
Ser homossexual no Brasil e não, o "ser" homossexual
brasileiro
Júlio Cesar Cordeiro Nascimento
Este trabalho é uma tentativa de pensar
e " por em palavras " alguns fenômenos econômicos, sociais,
culturais e políticos todos relacionados ao campo semântico
homossexualidade-homoerotismo e à cena gay brasileira, os quais
parecem suficientemente próximos no tempo e com repercussões
suficientemente significativas, para podermos falar de algo da ordem de
um processo. Pensar em processo não significa aqui pensar numa entidade
auto gestora e transcendente, mas como na metáfora jurídica,
pensar em um "ajuntar-se de coisas" não aleatório, conhecimentos
correlacionados, sujeitos a toda sorte de forças, e resignificados
a todo momento ao revelar-se de novos fatos; processo este sempre possível
de uma investida interpretativa, a qual por sua vez redefine e redescreve
a própria lógica processual.
Entendido como processo macro-histórico
desejaríamos analisar, a posteriori, que repercussões a nível
do sujeito podem estar neste momento histórico se engendrando, a
saber, sobre que bases e a partir de quais lógicas se constrói
explicita ou implicitamente, intencional ou casuisticamente a noção
de um " sujeito homossexual ". Desejamos questionar ainda a própria
legitimidade de se falar em subjetividade homossexual em oposição
a subjetividade heterossexual.
O HISTÓRICO
Ao tentarmos narrar fatos numa seqüência
cronológica, nos apercebemos do que é próprio do histórico,
a saber, que datas, inícios, seqüências são construídas
pelos próprios agentes ou atores sociais, que num ato recente no
tempo resignificam e redefinem posições daquilo que já
aconteceu, reconta-se assim o passado e recria-se a história.
Um exemplo disto é a matéria
publicada no último domingo pela Revista da Folha, que tomou 9 páginas
deste veículo de comunicação:
"Com o I festival de manifestações
das sexualidades (93), o designer gráfico André Fischer e
a jornalista Susy Capó, 32, levam a atitude gay para dentro de uma
instituição pública, o Museu da Imagem e do Som de
São Paulo. Tá? Era o que faltava pro povo todo se animar
e ganhar espaço. Deu tão certo, que nem o olho gordo de sempre
atrapalhou a segunda versão do festival (94). Um sucesso de fila,
vendas e mídia.
Virou conceito (Mix Brasil),
virou revista (Mix Magazine), virou cartão de crédito (Club
Mix), virou moda (Mundo Mix), virou consumo (Mercado Mix)".
Assim os arautos oficiais da história demarcam
um início, um marco no tempo, o I MIX Brasil em 1993, Festival de
Manifestações da Sexualidade; este ato lingüístico,
que transforma este festival de cinema e vídeo em ato político
social, funcionando ao meu ver como uma construção em análise,
a qual destina-se a por em associação eventos da memória
e das lembranças do paciente, é uma construção
mítica para preencher lacunas da história rememorada, dando-lhe
sentido. As construções em análise são tão
legítimas quanto maior for a capacidade do analisando associar a
partir delas, de produzir deslocamentos, insights, e falas plenas de significado
e afeto, em poucas: por em andamento o trabalho analítico de perlaboração.
É neste sentido que esta versão da história se parece
com uma construção em análise, uma vez que é
uma construção mítica que visa preencher lacunas de
história do movimento gay brasileiro, afirmando que algo foi engendrado
de novo desde aquele Festival em 1993, redefinindo a história e
produzindo novos atos lingüísticos, novos discursos e novas
escritas sobre o assunto, em resumo pondo em movimento as mais diferentes
produções simbólicas sobre o tema.
Neste festival de cinema, além da mostra
de filmes divulgada prioritariamente pela Folha de São Paulo e pela
MTV, foi realizada uma pesquisa com o objetivo de traçar um perfil
sócio econômico do público do festival A grande maioria
se definiu como homossexual e ao responder uma série de perguntas
como: "você tem microondas?", "você tem casa própria
ou carro?", esse público definiu-se e foi definido como pertencente
a uma privilegiada "classe média alta brasileira", leia-se consumidores
em potencial.
