
PEGA PRA CAPAR EM BRASÍLIA
Alexandre Ribondi
No sábado 21 de setembro, Brasília teve sua noite cortada
ao meio por volta das 24 horas, a Rodoviária e o Setor de Diversões
Sul (que formam o que se poderia chamar de "coração da cidade",
não fosse Brasília feita apenas de avenidas paralelas que
nascem e desembocam no cerrado) foram invadidos e tomados pela polícia
que conseguiu, em pouco mais de uma hora, dar uma inesquecível demonstração
de força.
De certa forma, isto não chega a ser exatamente extraordinário.
É justamente nesta parte da cidade que se reunem os travestis, os
michês, as prostitutas e os seus fregueses. Além disto, nos
fins de semana, todos, obrigatoriamente, passam por ali: os que apenas
vão aos cinemas, os que desfilam por horas sem fim nas passarelas
que ligam a asa sul à asa norte, os soldadinhos escapulidos dos
quartéis e que buscam guarida por uma noite, os operários
da construção civil e a classe média com dinheiro
para gastar. Todos eles freqüentam as mesmas boites (a Aquarius, com
uma clientela homossexual e, praticamente ao seu lado, Bataklan, que apresenta
moças a go-go) e os mesmos bares que, sem exceção,
não disfarçam o ar de botequim e que têm, sempre, todas
as mesas ocupadas.
Assim quando a polícia começou a chegar muita gente não
deve ter estranhado: afinal, bastaria, como sempre, apresentar os documentos
e continuar buscando diversão mesmo que, visto de fora, o espetáculo
tenha ares deprimentes: a repressão e a hipotética descontração
passeando lado a lado. Desta vez, porém, a coisa mudou de figura
e uma batida generalizada, que teve o patrocínio do Departamento
de Polícia Federal e Juizado de Menores, fechou todos os bares e
uma das boites - justamente a Aquarius. Mais tarde, uma das pessoas que
não conseguiu escapar a tempo descreveu a cena: "havia de tudo,
polícia de uniforme, polícia sem uniforme, cassetetes, espingardas
e metralhadoras. E aquelas armas todas apontadas para gente. Se fosse para
contar, eu diria que havia mais de 400 policiais cercando o local."
A princípio, quem tinha documento ou podia provar que trabalhava
era mandado embora, com o conselho de que fosse rápido para não
ser chamado novamente. A coisa parece ter aumentado de proporção
quando, segundo a própria polícia, foi encontrada maconha
na boite Aquarius, o que teria justificado seu fechamento e a prisão
de seus freqüentadores, que foram postos em fila e obrigados a entrar
nos ônibus que já estavam lá - o que dá todos
os indícios de que a polícia já estava disposta a
levar todo mundo. Na delegacia não aconteceu nada que fugisse à
regra: foram todos identificados, serviram de motivos de risos (com perguntas
do gênero: "o que é que vocês estavam fazendo lá?")
e foram mandados embora. Enquanto isto, outras pessoas eram sitiadas numa
das praças do Setor de Divertimento Sul, obrigadas a responder ao
mesmo tipo de perguntas e, em seguida, dispensadas. Quando o proprietário
da Aquarius chegou, às 2 horas da manhã, encontrou a sua
casa fechada e já não havia quase ninguém que pudesse
lhe informar a respeito.
No domingo seguinte, no entanto, no Juizado de Menores ouviu certas explicações:
a primeira era que não havia sido o Juizado o responsável
pela ordem de fechamento. Na verdade, não havia ordem nenhuma e
a boite havia sido fechada apenas para averiguar quem era dono da
maconha encontrada em seu interior. Curioso é que a maconha estava
no bolso de seu próprio dono, o que, com um raciocínio mais
ou menos afiado, dispensaria qualquer investigação. Em seguida,
à pergunta do proprietário da boite de por que apenas sua
casa havia sofrido conseqüências tão graves, enquanto
a Bataklan (a que tem moças a go-go) pôde continuar com seu
expediente normal, a resposta dada foi bem simplória: "Não
podíamos fazer isto. Lá havia muitos senhores de respeito."
Dito isto, a Aquarius reabriu no domingo mesmo, apresentou seu show
e muita gente se aventurou a ir até lá ver em que pé
as coisas haviam ficado.
No entanto, passado o susto, cabe peguntar: e tudo isto, a que foi?
Simples operação de rotina ou é mesmo para desconfiar
que a polícia tenha empregado tantos homens e tantas viaturas para
apenas averiguar o local, que tem, digamos, uma certa fama de barra pesada?
De qualquer modo, parece sintomático este excesso de zelo e preocupação
com a moral pública. Afinal, em menos de um mês, a cidade
foi sacodida por duas fortes rajadas de repressão que deram muito
o que falar: além da boite Aquarius fechada em meio a tanto aparato
e escandalosa parafernália, uma festa promovida em um sítio
e que convocou toda a ala mais jovem de Brasília (o nome da festa
era rockonha, óbvia aglutinação de rock e maconha,
e que os jornais locais não cansaram de divulgar durante toda a
semana seguinte, e o convite foi impresso em seda de fumar baseado) também
foi interrompida por uma numerosa tropa de choque, que foi à festa
acompanhada de seus cachorros e inclusive de espantosos fogos de artifício
usados para provocar pânico. O pai do dono da festa está envolvido
em uma longa história onde tornou-se a vítima principal,
por permitir que seu filho promovesse orgia e encontros de marginais,
e corre o risco de perder o sítio. Justamente ele, que declarou
não saber de nada do que estava acontecendo porque seu filho foi
criado para levar a vida que quisesse. Para as outras famílias,
porém tamanha liberdade sempre traz problemas.
É impossível não ligar estes dois acontecimentos -
ambos visam apenas dar satisfação à moral. Outros
incidentes mais graves, ou crimes verdadeiros, continuam sem solução,
enquanto que as bichas e os maconheiros servem muito bem como bodes expiatórios
para um sistema falido que, além da moral, não consegue dar
mais nada à sua classe média que o mantém no poder.
Assim, é possível imaginar o alívio estampado na cara
dos chefes de família, certos de que suas filhas não serão
disvirginadas e viciadas em festas ao ar livre e que seus filhos não
correm o risco de serem corrompidos por "bichas violentas". Para eles,
tudo isto é muito mais importante do que os atentados a bomba, do
que a vilência da direita, do que a inflação e a miséria
juntas. E o poder, afinal, sabe onde pisa.
