
FIM DO EROTISMO HOMOSSEXUAL?
Paulo Longo
A idéia do presente artigo vem de uma carta recebida após
o fechamento da última edição. Nela, o leitor (que
não identifico por não possuir autorização
para tal) anuncia o que seria o fim do erotismo homossexual a partir de
sua experiência em algumas saunas paulistas. Nelas, segundo o leitor,
a única alternativa de transação é recorrer
aos serviços dos michês - que em alguns momentos chama de
"operários sexuais", diferenciados pela cor das pulseiras que seguram
as chaves. Em contraposição, o leitor vê os cliente,
que normalmente descreve como "homossexual idoso, obeso ou sexualmente
desfavorecido", dizendo ainda que as transações não
eram assim anteriormente, passando a ocorrer "mudanças bruscas"
na década de 80 e que "estas mutações nos fazem sentir
que bicha só pode ter prazer se andar com a carteira recheada".
Completando sua carta-queixa, o estimado leitor nota que as únicas
duas saunas de São Paulo que não utilizam os serviços
dos michês não tem espaço publicitário no Nós
Por Exemplo, perguntando se seria "coincidência ou algo mais", pedindo
que nos manifestemos sobre o assunto. Pois bem, querido leitor, pedido
feito, pedido atendido.
Provavelmente a grande maioria dos leitores de Nós Por Exemplo
conhece os outros projetos do NOSS (Núcleo de Orientação
em Saúde Social). Dentre eles está o Programa "Pegação",
que existe há quase seis anos e que deu origem à nossa organização.
O Programa, pioneiro, atua diretamente nas ruas do Rio de Janeiro, atendendo
rapazes de programa om o objetivo principal de promover a prevenção
ao HIV/AIDS e outras Doenças Sexualmente Transmissíveis.
A equipe de educadores tem como atividades o oferecimento de serviços
(acesso a postos de saúde, assistência legal, controle voluntário
ao abuso de drogas, distribuição de preservativos) e um componente
de aconselhamento, no qual são passadas informações
e atua-se diante da história individual de cada atendido. O objetivo
é promover uma mudança de comportamento a partir do resgate
da auto-estima. Em 1992 o Programa foi avaliado e considerado efetivo oficialmente
pela Organização Mundial de Saúde.
A partir de nossa experiência no Programa "Pegação"
e dos constantes estudos que realizamos sobre a prostituição
masculina, além da produção há 3 anos de um
jornal para a comunidade gay & lésbica, nos consideramos em
posição de emitir algumas opiniões sobre as observações
do leitor.
Inicialmente nos parece um pouco generalista a idéia de "fim
do erotismo homossexual" baseando-se apenas na experiência individual
em algumas saunas de São Paulo. Seriam as saunas os únicos
espaços para a realização do desejo homossexual? O
erotismo homossexual seria única e exclusivamente a realização
deste (s) desejo (s)? Não em nossa opinião. O erotismo homossexual
extrapola o espaço das saunas e termas gay ocupando, cada vez mais,
outros espaços. Mesmo com o fechamento de diversas boates e bares,
há a abertura e o surgimento de novos espaços, novas alternativas,
novas pessoas. Em todo o mundo é constante o interesse pela ""brazilian
gay life": constantemente as revistas internacionais tem escrito sobre
o assunto, trazendo como consequência vôos lotados de turistas
para estas bandas. Será que estas pessoas tem vindo tão longe
apenas em busca de saunas, que podem encontrar em abundância em seus
próprios países?
Os "operários do sexo", como se refere o leitor, não
são uma nova categoria profissional. Desde sempre homens trocam
sexo por dinheiro ou bens, seja nas ruas ou em bordéis (explícitos
ou disfarçados). A crescente exploração da atividade
está relacionada a diversos fatores mas, principalmente, à
crescente demanda. Ninguém oferece um produto ou serviço
que ninguém compre. Cada vez mais há interesse por parte
dos clientes nos corpos & serviços oferecidos pelos michês.
