eus" e os
"outros".
Explico. O universo lingüístico que nomeia a existência
humana, tornando-apossível como tal, parece hoje separá-la
"substantivamente" entre "os positivos" e os "negativos", em termos de
HIV.
Já não mais "homos" e "heteros", embora ainda se sustentem
programas medíocres de televisão, do tipo: "Sou gay e assumo",
estrelados por não menos medíocres apresentadores, que tentam,
mediante questionável postura, sedimentar o avesso das polêmicas
contemporâneas, resgatando pareceres dos livros da "medicina forense"
oitocentista.
Porém, tais espetáculos têm seus dias contados.
Como diz certo comercial atual, "o mundo está ficando mais inteligente".
Se bem que, gostaria de convidá-los a uma reflexão,
pois esta aparente conquista da neurose social parece-me por vezes, uma
fachada. Um semblante, um engano.
Hoje, os "negativos" - não importando qual seja sua orientação
afetivo-sexual - se destacam dos seus semelhantes, atirando-os às
franjas da sociedade, precisamente poe estes últimos serem: POSITIVOS.
É claro que, pela sabedoria da natureza (já que esta
parece divertir-se com a categorização humana, tão
arbitrária) flutua no ar um Monstro que ameaça, do tipo "Continuum
sorológico", e coloca a perspectiva da soroconversão (isto
é, um negativo virar positivo), numa variável bastante possível
para todos os "cordeiros" deste "rebanho".
Em definitiva, o vírus é muito mais democrático
do que qualquer sistema de governo.
Eis a questão: há um intermezzo entre o To be e o Or
Not...
"Os interrogativos"
Se alguém acreditar que está livre, melhor pensar direito
antes de atirar a primeira pedra.
E este "saber" internalizou-se membrana adentro dos neurônios
de todos nós, bípedes, de telencéfalo altamente desenvolvido
e polegar opositor, mediante o qual trocamos o canal que nos informa através
dos denominados "meios de comunicação".
Lembra de quando nos diziam: "se você não se cuidar...
"Quem cometeu um pequeno "deslize" nos últimos quinze anos?
Portanto, do mesmo modo como já "aconteceu" com a homossexualidade
ou o comunismo e outras tantas condutas execráveis, quando nossa
parcela "homoerótica", anti-burguesa, etc..., devia ser projetada
sobre alguma estereotipada figura humana, inventada para Representar a
feitiçaria podendo-se assim combater nas fogueiras, todas as bruxas.
Rituais estes tão antigos como a história, atualmente
por via da informática, noutras épocas, praticados por grupos
étnicos que chamamos primitivos ou selvagens. Nunca bem vistos,
antes de Rousseau.
Eram Bárbaros. (Creio que poucos sabem que Bárbaros
eram aqueles povos que não falavam Grego. Corresponderiam hoje àqueles
que não falam inglês. Eu, por exemplo, que sou da época
da ardorosa luta contra a invasão cultural, nunca consegui dominar
esta língua. Perón dizia que "para um argentino, não
há nada melhor do que outro argentino").
Pois bem, quando o HIV compeliu a homossexualidade à exposição
ao público domínio, constatamos - não sem sensações
de estranheza - que até tu, Brutus, havias incursionado, de fato
ou de direito, ao menos uma vez na vida, no percurso desta modalidade de
amor?
Será que o HIV vai delatar todo mundo? Como se precaver?
Talvez se confinarmos todos "eles" em Campos de Concentração...
claro que é preciso que sejam "todos". Sei lá... a gente
poderia solicitar a intervenção do Exército? Exército
e democracia não significam necessariamente incompatibilidade. Como
ficou demonstrado.
Penso que a primeira medida a ser tomada seria implantação
de uma lei que tornasse compulsório o teste anti-HIV.
Por exemplo, coletas de sangue nos postos dos Bancos 24 Horas. E
medidas do tipo, quem não digitar o código do resultado,
ficará impedido de operacionar suas aplicações.
Tem que ser algo assim, simples, prático, de fácil
acesso. Que vincule sexo a dinheiro, o que não é nenhuma
novidade.
Que garanta o sigilo. Poderia acrescentar um item. Antes de poder
"selecionar a operação desejada", deverá digitar o
número e o sexo de todos os parceiros/as que teve nos últimos
doze meses. Confinamos todos, o problema seria resolvido.
Só me fica uma questão: Quem iremos discriminar no
futuro?
O politicamente correto nos fez perder os negros, as mulheres, os
gays e lésbicas, os nordestinos... Se perdermos também os
positivos, a vida se transformaria numa chatice de multiplicidades, o que
a tornaria definitivamente insuportável.
Aí, que impasse. Nenhuma solução é perfeita.
