
VIVENDO COM HIV E AIDS
José Stalin Pedrosa
Quando eu e o artista gráfico Cláudio Mesquita, amigo
e saudoso companheiro, membro-fundador do Grupo pela VIDDA/RJ, tanto quanto
eu próprio, procurávamos qual deveria ser a ilustração
de capa da cartilha Cuidando de alguém com AIDS (Grupo pela VIDDA,
1993), chegamos a um consenso imediato: reproduzir a famosa tela do quarto
de Van Gogh. Por quê? porque, acreditávamos que o melhor lugar
para uma pessoa com AIDS receber determinados cuidados é em sua
casa, próximo e cuidando de suas referências e valores imediatos.
Qual de nós, independente do status sorológico para o HIV,
não valoriza e cuida - cuidando-se - do seu quarto, de suas fronteiras
mais próximas? Por que as pessoas com AIDS devem também ser
desapropriadas de seus territórios mais íntimos e ficarem
apenas confinados na assepcia do cárcere hospitalar?
Nossa opção, naquela ocasião, não poderia
ter sido mais feliz. As pessoas com AIDS não expressam os seus sentimentos
e percepções de maneira intensa e direta, similares aos artistas
expressionistas? O expressionismo deformador e exagerado das pessoas com
AIDS em sua subjetividade - quase sempre intraduzíveis numa lógica
e linguagem convencionais - não é substantivamente diferenciada
dos que não estão entrelaçados - sorologicamente falando
com a epidemia? Esse entrelaçamento não é o que nos
permite, pessoas com HIV e AIDS, vermos o mundo a partir dessa especificidade?
Negar ou minimizar essa diferença é subtrair das pessoas
com HIV e AIDS a maior prerrogativa delas próprias: a vivência
com a HIV e AIDS.
O HIV não é uma condecoração, muito pelo
contrário, é bom ressaltar, antes que me acusem de advogar
a discriminação positiva; mas, é sutil (e determinante)
estabelecermos essa óbvia diferença que, quase sempre, é
esquecida pelos que não são infectadas, mas só afetados
pelo HIV e AIDS.
Não estou propondo a negação da metodologia
de trabalho AIDS: problemas de todos! que, de certa forma, eu ajudei a
construir e a difundir nesses últimos 6 anos. A minha ambição
(existência e política) é chamar a atenção
para determinadas palavras de ordem por serem, justamente, genéricas,
precisam quase sempre, serem contextualizadas e usadas com cuidado, do
contrário perdem o seu vigor e sua eficácia política.
Só podemos falar de humanidade porque existem homens individuais
e concretos. Só podemos falar de que AIDS: problemas de todos! porque
ela se manifesta em homens, mulheres e crianças individuais e concretas.
O real direito à vida, à dignidade e até o morrer
em condições decentes se exercita na proporção
inversa de que o problema de alguns é o problema de muitos, senão
de todos. Esse todo é uma abstração, mas também
é a soma concreta de partes que são constituídas de
individualidades e subjetividades reais e não imaginárias.
Há uma diferença, nada pequena - sem nenhum ranço
corporativista -, entre estudar (e até mesmo militar com) as categorias
de representações sociais da AIDS e vivência-la, literalmente
falando.
Vejo, com um certo mal estar - mantido sob controle com muito plasil
- determinadas lideranças, afetadas pela AIDS, falarem em nome dos
infectados, com mais majestade do que o próprio rei - notadamente
no mercado global da AIDS. É o que eu considero inversão
de valores, ou para ser menos politicamente correto, apropriação,
em causa própria e auto-promocional, da expressividade das pessoas
com HIV/AIDS - usando a terminologia do marketing essa postura é
propaganda enganosa, fraudulenta e passível de punição;
neste caso, não pelas auto-regulamentação do Conselho
Nacional de Propaganda e Marketing, mas, pelas próprias pessoas
vivendo com HIV/AIDS.