É exagerado, contudo, afirmar que todos os espaços homossexuais
estão tomados pelos profissionais do sexo. Sem dúvida há
um grande número de locais frequentados pelos rapazes de programa,
que 'lá estão porque são procurados por clientes que
os procuram, que pagam e voltam muitas vezes. Além disso, afirmam
muitos clientes, os espaços fechados como saunas, apresentam uma
alternativa de segurança, de conforto, de variedade.
Talvez caiba questionar que tipo de prazer estão procurando
os homossexuais, os que procuram, os que pagam. Sim, porque se procuram
é porque tem algum retorno garantido nestas transações
que o leitor condena. Ousaria ainda dizer que o retorno não é
unilateral: cada um obtém o que procura. E mais: quem pode garantir
que os michês não tem prazer nestas relações?
Em muitos casos afirmo que sim. Inclusive os donos das saunas, certamente
tem algum tipo de lucro nesta atmosfera. Conversando com o gerente de uma
importante sauna de Sampa, ele afirmou que não há comissão
paga pelos michês à casa, ficam com tudo que obtém
por noite e o lucro da casa é justamente na entrada paga e nas bebidas
consumidas pelos clientes, que vêm atraídos pelos rapazes.
Isto não é erótico? Está certo: é comercial,
pode ser meio artificial, meio "forçar a barra", mas É erótico.
Atribuir o aumento da prostituição masculina em determinados
locais a uma queda do erotismo homossexual é precipitado e parcial.
Não se deve esquecer que temos tido, a partir do final da década
de 80, um grande aumento de opções para homossexuais masculinos
ou femininos. Um bom exemplo disto é o grande número de shows
eróticos surgidos a partir daquela época. Mais recentemente,
as boates começaram a incluir estes shows também em suas
programações. E os banhos de espuma, no auge da moda neste
momento? Antes restritos a poucas boates, agora tomam cada vez mais espaço;
até o Scala adotou a espuma este ano. Não é erótico?
Bom lembrar também as conquistas políticas que os homossexuais
tem tido nos últimos anos: em dois estados e dezenas de municípios
conseguimos incluir nas constituições e leis orgânicas
municipais a "proibição de discriminação por
orientação sexual". O que isso tem a ver com erotismo? Muito.
Nestes locais, por exemplo, ninguém pode ser preso ou acharcado
simplesmente por ser homossexual (o que é diferente de atentado
ao pudor, que ainda é crime), mas favorece inclusive as mais diversas
opções de entretenimento erótico. Com a prostituição
é diferente: manter uma casa de prostituição ou explorar
a prostituição alheia ainda são considerados crimes
previstos no Código Penal. Talvez com base neste Código pouco
atual, policiais tenham invadido recentemente determinada sauna no Rio
de Janeiro, levando todos - clientes e michês - para uma delegacia.
Infelizmente não sabemos o desenrolar da estória, ninguém
quis falar a respeito.
Nossa principal luta é, sem dúvida, a luta contra o
preconceito. Achamos que viver numa sociedade menos preconceituosa, é
óbvio, ajuda as pessoas a viverem melhor, sem tanta culpa, sem tanta
clandestinidade, sem tanto sofrimento. Infelizmente temos percebido que
nossos companheiros homossexuais apresentam uma grande carga de preconceito
explícito e "praticante", proferindo frases do tipo: "Deus me livre
ir a tal lugar, só tem michês"; "No lugar X eu não
piso, porque só tem mulher"; "Aquela área é um horror,
cheia de travestis"; "Fulano é um pervertido, só gosta de
transar com crianças". Quanta auto-discriminação,
quanta dificuldade de lidar com as diferenças!
Claro que há quem goste, como disse o leitor, de caras "barbudos-barrigudos"
ou "carecas-obsos". Melhor exemplo disso é a criação,
há mais de um ano, no Rio de Janeiro do grupo "Caras & Coroas",
que reúne rapazes jovens que gostam de transar com homens mais velhos,
muitos desses no perfil acima. E olhe que não são michês!
