
DEUS NOS LIVRE DO "BOOM GAY"
Fernando Bittencourt
Há dois anos, juntamente com o lançamento Zero de Lampião,
circulou uma fofoca no Rio e em São Paulo de que uma agência
internacional de notícias preparava uma grande reportagem sobre
a vida homossexual no Brasil, concentrando-se no Rio como a "nova meca"
dos gueis do mundo inteiro. Que eu saiba, tal matéria nunca saiu.
Meses mais tarde, porém, apareceu na redação de Lampião
um americano muito tímido, da Associated Press, que estava fazendo
um "levantamento sobre os movimentos homossexuais que começavam
a surgir", e tomou nosso jornal como ponto de partida. Mas, como todo americano,
mesmo tímido e tranqüilo como o tal repórter, ele queria
nos arrancar estatísticas, dados científicos, porcentagens
da população homossexual, coisas que não estávamos
preparados para fornecer. Mesmo assim a matéria foi feita e distribuída
para todo o mundo pela AP: temos as provas; nos chegaram recortes até
do Egito.
Nestes dois últimos anos quase não tivemos tempo de respirar,
nós que fazemos o Lampião. Aconteceu de tudo, coisas boas
e más - de perseguição policial a uma reação
absolutamente entusiasmada de leitores de todo o Brasil. Sem querer, a
gente se transformou para alguns entusiastas do jornal em espécies
de gurus, de vacas sagradas, coisas que seriam as últimas que escolheríamos
para ser: sagradas e, principalmente, vacas. Mas essa fase também
passou e acho que a vencemos desfazendo todos os mal-entendidos que pintaram
e tentando desmanchar o nó que deu na cuca de muita gente que passou
a pensar que os lampiônicos eram homossexuais profissionais, misóginos
e sexistas.
Ao contrário de tudo isso, o que nós quisemos e queremos
fazer com Lampião é reunir, na medida do possível,
sob uma mesma bandeira, todos aqueles que não tiveram voz até
agora e que sempre foram oprimidos pela sociedade ocidental. Foi para esses
párias que Lampião surgiu e seus editores, como homossexuais,
não podiam deixar de esclarecer sua posição dentro
da luta geral e do quadro reivindicatório das várias minorias.
Nem em Lampião nem em qualquer outro lugar pretendemos impor o nosso
ponto de vista. Ao contrário, o jornal não só veiculou
como defendeu todas as causas minoritárias cujos representantes,
às vezes depois de muita indecisão, nos procuraram para expor.
E não foi raro que essas criaturas tão discriminadas quanto
nós não conseguiram esconder o espanto de encontrar pessoas
que, afinal de contas , eram "normais".
Tudo isso é para pedir que não nos venham querer culpar agora
por esse verdadeiro "boom gay" que está pintando nas paradas. Nada
temos a ver com os "bissexuais" que todas as semanas vêm se confessar
de público nas grandes revistas de circulação nacional
sobre as técnicas que usam para atender na cama a seus cônjuges
de ambos os sexos, nem publicaríamos declarações de
cabeleireiros que claramente estão mentindo para atrair mais freguesas.
Para nós, isso tudo "é coisa da CIA", como disse Glauber
Rocha. Lampião não está inserido em nenhum projeto
desse tipo, não pretende promover quem quer que seja, ou melhor,
encontra-se exatamente na outra face da moeda.
Para Lampião, o que interessa, são as manifestações
marginais desse chamado boom gay e não o bottomless fabricado
em Ipanema por bichinhas que nunca tiveram coragem de arriar as calças
no Buraco da Maísa. Sim, nos interessa essa proliferação
de espetáculos de travestis que está ocorrendo no Rio. E
nos interessa porque achamos ser esse fenômeno de grande importância
para a conscientização da comunidade travesti, a mais marginalizada
e alienada de quantas se possa imaginar entre os grupos estigmatizados.
Ao conseguir se organizar em grupos teatrais, os travestis estão
vencendo antigos e profundos preconceitos que não lhes permitem
aparecer na televisão ou gravar discos, como diz muito bem Eloina
no excelente "Gay Girls".
No contexto da sociedade Ocidental, o travesti é uma figura enigmática,
para não dizer imprópria. No entanto, no Oriente, sabe-se
que o travestismo é visto como um fato perfeitamente natural em
muita tribos e até em países inteiros. No teatro japonês
e no indiano, os homens representam geralmente o papel de mulher. Então,
por que não ter o Oriente como a nossa matriz? Além do mais,
a exposição diária na ribalta, análise constante
de uma platéia heteróclita em muito poderá ajudar
o travesti a se entender.