Afinal, o que eu quero dizer objetivamente, o benévolo leitor
deve perguntar-se, quase cansado dessa apresentação barroca.
Caro leitor, é simples e complexo ao mesmo tempo, quase um clichê.
Além, do Expressionismo das pessoas com HIV/AIDS há as manifestações
impressionistas dessas mesmas pessoas que são tão delicadas,
subjetiva e/ou sensoriais de uma urgência (urgentíssima) que
só as pessoas com HIV/AIDS podem sentir e manifestar.
Desde algum tempo, em foruns específicos, tenho feito a defesa
da política de cotas para populações específicas
nos programas governamentais e não-governamentais na definição
de prioridades em suas agendas políticas - há dois problemas
nessa proposicção: 1) aplicá-la sem resvalarmos para
o populismo que é tão autoritário quanto a exclusão
e 2) sermos acusados, pelos açodados, de pregarmos a política
de testagem compulsória das pessoas que trabalha com AIDS.
Penso que afirmar que tudo é prioritário é o
mesmo que dizer que nada é prioritário. É cômodo
e confortador se diluir em generalidade. A nervura do real é o real
próximo, individual e concreto. Formular, gerenciar e atuar em programas
de saúde, nos mais diversos níveis, é eleger prioridades,
dentro de indicadores epidemiológicos, sociais e de recursos materiais
e humanos. Visando, como meta magna, o retorno social desses mesmos investimentos.
As ONGs, quase que naturalmente já aplicam a política
de cotas no que chamo de divisão social do mercado da AIDS, visando,
quase sempre, minimizar a concorrência em seus mercados privados.
Algumas, mais estruturadas, estabelecem o monopólio de segmentos
populacionais e/ou áreas geográficas específicas,
quando não tem a ambição de abarcarem todo o país,
alienadas da atual discussão sobre flexibilidade dos monopólios,
um dos temas mais acalorados dessa temporada outono-inverno no país.
O paradoxo nas ONGs não são os mercados, nem as cotas,
mas a não inclusão de um e/ou de outra categoria em suas
estruturas internas - para o público externo tudo, intramuros nada!
Quantas ONGs que trabalham frente às DSTs, HIV e AIDS têm
em seus quadros efetivos pessoas vivendo com HIV e AIDS? Por que as pessoas
vivendo com HIV e AIDS só são reconhecidas como instrumento
de discurso ( e de sofrimento passivo ) e não têm a mesma
competência dos que falam por elas. Por que as Organizações
feministas, de negros, de gays e lésbicas, para citarmos as mais
atuantes, têm em suas bases e direções mulheres, negros,
gays e lésbicas e as ONGs que trabalham com AIDS não tem,
geralmente, pessoas vivendo com HIV e AIDS em seus quadros e dirigentes?
Onde está o nó do problema? Existe realmente interesse em
flexibilizar esse monopólio?
Não procuro estabelecer, nesse momento, conclusões,
mesmo que provisórias. Procuro, isto sim, rascunhar algumas preocupações
quanto a densidade política das ONGs que trabalham com as DSTs,
HIV e AIDS que, necessariamente, repercutem na sociedade abrangente, em
termos de credibilidade social. Não abordar direta e racionalmente
esse tema ou mesmo desqualificá-lo pela negação é
grave delito para o futuro - que eu aposto que seja promissor - das ONGs
no Brasil.
Finalizando, aproveito esse espaço, para uma apropriação
pessoal, esta mais relevante dos que a questão arrolada acima. Dedico
essas notas à memória de duas mulheres valorosas que nos
(me) deixaram, no espaço de apenas uma semana (penúltima
semana de maio): Vitalina Dias da Silva, ex-presidente da Federação
Brasileira de Hemofilia, e Albertina Volpato, ex-presidente do Grupo pela
VIDDA/PR, respectivamente mulheres que estavam afetadas e infectadas pelo
HIV e AIDS.
