
BANHO DE LÍNGUA...A MUDANÇA DOS SENTIDOS
Eugênio Myself
A linguagem humana
é o mais perigoso dos bens que possuímos. No processo da
fala fazem-se simultâneas a presença e a ausência. Ao
mesmo tempo que revelamos o nosso ser também o ocultamos. O grande
perigo é a transformação da linguagem num utensílio,
que impossibilitaria ao homem ser homem. A palavra é o vínculo
que permite ao homem pasar do dizer silencioso do ser ao falar humano.
A linguagem é o passaporte para a expressão da existência
e, portanto, do desvelamento do ser.
Mas, falar não
é meramente dizer algo de si para o outro. Falar é o ato
de captar o que está descoberto e apreender o que existe. Parece
complicado, mas na realidade é uma experiência cotidiana.
Vejamos: quando falamos de algo nós não inventamos sua existência,
apenas captamos suas características fundamentais e as transformamos
em palavras, Fazemos um discurso, isto é, articulamos o que é
compreensível.
Ao mesmo tempo que
a a palavra nos concede acesso ao universo existente, ela também
nos coloca diante da precariedade da vida humana. Damo-nos conta de que
somos seres finitos e que nossas palavras não são suficientes
para dizer o mundo e sua vastidão. Afinitude deve, então,
caracterizar o discurso humano, limitá-lo pela estreiteza da concepção
do ser.
Mas, como as pessoas
se relacionam com as palavras? De um modo geral, as palavras invocam um
universo mágico, mutante em constante processo formativo e criacional.
Não é apenas um universo das pesquisas filosóficas
e da linguagem científica, mas podetornar-se espaço do lúdico
através da criação de novas expressões, línguas
e códigos acessíveis a determinadosgrupos. A linguagem pode
significar busca de segurança ao limitar o acesso de sua compreesão.
Os grupos minoritários tendem à elaboração
de um dialeto específico. São bem conhecidas expressões
como adé, axó de mala, cacura, mona, laquaqua, bofe entre
outras. Com o tempo, o dialeto é assumido pelo grupo majoritário
e se perde enquanto código de acesso.
A fala não
é expressão teórica simplesmente, descrição
da realidade que nos rodeia ou exercício lúdicosem relação
com que fala. Antes, expressa sentimentos desvelando o íntimo do
ser, embora tenha a capacidade também de ocultá-los.
A palavra é
na verdade um jogo de esconde-esconde. Ela se mostra rica e fecunda na
medida em que se dá a encontrar. Mais ou menos assim: "Eu não
compreendo você porque você também não pode me
compreender. Eu não conheço você porque não
deixo você me conhecer!". Assim como a fala é essencial, a
lacuna verbal expressa o homem na mesma intensidade. Adentra ao processo
de comunicação a importância dos gestos. O gesto explica
a palavra, revela-a em sua concretude e corporeidade. Palavra e gesto formam
um conjunto inseparável, que recebem na teologia cristã o
conceito de sacramento. A palavra é concretizada no gesto e este
adquire sentido pelas palavras que foram pronunciadas. "Eu te amo pode
ser apenas uma palavra. Um beijo pode ser somente um gesto. Se juntamos
os dois..." nem precisa prever o que acontece.
Quando nós
falamos podemos ter a impressão de imparcialidade de nossa e impessoalidade.
Contudo, os recursos de nossa fala expressam o que as palavras tentam esconder,
porque extrapolam o intelectivo e esbarram no sensual e no afetivo. É
delicioso poder ler as sublinhas... Gestos que demonstram mais poder
do que palavras ríspidas ou silêncios prolongados, Olhares
que denotam carência diante da palavra arguta.A comunicação
é extremamente revelatória. A teologia cristã fala
da revelação de Deus: manifestação de Deus
na história. No ato da criação aparecem os elementos
acima citados: Faça-se (palavra imperativa) e modelou o homem do
barro (gesto concreto do oleiro).
Na medida em que
as pessoas relacionam-se vão se proporcionando alternâncias
de palavras e gestos até que sintetizem os elementos e verdadeiramente
se comuniquem. É que conhecer alguém se dá no processo
e deixar-se conhecer pelo outro. Revelar-se e desejar revelar. O segredo
da relação é conhecer o outro como mistério
e não como problema. O problema é para ser desvendado enquanto
o mistério é para ser integrado na vida.
