AIDS  &  MÍDIA

      Alexandre  Böer

 No dia 3 de ulho de 1981, o jornal americano New York Times, tido como um dos mais responsáveis e influentes da imprensa internacional, veiculou uma matéria que relatava o aparecimento de um curioso fenômeno de câncer de pele que atingia basicamente homossexuais masculinos, destruindo o sistema imunológico e conduzindo em pouco tempo à morte. Era a primeira vez que se falava sobre o que mais tarde coheceríamos como AIDS.
 Desde o início a imprensa vem aproveitando o lado mais provocante e enigmático da doença, misturando preconceitos populares e teorias científicas de tal modo que, às vezes, tornar-se impossível distinguir uma das outras.
 A imprensa "marrom" logo tratou de dar um nome a esta doença, batizando-a de "câncer gay; depois vieram os "grupos de risco"; o termo "aidético"; criaram "vítimas"; elegeram "mitos" e deram, até mesmo, uma "cara" para a AIDS - ela era a própria caveira.
 A tal ponto isto tem importância que no inconsciente coletivo a AIDS continua sendo a doença "do outro", que a "população em geral" não precisa se preocupar e, em determinados períodos, nem os governantes se preocuparam - como o governo Reagan, pois o problema não atingia a "todos".
 Aqui no Brasil, embora o HIV venha se disseminando pelo menos desde o final dos anos 70, foi, somente, em 4 de julho de 1983 com a divulgação pela mídia do costureiro Markito em decorrência da AIDS que a população começou a construir conceitos, mitos e inverdades em torno e acerca da epidemia.
 Do início da doença até hoje, pelo menos dois conjuntos correlacionados de imagens produzidas pela mídia formaram o imaginário da AIDS:
 Por um lado os comunicadores deram uma atenção prioritária às, assim chamadas, "vítimas", enfocando seus modos de vida, seus comportamentos sexuais, seus parceiros (as) etc...
 Por outro lado, além desse foco dado aos portadores, um outro conjunto de suposições doi construído às mais fundamentais características da própria AIDS, mexendo com velhos tabus: sexo, sangue e morte.
 O fato é que a AIDS não passa, para certos editores, de uma pauta que ajuda a vender alguns exemplares de jornais ou revistas.
 É neste contexto que as ONGs/AIDS e grupos Gays, Lésbicas e de Travestis que atuam na defesa da cidadania e pela livre orientação sexual desempenham um importante papel no combate às informações "oficiais" e á proliferação de tabus e preconceitos, sendo responsáveis pela "desconstrução" desta imagem criada pela mídia.
 Também é preciso lembrar que o direito à informação é a ondição primeira para o execício da cidadania. No entanto, pode-se dizer que, quando os "contravalores" se impõem ao nível da cultura, as mudanças exigem tempo, persistência e um eficiente empenho dos agentes multiplicadores engajados no processo de redemocratização da comunicação.
 A nossa ação, portanto, se fortalece quando a luta pelo direito à informação vem acompanhado pelo fortalecimento do espírito crítico e neste caso é necessa'rio pensar a comunicação de uma forma ampla, integrada, multimídia e, principalmente, como um instrumento de participação política.