OS MITOS DA PASSIVIDADE E DA PROMISCUIDADE

                                                                                      Paulo H. Longo

          Muitos são os argumentos usados pelos preconceituosos para a legitímação da discriminação contra os homossexuais. Grande parte estão relacionados com uma absoluta falta de conhecimento da realidade e do comportamento homossexual. Quem nunca ouviu aquele famoso argumento: "Não consigo engolir essa história de um cara dar a bunda parar outro". Logicamente, isso levanta o mito da passividade, ou seja, a crença de que ser homossexual significa necessariamente preaticar sexo anal. O pior é que este argumento promove uma vicissitude cultural que chega a criar uma "gradação" do comportamento homossexual: o indivíduo é mais homossexual se realizar o sexo passivo. Diversas têm sido as análises neste sentido, mas nunca é demais insistir que tudo isso está intrinsicamente ligado à inevitável questão do poder e dominação, tão presentes na cultura do macho.
          Ser passivo - independente da freqüência com que isto se dê - em muitos casos levaa uma inevitável comparação com o papel feminino. Acredita-se que o passivo é o subjugado, o dominado, o "mulherzinha", numa nítida alusão ao papel inferior que deve ter a mulher ou tudo o que se relaciona com o feminino. Enfim, simplificando, ser passivo é ser inferior. Ao contrário, ser ativo é ser superior. É dominar, subjuga, exercer o papel destinado ao homem.
          Crenças deste tipo promovem uma confusão de identidades sem precedentes. É aceito - e esperado - em nossa cultura o desempenho do papel ativo, independentede quem seja o sujeito passivo na relação. Daí a maior facilidade de aceitação do homem que "come veado". Muitas são as histórias de pais que, ao descobrirem a homossexualidade de seus filhos, perguntam sobre o papel que estes desempenham na relação. Acredita-se que "comer veado"não compromete a masculinidade. Quantos adolescentes não comem a chamada "bicha da rua ou do edifício" sem qualquer problema com isso? Em nenhum momento se consideram homossexuais, isto está fora de cogitação. O veado é quem dá, e pronto.
          Essas contradições trazem conseqüências indeléveis. Muitos indivíduos entram num tal processo de culpa por desenvolverem a atividade sexual passiva (comprazer, é lógico), que chegam a processos de total negação de sua identidade, procurando subterfúgios extremamente dolorosos.
          Inclui-se ainda no mito da passividade a idéia de que "os efeminados são passivos" ou que "os passivos são efeminados", reforçando-se a idéia da passividade ligada ao feminino, ou seja, exclusiva da mulher. Sabemos que a atividade sexual passiva independe dos estereótipos.
          Costuma-se usar como argumento a própria questão fisiológica. Comumente, utiliza-se o argumento de que fazer sexo passivo está errado, porque o ânus "não foi feito para isso" ou porque está prática sexualé anti-higiênica, provoca conseqüências irreversíveis etc. Trata-se de uma visão no mínimo reducionista, visto não levar em consideração outras práticas como, por exemplo, o sexo oral.
          Obviamente, o mito da passividade envolve uma complexidadede fatores que não se esgotariam em poucas palavras. Vale, contudo, trazer à tona o assunto para a reflexão, introduzindo o aspecto fundamental que é quase sempre negligenciado nestas discussões: o PRAZER.
          Um outro mito constantemente associado ao comportamento  homossexual é o mito da promiscuidade. Brada-se aos quatro ventos que ser homossexual é ser constitucionalmentepromíscuo. Esta aí mais um aspecto que tem servido para a legitimação do preconceito, numa tentativa sórdida de igualar as pessoas com uma mesma opção sexual.
          A epidemia de AIDS trouxe com força total esta discussão. No início da epidemia, considerava-se que o principal "fator de risco" era o comportamento homossexual, chegando-se inclusive - em diversos estudos - a afirmar que os homossexuais seriam sujeitos com maior propensão à infecção pelo HIV devido a seu estilo de vida. Chegou-se ao absurdo de crer que haveria um "viver homossexualmente" que deixaria os indivíduos expostos a esta e outras infecções, e que isto teria como componente principal a promiscuidade. Considerando-se, de maneira a mais simples possível, a promiscuidade como mero fator quantitativo - ou seja, o indivíduo promíscuo seria aquele com grande número de parceiros -, nem isto seria suficiente para uma generalização do estilo de vida homossexual.
          Na homossexualidade há reações estáveis, muito mais do que se possa imaginar, e o homossexual não é necessariamente o que fica horas num mictório caçando ou se embrenhando noite adentro nos locais mais ermos. Esta generalização talvez se dê a partir do que é visível, do que é escandaloso. E talvez por isso tão fascinante e condenável pelos mais conservadores.
          Mais uma vez a mesma sociedade que condena cria mecanismo de tolerância que livram as práticas dos que condenam. Não existem heterossexuais promíscuos? Existem, sim, e isto é mais um importante fator paradoxal em nossa sociedade. Aos homens é incentivado o comportamento sexual promíscuo desde cedo, mais macho será aquele que comer maior número de mulheres (e, quem sabe, de veados). Promíscuo, como diz Rogéria, é o homem, independente de ser ou não homossexual. E isto é culturalmente aprendido e incentivado.
          Impressionante como os mitos da passividade e da promiscuidade, usados para a legitimação do preconceito contra os homossexuais, servem como alicerces para um desejado modelo de macho. Coitadas das fêmeas.