QUEM TEM MEDO DAS "MINORIAS"?

João Silvério Trevisan

"Finalmente a Universidade de São Paulo entrou no século XX", gritava alguém com euforia no final de uma semana onde se debateu O Caráter dos Movimentos de Emancipação - expressão eufemista para designar a luta dos grupos discriminados no Brasil: negros, mulheres, índios e homossexuais, especificamente. Aceitando ou não o melancólico atraso de quase oitenta anos, a verdade é que a USP foi tomada pela aragem de ventos novos. Bem ou mal, os vários grupos discriminados apresentaram ali suas ansiedades, desejos, reivindicações, protestos. Mas foi no noite de 08 de fevereiro, sem dúvida, que a afirmação dos discriminados atingiu seu ápice, quando os homossexuais manifestaram publicamente sua identidade de grupo social, rompendo a barreira da invisibilidade a que são obrigados. Na verdade , pela primeira vez no Brasil as lésbicas e as bichas tomaram seu espaço e vomitaram coisas há muito engasgadas; o prazer, por exemplo, foi reivindicado entre os direitos da pessoa humana, com alusões concretas inclusive ao prazer anal como direito de cada um sobre o próprio corpo.
A semana encerrou-se com uma mesa-redonda da qual participaram representantes de vários grupos, lamentando-se porém , que os índios só tenham estado presentes através de antropólogos e de um padre do CIMI. O auditório da Faculdade de Ciências Sociais lotou diariamente, apesar do período de férias escolares. Ficou evidente já desde o primeiro dia a polarização política dos debates; de um lado, os grupos de estudantes e profissionais brancos professando sua fidelidade à luta de classes, na linha tradicional da esquerda ortodoxa, que dá prioridade ao fenômeno econômico. E de outro lado, os representantes de grupos discriminados, afirmando a originalidade de sua problemática, de suas críticas e suas análises, absolutamente não abrangidas na luta de classes mas nem por isso menos transformadoras da sociedade. Dois métodos de análise se chocaram, com certeza.
"LUTA MAIOR"
Os grupos discriminados (ou estigmatizados, ou minimizados) conseguiram apresentar seus pontos de vista, recusando-se a aceitar sua luta como "secundária" diluída na falsa imposição de uma "luta maior". Já de saída, os negros (reunidos no Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial) exigiram um espaço a si próprios e às análises específicas de sua problemática, na medida que sua autodeterminação ideológica e sua identificação racial/cultural significam elementos primordiais no enfrentamento ao racismo. Ao lado dos homossexuais, foram eles os críticos mais coesos à esquerda tradicional, branca e machista, que em nome de ideologias progressistas acaba acentuando sua descaracterização cultural e ditando-lhes regras de bem-agir.
Evidentemente, os negros receberam insistentes acusações de estarem provocando divisionismos. Mas nem por isso deixaram de falar; aliás, jamais vi negros brasileiros falando de si mesmos com tamanha consciência. Também é verdade que os representantes da esquerda mais ortodoxa foram abandonando o salão à medida que sentiam a determinação dos negros em não se enquadrar nas análises prontas que pretendiam diluir sua luta. Não duvido que a recusa em dialogar com os negros enquanto negros  já implicava, ali, numa atitude discriminatória básica; pode-se dizer que houve, ao vivo, testemunhos eloqüentes ( e inadvertidos) de racismo por parte de setores brancos esquerdistas.
Aliás, no debate sobre feminismo, esses mesmos setores evidenciaram, desta vez, uma postura machista e patriarcal - é ainda mais fácil escamotear os problemas das mulheres... A discussão tornou-se particularmente espinhosa porque havia divisões entre os próprios grupos de mulheres presentes à mesa - as mais ligadas ao Movimento  do Custo de Vida, p. ex. desconheciam  os critérios feministas e pertenciam a extratos mais proletários. Diante disso, instalou-se uma lamentável dicotomia: a representante do jornal Nós Mulheres foi - exatamente por reivindicar autonomia para o feminismo - acusada de pequeno- burguesa e condenada ao inferno ideológico.
Também nesse caso, a atitude defensiva de certos esquerdistas evidenciou suas fobias diante do novo e seu fundamental sentimento de culpa enquanto classe - quase todos ali tinham as mesmas raízes pequeno-burguesas. Seu populismo digestivo ficou patente quando uma mulher da periferia - presente à mesa de trabalho e com certeza católica pouco receptiva a teses feministas como "direito ao aborto" - deu testemunho público de sua fidelidade incondicional ao marido, aos nove filhos e às tarefas caseiras; a platéia "progressista" aplaudiu com entusiasmo, inconsciente de seu próprio machismo e da postura essencialmente conformista dessa mulher.
Enquanto isso, as feministas ali presentes afirmavam a condição de dupla exploração da mulher proletária, cujo trabalho caseiro é utilizado gratuitamente pelos patrões, para baratear a mão-de-obra masculina. É evidente também que problemas como sexualidade, reprodução e socialização da educação infantil não se restringem às mulheres das classes médias - exatamente porque trata-se de questões comuns. Daí, as feministas reivindicarem autonomia para a luta e organização das mulheres, na medida que o não reconhecimento dessa autonomia reforça sua marginalidade e tende a colocá-las politicamente em segundo plano.