OS GAYS TEM CELULAR
A divulgação desta pesquisa
na mídia, mais ou menos no mesmo período que algumas matérias
foram exibidas pelo Jornal Nacional sobre a descoberta do Filão
gay de consumo pelo mercado norte americano e ainda divulgação
do processo de empreendimentos semelhantes no Brasil, como por exemplo,
a criação da Get Together Travel, uma agência de turismo
voltada ao público gay, impulsionou a criação de uma
série de empreendimentos comerciais e uma estratégia de marketing
voltada à comunidade gay.
Hoje este público é visto como um
mercado consumidor em potencial e a cada dia aumentam as iniciativas
privadas de captura do " antílope de celular".
É importante lembrar a essa altura que
a redefinição de valores e normas sociais estão sempre
associadas a pressões do poder econômico ou a variáveis
econômicas. Como no caso do movimento feminista que ganhou forma
conjuntamente com a constatação da necessidade de aproveita
e absorver a força de trabalho da mulher.
Assim, se pensarmos a crescente visibilidade da
homossexualidade na mídia como um processo, temos que considerar
a multideterminação destes fenômenos, neste sentido
é possível avaliar esses acontecimentos também
sobre o prisma econômico, considerando as vantagens e desvantagens
que se produzem quando um grupo social se apresenta como sendo um grupo
consumidor e influente na economia de um país.
Os GAYS TAMBÉM VÃO AO CINEMA
Foi nisso que apostou José Rosemblit o
distribuidor do Filme "Priscilla, a rainha do deserto" (Oscar de melhor
figurino): "não sei quantos gays existem no Brasil e se conseguisse
atingir só eles já estaria satisfeito". Apostou e ganhou,
pois só na primeira semana em cartaz Priscilla foi vista em São
Paulo por 19 mil espectadores. Este record foi analisado por uma matéria
da revista Isto É, onde Ivan Cláudio afirma que os filmes
como: "Banquete de Casamento", "Morango e Chocolate" e "Priscilla", mostraram
que há um público antes não imaginado que lota salas
de cinemas durante semanas, que compra trilhas sonoras e todos os produtos
e serviços que vem a rebote de uma produção cinematográfica.
Segundo Ivan Cláudio:
"O filão está
estabelecido há algum tempo no Exterior e, aos poucos, vem se configurando
nas principais cidades brasileiras", passando a descrever uma série
de acontecimentos que demonstram segundo este jornalista que a "cultura
alegre" é uma das novas tendências no consumo de Artes e Espetáculos,
"O universo gay abandona o gueto e conquista um público maior nas
diferentes produções artísticas". Cita dentre outros
o investimento de US$ 220 mil na montagem brasileira de Angels in America,
uma peça que discute vários tópicos a partir do surgimento
da AIDS, a receptividade do disco do Renato Russo "The Stonewall Celebration
Concert", que já vendeu 60 mil cópias, onde segundo o próprio
Renato Russo estão "canções de amor, eu cantando para
outro cara", e ainda o sucesso da turné do Grupo Pet Shop Boys que
se apresentou com casas lotadas no Rio e em São Paulo, cantando
músicas que descrevem situações homossexuais que no
show foram ilustradas por audaciosos efeitos cênicos. Estas seriam
algumas evidências de que a produção artística
que investe na temática da homossexualidade encontra hoje um público
mais aberto e receptivo.
Correndo o risco de sermos óbvios podemos
afirmar que as produções artísticas que reconstroem
o imaginário fantasmático da homossexualidade encontram eco
e retorno em algum lugar na sociedade, ou seja, existem pessoas com demanda
de ver e identificar suas fantasias sexuais, suas histórias e seus
amores ditos "homossexuais" por via artística.
OS VEÍCULOS OFICIAIS DA COMUNICAÇÃO
Até o ano de 1993 as publicações
que eram dirigidas ao público gay podiam ser classificadas em 2
grandes grupos: publicações eróticas, incluíam
revistas pornôs, revistas de contos eróticos, etc... ou publicações
locais, em geral manifestos ou pequenos jornais de pequena circulação,
na sua maioria de grupos de militância.
A partir de 1993 a Revista da Folha, encarte da
edição de domingo da Folha de São Paulo, passou a
dedicar uma página e matérias de interesse da comunidade
gay, no final de 1994 este espaço era de duas páginas e em
março de 1995 uma das edições editou nove páginas.