Lampião é um jornal que se quer engraçado e alegre,
mas ele também é sério em matérias fundamentais
como o direito ao prazer e à alegria de viver. Ao encerrar-se março
e com o início do nosso outono tropical sentimo-nos exaustos
com as trabalheiras de Lampião. Cada um de nós começou
a fazer planos para um justo recesso, que afinal ninguém é
de ferro. Para amenizar a nossa linha editorial pensamos em lançar
um concurso entre nossos leitores para a escolha da "Bichinha do Lampião"
, tema que tem sido motivo de dúvidas cruéis constantes entre
os editores. Bolamos também um outro concurso bem digerível
e narcisístico, "O Boneco mais Bonito da Lampião", mas esse
descobrimos logo que tinha as cartas marcadas, porque Darcy Penteado certamente
ganharia.
Pessoalmente, cada um de nós começou a bolar algum tipo de
mudança na sua rotina de vida. Aguinaldo Silva foi o mais audacioso:
"Vou virar heterossexual", gritou ele de repente na redação,
como se tivesse descoberto o ovo de Colombo, mas ninguém o levou
a sério. Eu, na minha parte, comecei seriamente a pensar em ficar
louco, pinel mesmo, por algum tempo. Mas iria eu agüentar uma barra
tão pesada só na base dos psicotrópicos? E se eu fundasse
o falanstério do meu sonhos, com um grupo de amigos muito amados,
para se falar sobre as coisas boas e más da vida, sem rancores e
ressentimentos? Quanto sonho, quanta loucura! Logo veio a reunião
de pauta e todos nos lembramos de que "abril é o mais cruel
dos meses" e que havia muito trabalho pela frente.
Me propus analisar o boom gay para este número. Só quando
me sentei na máquina é que comecei a pressentir que havia
uma armadilha no meio do caminho. Na verdade há dois booms gays:
o deles e o nosso; o da sociedade machista que usa os tais cabeleireiros
bissexuais para exibi-los em seus salões como a corte portuguesa
exibia os índios levados do Brasil, e as gafieiras de bichas onde
mesmo as mais enrustidas sentem de repente que estão se assistindo
nascer outra vez, totalmente livres, mesmo que seja por algumas horas.
É a indústria da permissividade, isto é, de algo permitido,
tolerado, e a descoberta da prática sem restrições
do prazer, de um prazer que te afirma e te completa.
No lado positivo do boom gay quem se diverte naturalmente, não
é a chamada alta sociedade: esta está do outro lado da moeda.
O Rio, aos sábados, tem agora uma quantidade regular de lugares
para se escolher. A Gueifieira voltou a todo o vapor. O Cabaré Bifão
que começou triste é agora o lugar mais alegre da noite,
e o mais ecumênico também: lá dança homem com
homem, mulher com mulher e até homem com mulher. O Cabaré
Casanova, depois de um período de crise voltou a ter a lotação
esgotada quase todas as noites. No fim de março abriu uma nova casa
para a comunidade gay, na Rua Voluntários da Pátria, no antigo
Schnitt, e a Gafieira Elite do Botafogo vai inaugurar por estes dias.
E uma festa mesmo. Eros está solto, fazendo misérias,
e a isso Lampião só pode aplaudir. Com Eros nos protegendo
nunca teremos do que nos queixar em matéria de alegria e prazer.
E como se isso não bastasse, há ainda a oportunidade de se
ver no teatro o show "Gay Girls", com um desempenho admirável de
Maria Leopoldina, artista que proponho desde já para o próximo
prêmio Molière de Melhor Atriz, embora a crítica da
chamada grande imprensa não tenha se dignado a ir ver o espetáculo
(da mesma forma que foi, para meter o pau, no inesquecível
show de Ney Matogrosso). Essa crítica, como diz Helio Fernandes,
só ouve a voz do dono e só escreve o que ele manda. Por isso,
Sr. Joseph Alfin, diretor da Air France no Brasil, peço-lhe que
vá ver o espetáculo "Gay Girls" para comprovar o grande desempenho
de Maria Leopoldina, uma atriz completa em todos os sentidos. Depois, na
época oportuna, dê um puxão de orelhas nos seus críticos
de coleira por não terem pelo menos indicado a atriz para o Molière.
E outro acontecimento na cidade no que diz respeito ao boom gay do lado
positivo da moeda é a presença de Dercy Gonçalves
outra vez entre nós. E com ela, senhores e senhoras, está
trabalhando uma das criaturas mais delicadas e inteligentes que conheci
ultimamente. Chama-se Vera Abelha, é paulista, linda, comovente
como ser humano e ótima atriz. É um travesti. (Fernando Bittencourt)