Até agora
nos dedicamos ao falar. Mas, ouvir não é importante?
Se falar possibilita
a aproximação, o ouvir é o que estabelece o jogo das
relações. O ditado popular explicita o afirmado: "Não
confunda caçarolinha com espingarda de caçar rolinha". É
no ato de ouvir a mensagem que nos deparamos com as distorções,
que acabam por destruir as relações. "Mas eu não disse
isso!". E até que se convença o outro de que amarelo não
é cinza... Em todo o caso já está instalada a dúvida
e com ela a fragilização da relação. Imagino
que todos estejam se perguntando: E qual a conexão de tudo isso
com a homossexualidade? Passemos especificamente ao ponto.
As palavras passam
por mudança de significado. Evidentemente, isso não se dá
impunemente, mas sempre tem um objetivo específico e muitas vezes
não explicitado ou assumido. É a partir dessas transformações,
que elaboram-se os preconceitos e as interpretações infundadas
dos textos.
A Bíblia
concede infinitas possibilidades em sua interpretação, como
vimos no artigo anterior. Segundo os diferentes contextos históricos,
algumas palavras foram de tal maneira deturpadas, que impossibilitavam
qualquer acesso interpretativosem esbarrar na abominação
sexual e suas expressões. Vocês poderão conhecer alguns
exemplos extraídos das cartas paulinas e compreenderão o
percurso de uma palavra no tempo.
1) Malakós: palavra grega que significa literalmente "suave". "Mas
o que fostes ver? Um bom homem vestido com vestes finas?" (Lc 7,25;Mt 11,8)
Num contexto moral,
malakós significa: moralmente fraco, que carece de auto-controle,
negligente.
Até o momento
não se justifica sua aplicação para a temática
da homossexualidade. Convém lembrar que estamos na gênese
da palavra, no grego bíblico dos textos evangélicos. A mesma
palavra vai adquirir conotação absolutamente distinta na
época patrística (mais ou menos a partir do século
IV).
2) Malakía: grego patrístico (século IV, aproximadamente)
Significa comportamento
dissoluto e ocasionalmente utilizado para atividades sexuais específicas
(masturbação).
A aplicação
morla de malakós foi transformada em dimensão sexual séculos
depois. É o ínicio da concepção de angelismo
e da supremacia da racionalidade sobre expressões irracionais (sexo).
3) Arsenokóitai:
a) século
II: na obra "Apology of Aristides" significa obsessivo corruptor de garotos.
A corrupção nesse caso não está direta e unicamente
vinculada ao desvio sexual, mas ao moral e social.
b) século
VI: na obra "Penitentiale de Joanes Jejunator" está relacionada
ao sexo anal e não exclusivamente entre homossexuais, mas também
entre homens e mulheres.
4) Kóitai: expressa excesso no comportamento sexual. "Como de dia,
andemos decentemente; não em orgias e bebedeiras, nem em devasidão
e libertinagem, nem em rixas e ciúmes " (Rm 13:13).
O texto deve ser
situado no contexto da idolatria e lido como um ataque à prostituição
masculina existente nos ritos idólatras pagãos.
As palavras podem
expressar não seu próprio conteúdo, mas concepções
estranhas a si mesmas. Uma palavra pode perder a carga significativa de
si mesma para expressar a orientação do pensador da época.
Ela é desfigurada perdendo sua identidade e assumindo o rosto desenhado
por outro.
O processo comunicativo
é direcionado segundo os interesses do tempo e da história
para garantir a supremacia interpretativa e moral de grupos. As transformações
nas palavras acima citadastestemunham que a Bíblia e a tradição
cristã (século I) não se detinham na questão
da homossexualidade. Somente a partir do século IV a sexualidade
humana passa a ser considerada problema e abominação diante
de Deus.
Evidentemente poderíamos
abordar outras passagens de Paulo, mas acabaríamos adentrado em
aspectos técnicos e pouco comunicativos. Contudo, os estudos exegéticos
e a moral personalista não relacionam orientação sexual
e condenação. Antes, frisam outra dimensão: orientação
sexual e realização pessoal.