Iniciativa semelhante foi a própria Mix
Magazine, publicação do Club Mix que apesar de também
ter uma circulação restrita, tem algumas características
de um veículo de comunicação de grande porte: anunciantes,
serviços de assinatura, parcial divulgação e circulação
fora do estado de origem.
Mas parece mesmo que o marco nesta área
ficou reservado a Sui Generis, "a primeira revista brasileira a trazer
discernimentos sérios e futilidades chics dirigidas para homens
e mulheres gays. Mas sem exclusividade", segundo o próprio editor
da revista Nelson Feitosa. O importante é que mesmo sendo discutível
o fato de que a Sui Generis é ou não a primeira revista do
estilo, certamente não pode ser colocada em questão o mérito
de que esta é a questão é a primeira publicação
mensal do gênero com circulação nacional, contando
com anunciantes de peso como a EMI, CD & Cassete; em outras palavras:
a primeira revista de cultura gay que pode ser encontrada nas bancas como
qualquer outra que não é pornoerótica. Isso parece
uma obviedade, mas é um ato simbólico de ocupação
de um espaço de escrita, que oferece uma escolha como a de comprar
Playboy ou comprar Veja, nenhuma delas é melhor a priori, o que
é escravizante é não poder escolher, não poder
construir uma imagem identificatória a partir de modelos diversos.
A publicação da Sui Generis é
um ato de efeito performativo sobre a cultura, e portanto é um ato
político.
"Nossa intenção é levar a
cultura gay de forma vibrante, inteligente, alegre, para fora dos guetos.
Dar nossa contribuição, oferecendo um jornalismo de qualidade,
para que surja em breve uma consciência social mais generalizada
de que nossas semelhanças são maiores que nossas diferenças",
analisa Nelson Feitosa, deixando entrever que os próprios atores
sociais envolvidos no projeto se representam com agentes de mudança
e conscientização social.
KÁTIA, A RAINHA DA CAATINGA
Foi parodiando o filme Priscilla que a Folha de
São Paulo analisa a transformação de um travesti em
líder político no sertão nordestino: José Nogueira
Tapeti Sobrinho, 42, codnome Kátia se elegeu pelo PFL, sendo o segundo
vereador mais votado no município de Colônia, Piauí.
Na câmara, Kátia exerce o posto de 1º secretário,
é tratado por "ela" e freqüenta sessões vestida como
as suas duas colegas vereadoras.
Kátia assiste aos carentes, arranca dentes,
aplica injeções, ajuda partos, cuida de crianças,
distribui comida, esclarece sobre a AIDS, milita na Câmara e gasta
os R$ 266,00 que recebe com caridade.
"Ela conseguiu com a sua competência, eliminar
essa coisa de ser homem ou mulher" declara o presidente
da Câmara, Elias da Costa Souza (PPR), 63, que á principio
estranhou a candidatura de Kátia.
Kátia acredita que venceu o preconceito
com seu trabalho e provou que os eleitores reconhecem esse trabalho através
do voto na urna apesar dos adversários terem alegado durante a campanha
que a sua candidatura seria cassada por proibição da
lei.
Parece que só nestes últimos dois
anos é que a classe política começou a se aperceber
de que a comunidade gay e seus simpatizantes são uma força
política, uma pessoa de eleitores a ser conquistada, e é
nisto que apostou o PT. O partido dos trabalhadores possui uma "facção
gay", e nas últimas eleições fez campanha com folhetos
especialmente preparados para este tipo de eleitor. A psicanalista Marta
Suplici fez campanha nas principais boates gays de São Paulo defendendo
principalmente o casamento entre homossexuais; foi eleita e é bem
provável que boa parte de seus votos tenham sido de pessoas identificadas
a essa questão. A deputada federal prepara um projeto sobre a legalização
da união entre homossexuais: "Não vejo empecilho em um casal
homossexual adotar uma criança, mas o Brasil ainda é conservador
com esses temas, temos que ir por etapas".
A questão que por vezes passa desapercebida,
é que os deveres para com estado não são diferentes
para pessoas de orientação sexual diferentes, mas os direitos
tem sido negligenciados diferencialmente a partir de uma lógica
das diferenças sexuais.