Nesse sentido, um dos maiores equívocos da platéia "esquerdista" foi exatamente recusar o status de luta política tanto ao feminismo quanto aos demais grupos discriminados - falava-se em simples "discussão existencial", num evidente tom de descaso. As feministas reafirmaram corajosamente que, mesmo recebendo a solidariedade dos homens, são as mulheres que devem conduzir sua luta, sem esperar o advento de uma revolução social; ou seja, sua luta extrapola a mera luta pelo advento de uma sociedade socialista (sem classes); seus problemas ultrapassam os limites do capitalismo na medida que a estrutura patriarcal não é privilégio dos regimes burgueses; basta, por ex., constatar a ausência de mulheres entre as lideranças dos países socialistas.
UM AVANÇO
Acredito que nessa semana, e sobretudo em 08 fevereiro, setores da esquerda tradicional podem ter sofrido um avanço considerável na compreensão da realidade brasileira. Ao mesmo tempo, os grupos discriminados avançaram politicamente: apossaram-se do seu espaço e provocaram uma rediscussão do fechado conceito de revolução, abrindo dúvidas sobre a condução desse processo. Ficou claro, por exemplo, que as maiorias não existem senão enquanto abstrações manipuladas pelos detentores do poder, sejam eles de direita ou de esquerda. A "maioria" está sempre composta de inumeráveis e contraditórias minorias cujos problemas reportam-se às individualidades que são sempre - e felizmente - particulares e irrepetíveis. Nesse sentido, é falsa a contraposição maioria/minoria, geral/específico, prioritário/secundário, econômico/cultural - na medida que as análises e estratégias devem passar sempre por esses conceitos, de forma não-excludente.
Por isso, parece-me que a contribuição mais original que os grupos discriminados podem trazer para uma transformação social é exatamente essa afirmação das especificidades individuais e grupais, contra todas as tentativas de mascarar e negar as diferenças. Daí, propõem também uma crítica ao autoritarismo especulativo e metodológico, inclusive em relação aos setores auto-denominados progressistas.
Se o fator luta de classes não abrange a problemática dos grupos equivocadamente chamados de "minorias", deve-se acrescentar a ele novos instrumentos de análise. Sobretudo na questão da sexualidade é que se evidencia a insuficiência de certas posturas ortodoxas: como, na verdade, explicar a questãosexual através de um mero fator econômico, sem dogmatismo. Com dizia, no auge dos debates, uma bicha "enragé", de mãos nas cadeiras: "Está bem faz-se a revolução; e depois quem vai lavar os pratos?"
A luta dos grupos discriminados é, sem dúvida, uma luta da maioria, pois as especificidades concernem à maioria. A sociedade como um todo tem que ser responsável por cada uma de suas partes; entre outras coisas, pelo machismo, racismo e sexismo que oprimem os grupos discriminados; em outras palavras, os problemas particulares só existem, enquanto problemas, em relação ao contexto social que os provocou. Por isso também a acusação de separatismo é falsa. Foi o que as bichas e lésbicas gritaram em 08 fevereiro: separatista é quem não aceita a participação das individualidades, para além das fórmulas preestabelecidas. São inúmeros os exemplos de recusa sistemática que muitos setores de esquerda têm diante dos homossexuais, por ex., escamoteando o problema e relegando à obscuridade esse dado pessoal de tantos companheiros seus.
MINORIAS
A própria palavra "minoria" mereceu contestação enquanto definição aplicada aos grupos discriminados, pois já carrega em si uma idéia de coisa secundária, não-representativa, menos importante. Mesmo porque o critério quantitativo é discutível: as mulheres, por ex., compõem mais de 50 % da humanidade. Depois, as classificações à base de uma mera enumeração estatística podem resultar insuficiente e inexatas: negro é apenas o preto retinto ou vários tons de mulato? Se a homossexualidade se caracteriza por sua invizibilidade, como saber quantos homossexuais existem no Brasil?
Acima de tudo, quem consagra as definições são os donos do poder; os brancos, machos e heterossexuais naturalmente tenderão a defender-se, chamando a si mesmos de maioria. E, como no sonho democrático acaba-se criando a ditadura da maioria, associa-se sempre o majoritário ao normal. Daí ser feia a negritude, doentia a homossexualidade, bárbara as culturas indígenas e burras as mulheres. Mas, como dizia Gore Vidal, se normal e certo for aquilo que a maioria faz, então a masturbação seria a mais perfeita forma de sexualidade, ganhando de longe à atividade heterossexual, entre a população.
Em resumo: a definição de "minoria" já denuncia uma repressão implícita na própria designação, que minimiza a importância social dos grupos atualmente discriminados. Acredito que convém começar pelas bases da opressão: destruindo as definições consagradas pelo sistema.
Os debates ocorridos na USP abriram brechas nas velhas posições. Quem presenciou as discussões e participou da explosão de solidariedade dentro, por ex., do grupo homossexual           sabe que as coisas podem começar a tomar novos rumos. Estavam eufóricos tanto negros, bichas, lésbicas e feministas quanto os brancos heterossexuais sensíveis que compreenderam a importância histórica dessas discussões, para ruptura das posições dogmáticas. Quem quis e pôde, tirou dali uma proposta libertária concreta, os vários grupos sociais têm o direito de determinar sua própria luta, de baixo para cima, sem centralismos: nem imposições hegemônicas que devem fazer ou não. Descobrimos saborosamente a riqueza da diversidade. Isso, espero, continuará sendo tema das discussões no Comitê dos Grupos Discriminados, que se formou para a elaboração de uma possível política conjunta.
Ou se aceita o potencial contestador dos grupos discriminados ou historicamente este país estará vivendo mais um equívoco. Não convém a gente esperar a revolução para começar a lavar os pratos. Isso em si já significa uma aceleração do processo transformado.