Kátia provou que o direito a eleição
pode ser reivindicado e democraticamente garantido, mas o direito ao casamento
entre homossexuais ainda está para ser conquistado. O interessante
a ressaltar é que essa discussão está finalmente no
âmbito das instituições governamentais, não
é mais só uma discussão moral ou religiosa, mas uma
discussão política, jurídica e legislativa.
Mas nem só de conquistas vive o movimento
homossexual brasileiro, segundo a Folha de São Paulo: "No ano passado
(1994), em Coqueiro Seco (AL), o vereador Renildo José dos Santos,
que se dizia homossexual, foi esquartejado por inimigos que o aceitavam.
Ele teve a cabeça jogada num rio e partes do corpo espalhadas pela
cidade". Tragédias a parte, este não é um fato isolado.
Segundo pesquisa feita pelo antropólogo Luís Mott, presidente
do Grupo Gay da Bahia um homossexual é morto no Brasil a cada 4
dias. Este estudo vai virar denúncia intenacional; através
do relatório "A violação dos direitos humanos de Gays
e Lésbicas no Brasil", que será lançado no final do
ano em São Francisco (EUA).
Segundo Mott a maioria das vítimas sofreu
algum tipo de tortura, como tesouradas superficiais, depilação,
raspagem da pele, espancamento e até castração.
Entretanto novamente é significativo que
estes sintomas sociais constem de uma escrita oficial, dirigida a um interlocutor
institucionalizado, assim a violência, o preconceito e a desigualdade,
ganham uma palavra desimediatizadora e socializadora, abrindo-se espaço
para atos políticos transformadores. Inscreve-se o laço social
perverso numa outra cena que não a do imaginário sexual,
permitindo-se deslocamentos simbólicos, e produção
de novos pensares e aprofundamento dessas questões. O sintoma da
lógica da exclusão, é assim investigado, ampliado
e relacionado com outras instâncias e processos sociais, facilitando
o reconhecimento, a identificação e a cumplicidade de toda
a sociedade, uma vez que toca em valores mais abrangentes com os quais
nossa sociedade gosta de se representar.
O NÃO DITO
Parece-nos claro que diante dessas evidências
podemos falar de algo da natureza de um processo, obviamente não
importa aqui a objetividade dos fatos, mas os discursos que se produzem
sobre eles, neste sentido não há dúvida de que exista
sim um discurso sobre cena gay, movimento homossexual brasileiro,
conscientização da homossexualidade, cidadania gay, militância
homossexual e uma série de significantes que formam uma cadeia associativa,
um campo semântico por onde deslizam os possíveis sentidos
do "ser homossexual no Brasil", uma construção lingüística
que visa configurar uma subjetividade homossexual valorativamente positiva,
aceita despatologizada, despreconceitualizada, instituída através
da conscientização dos indivíduos e da sociedade.
Desta forma os GLS, gay, lésbicas e simpatizantes,
termo oficializado pela cultura Mix, promoveriam uma cruzada nacional em
prol do respeito às diferenças e às minorias sexuais.
Podemos dizer que há um discurso enlaçado
pelo campo semântico cena gay-homossexualidade-homoerotismo. Esse
discurso ou esses discursos enquanto performances lingüísticas
produzem vários efeitos: políticos, sociais, culturais, dentre
outros, mas nos interessa especialmente o fato de que falamos disso (ou
por isso) constituímos um "sujeito", ou seja, cada vez que a palavra
gay ou homossexual é empregada para descrever fenômenos supostamente
referentes a uma mesma classe de indivíduos constitui-se um modo
de subjetivação, uma posição a ser ocupada,
um papel social, um lugar na cena social, uma posição subjetiva.
É cedo ainda para sabermos quais as características,
traços, ou sentidos que são reservados a este lugar, mas
certamente podemos afirmar que a construção deste lugar se
faz sobre a crença axiomática de que estes indivíduos
são em alguns níveis iguais, sendo que esta igualdade implícita
e inconscientemente é sentida de alguma forma como central da constituição
da "individualidades" ou "personalidades", reinventando-se e reificando-se
assim a noção de indivíduos "homossexuais" em
oposição ao seu outro complementar os indivíduos "heterossexuais".
Podemos afirmar também, grosso modo, que esta divisão imaginária
se faz a partir de uma lógica disjuntiva: ou um, ou outro, assim
existem duas posições mutuamente excludentes: ou se é
"homossexual" ou se é "heterossexual".
Neste jogo narcísico ou se é o escolhido ou se é o
preterido. Bleichmar em seu livro "O Narcisismo -- estudo sobre a enunciação
e a gramática inconsciente" demostra como essa lógica operatória
é própria da lógica do ego ideal.
"O ego ideal, e nesse sentido um enorme edifício
assentado sobre um pilar que ao manter a estrutura total, pode provocar
seu desmoronamento no caso de se quebrar".
Assim a escolha sexual é o atributo suporte
do ego ideal contemporâneo, perdendo-se interesse por toda a história
inconsciente das identificações para focalizar uma das representações
do Eu como sendo a pedra de toque da identidade do sujeito. Desta forma
o atributo diferenciador dos sujeitos, é tomado como sendo a totalidade
da representação do sujeito, assim o juízo e a reação
afetiva que a parte merece passam a ser patrimônio de todo.
Então prossegue Bleichmar "mas que significado
possui dizer que uma valoração estende-se de uma representação
para outra?...O atributo suporte do ego ideal põe em ação
a capacidade do enunciante para classificar segundo a seguinte regra operatória:
todo atributo sobre o qual recaia a atenção será avaliado
dentro de categorias que implicam aceitação e nelas ficará
situado no grau máximo de aceitação".
O que proponho aqui é que essa lógica
funcionaria também para o discurso da homossexualidade.
Nesses discursos o pilar de sustentação
dos sujeitos é a escolha sexual. O discurso do preconceituoso coloca
como pilar de sustentação narcísica a "heterossexualidade"
e qualquer atributo avaliado sobre a lógica terá aceitação
máxima, em contrapartida a "homossexualidade" configuraria o lugar
da rejeição, máxima, o lugar do outro, do estranho.
Assim só haveriam dois únicos lugares o bom e o mau, o Eu
e o Outro, o cidadão e o Bárbaro.
O discurso do preconceituoso assevera a diferença
e marca uma valoração, restando a diferença e marca
uma valoração, restando assim um lugar escravizante, desvalorado
e totalizado, para aqueles que se tomam como destinatários deste
discurso.
Como bem resumido Jurandir Freire Costa: "Assim
a construção de subjetividade ideais implica, ipso facto,
a figura da antinorma ou o desvio do ideal, representada pelos que não
podem, não sabem ou não querem seguir as injunções
ideais. A esses, diz Freud, é reservada a posição
de objeto de desejo de destruição da maioria que em nome
da norma ideal outorga-se o poder de atacar... É o mecanismo da
rivalidade em torno do narcisismo das pequenas diferenças".
Entretanto parece ser digno de nota que o discurso
da conscientização gay, o qual é endereçado
ao enunciante agressor da figura da antinorma, vai na direção
de dizer mais ou menos assim: "Eu sou homossexual mas sou tão bom
quanto você, nem melhor nem pior, apenas diferente".
Ora, o que é falho desta estratégia
é que tentar-se mudar a valoração sem mudar a regra
de enunciação, a saber, que só há dois lugares
possíveis. Reinverter-se libidinalmente o sistema lingüístico
de crenças que deu origem à montagem imaginária a
qual a escolha sexual é o traço fundante do sujeito, onde
repousa o pilar de sustentação narcísica, a base da
diferenciação e separação dos sujeitos em dois
grupos distintos e internamente coerentes, ou seja, mantém-se o
critério pelo qual engendra-se a diferença, só que
desta vez, com a ilusão de que a mudança da valoração
afetiva romperia a lógica da exclusão e do preconceito.
Freud numa nota de rodapé acrescenta em
1915 aos três ensaios questiona justamente a existência destes
dois grupos.
"A pesquisa psicanalítica se opõe
com o máximo de decisão que se destaquem os homossexuais,
colocando-os num grupo à parte do resto da humanidade, como possuidores
de características especiais... Assim do ponto de vista da psicanálise
o interesse sexual exclusivo de homens por mulheres também constitui
um problema que precisa ser elucidado, pois não é fato evidente
em si mesmo, baseado em uma atração, afinal, de natureza
química".
O que Freud insiste aqui é que não
há porque considerar a homossexualidade um significante sobre o
qual devam se render todos os outros atributos de um sujeito, o que justificaria
a criação de um grupo de indivíduos portador de características
especiais, não há essa classe especial de indivíduos
com suposta características semelhantes, a homossexualidade não
é uma categoria da clínica psicanalítica.
É nesta direção que percebemos
que não basta dizer "somos diferentes mas temos igual valor". É
preciso sair do registro do igual X diferente, sair desta questão
da igualdade e diferença via "escolha sexual". Ou haveria um tipo
homossexual de escolha de objeto?
A propósito desta questão Jurandir
Freire Costa demonstra, em seu livro sobre homoerotismo, que o homossexual
é definido como sendo aquele indivíduo com "escolha do objeto
homossexual", isto é, possui atração por pessoa do
"mesmo sexo" entendido como mesma realidade anatômica!? Ele então
questiona exatamente o que é este "mesmo sexo", uma vez que para
a psicanálise, grosso modo, não faz sentido falar de feminino
e masculino através de critério biológicos. O que
Jurandir nos relembra nesta discussão é que "um mesmo sexo
anatômico pode ser suporte de diversos investimentos eróticos"
e que "o mesmo sexo, anatomicamente descrito, nem sempre é o "mesmo"
eroticamente investido. No que concentre a finalidade do desejo a realidade
anatômica é fragmentada na pluralidade dos objetos parciais
e são objetos que determinam as características da estrutura
psíquica".
O que é forte neste discurso é que
a lógica da diferença entre "homossexuais" e "heterossexuais"
só se sustenta no plano anatômico imaginário, logo
o discurso do preconceituoso e o discurso da "conscientização
gay" só se sustentam sobre a lógica da diferença anatômica
dos sexos.
Mas negar a existência da homossexualidade
em oposição a heterossexualidade não seria a negação
da diferença dos sexos? Ou um indivíduo homossexual não
seria em última análise um indivíduo que tenta negar
a castração ao negar diferença de sexos?
Penso que não, pois é preciso sim
reconhecer e suportar as diferenças, suportar o outro estranho e
familiar a mim, entretanto cabe-se questionar a que nível reside
e se sustentam realmente as diferenças.
Daniela Ropa resumiu esta discussão de
maneira pontual:
"Com Freud e Lacan, vemos
que a questão da sexuação no ser humano não
está referida à presença ou ausência do pênis,
mas sim à dialética fálica. O falo sendo aqui entendido
como o referente simbólico máximo que aponta para uma diferença:
não simplesmente para a diferença anatômica, mas para
a diferença mais radical e mais trágica, própria ao
ser humano -- aquela que fala de sua falta e de sua incompletude. É
esta a "diferença" que nos lança em nossa eterna busca desejante;
nesta procura incessante que só vai se satisfazer parcialmente através
do amor -- ilusão necessária de completude que move o desejo
e vem fazer barreira contra a morte e a ausência de sentido".
E é por isso que com freqüência
ouvimos na clínica psicanalítica o depoimento de pessoas
que por se tornarem como destinatários do discurso da homossexualidade,
e que por se representarem e se auto definirem homossexuais queixam-se
de não poderem amar, que "este mundo gay é promíscuo",
"que ninguém quer relacionamento sério".
Entretanto quando tomamos pela linguagem falam
de um lugar livre das injunções defensivas, irrompe-se com
freqüência a percepção interna da dor, da ausência
de sentido e da falta do amor, e é nestes momentos deslizantes que
se vislumbra a falta para ser, a qual leva o sujeito a fazer um pedido
legítimo de análise, para relembrar sua história,
recontar suas mazelas e se reposicionar frente as suas fantasias, lançando-se
para o infinito da linguagem, onde se aspira uma nova construção
narrativa de si e dos outros, uma mitologia poética de sua própria
história, uma tentativa de suportar seu próprio desejo.
É neste sentido que para um psicanalista
não faz sentido falar de um paciente homossexual, pois o que há
de fato é sempre um sujeito que narra sua história, um sujeito
do inconsciente, um sujeito desejante.
É nesta direção que acredito
que a reificação de uma categoria psicopatológica
homossexual é muito próxima da metáfora de Manoel
Tosta Berlinck de " modelos prêt-à-porter ", modelos psicopatológicos
prontos para enquadrar os nossos pacientes, obturar nossa escuta e aliviar
nossa angústia diante do outro estranho que aponta para nossa falta
de saber.
De acordo com Berlinck a clínica
psicanalítica solicita um modelo de "alta costura" para cada
cliente:
"Essa solicitação
pelo clínico, pelo clinicar, envolve seguramente um debruçar-se,
um inclinar-se sobre o sujeito para escutar sua fala, aquilo que diz na
relação transferencial desde um lugar sem rótulos,
que resiste à própria classificação psicopatológica
em direção a uma "veste" feita com exclusividade para ele,
que lhe sirva bem e que lhe dê toda a liberdade possível em
relação às classes que não lhes são
próprias e que lhe dificulta o movimento psíquico".
Assim dizer que um cliente nosso é homossexual
não diz nada deste sujeito, não diz da transferência,
não diz do inconsciente, não diz do conflito não diz
da resistência ou melhor quase não diz da resistência,
pois diz sim da resistência do analista de se "desvestir-se das vestes
psicológicas existentes para escutar o sujeito o que deixa o psicoterapeuta
com uma sensação de nudez, de nada saber de fragilidade,
da confusão, etc..."
Jurandir Freire Costa em A Inocência e O
Vício afirma que o "emprego freqüente do termo (homossexual)
leva-nos a crer que realmente existe um tipo humano específico designado
por esse substantivo comum... A particularidade do homoerotismo em nossa
cultura não se deve à pretensão uniformidade psíquica
da estrutura do desejo comum a todos os homossexuais, deve-se, sugiro,
ao fato de ser uma experiência subjetiva moralmente desaprovada pelo
ideal sexual da maioria".
O Jurandir relembra de Freud é que não
há essa "substância" ou "essência" comum a todos os
indivíduos que se representam ou são definidos como homossexuais.
Não há desta forma possibilidade
de "conscientização gay" enquanto se insistir no aspecto
valorativo da questão, sem se ater e questionar a própria
lógica da construção destes dois lugares imaginários.
Estas classificações nada dizem
das vivências, das dores, e das produções simbólicas
dos sujeitos particulares.
Qual é a função destas classificações?
Não posso responder melhor que Daniela Ropa.
"A que servem" e aqui
penso em termos éticos e morais todas estas classificações
a partir das quais pensamos poder resumir e definir de vez a identidade
das pessoas? Sendo que as classificações em "espécimes
sexuais" parecem valer mais ainda para os que divergem das normas. Estas,
então serão interpeladas quase unicamente em nome de seus
gostos, inclinações ou escolhas sexuais. Deixarão
de ser bons trabalhadores, amigos, cidadãos, maridos ou esposas,
pais ou mães, para se tornarem, quase única e exclusivamente,
homossexuais, bissexuais, travestis, etc..., e toda a longa lista dos que
se encontram no limbo, acusados de algum desvio moral ou patológico.
Nossa sexualidade poderia representar um potencial para a escolha, para
a mudança e para a diversidade. No entanto, nós a transformamos
num desvio, naquilo que mais nos aprisiona. Num destino para "nós"
e num inferno para os "outros", para os que ousaram questionar os limites
da prisão".
Minha leitura do texto de Daniela não vai
na direção de uma clínica da vitimização,
uma vez que acredito que as piores prisões são aquelas que
construímos através das teias e tramas inconscientes, ao
nos deixarmos tomar como destinatários do discurso totalizante do
outro. A questão é que a sexualidade "poderia representar
um potencial para a sua escolha, para mudança e para a diversidade".
Como Ronaldo Pamplona deixa entrever em seu livro "Os Onze Sexos" usando
a metáfora do "caleidoscópio", no qual basta um novo giro
para "fazer surgir as mais diversas imagens da sexualidade humana".
Numa frase não acredito ser legitimo
falarmos de uma subjetividade homossexual.
E foi isso que falou (por) Judy Nelson, miss Texas,
namorada de Martina Navratilova:
" Passei toda a minha vida à sombra de
um homem. Quando me dei conta, estava à sombra de uma mulher".