I  PASSEATA  GAY DO  RIO  DE  JANEIRO

                                                                       Sylvio de Oliveira

          Sim, senhores, houve uma passeata gay em nossa provinciana Cidade Maravilhosa. O evento, que se deu no último dia 24 de janeiro, foi amplamente divulgado nas casas gays do Rio, nas páginas de nosso jornal e, através de cartas e fax e ligações telefônicas para os grupos gays de todo o Brasil. Ainda assim, o número de participantes foi pequeno (por volta de 200 pessoas, segundo cálculo dos jornais O GLOBO e JORNAL DO BRASIL).
          Quando digo pequeno, devo confessar que não esperavámos nem a metade das pessoas presentes. E, talvez realmente não houvesse, não fossem os os grupos gays de outros estados.  Contamos com as participações do DIALOGAY de Sergipe, do GGB da Bahia, DIGNIDADE do Paraná, GRUPO DE HOMOSSEXUAIS DO PT de São Paulo. Algumas pessoas que não fazem parte de nenhum grupo, vieram ao Rio exclusivamente para a passeata: gente de Pernambuco, de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul.
          A paticipação da comunidade gay carioca foi ínfima. Dos sete grupos gays, apenas dois compareceram: o ATOBA e o TRIÂNGULO ROSA. Dos bares e boites gay do Rio, além da Boite INCONTRU'S, ninguém esteve presente - à exceção do ELITE CLUBE, que deu a maior força, sem ter sido convocado pois o ELITE, no nosso entender, apenas realiza bailes gay do final do ano até o carnaval. Dos travestis e transformistas - que não foram esquecidos como normalmente acontece em eventos organizados por não travestis - apenas 8 apareceram. Das instituições que trabalham a questão da AIDS, apenas o NOSS (Núcleo de Orientação em Saúde Social estava lá - é lógico, o jornal é um dos projetos do grupo. E, surpreendemente, 5 michês deram seu apoio ao evento. A passeata foi organizada pelo jornal NÓS POR EXEMPLO, que enviou cartas para TODAS as pessoas e organizações envolvidas na luta pela emancipação homossexual ou em trabalhos SOCIAIS - como hoje pode ser chamados os trabalhos relativos à AIDS. As cartas marcavam uma reunião onde se ouviriam os grupos e as pessoas para que se desse uma forma melhor à passeata. A esta reunião compareceu um único grupo gay do Rio - o TRIÂNGULO ROSA. A ABIA e o Pela Vida foram as únicas instituições presentes. Dois representantes de casas gay e dois transformistas. Esta reunião aconteceu uma semana antes da passeata. A que se deve essa evasão?
          Oficialmente, a diversos fatores. Algumas (3) instiruições que trabalham com AIDS, alegaram não querer vincular mais uma vez a síndrome à homossexualidade. Se estivessem presentes à reunião saberiam que um dos objetivos era justamente a tentativa de desvinculação esclarecendo à população quanto ao número de homossexuais contaminados e o número bem maior de heterossexuais; distribuindo preservativos à população que estivesse assistindo a passeata, significando - vocês também tem que usar!; e, finalmente, mostrando seu trabalho - eficiente e efetivo - o que não foi constatado.
          Dois grupos gays alegaram NÃO DAR CERTO eventos desse tipo e, sendo assim, não compareceriam. O que é dar certo? Como saber se um evento jamais ocorrido pode ou não dar certo?
         Os travestis e transformistas juraram todos que estariam presentes e, no entanto... Dos poucos que apareceram, dois ainda tentaram fazer com que a organização do evento lhes pagasse uma Coca-Cola, que seria nossa OBRIGAÇÃO já que eles tinham feito um FAVOR de comparecer. Meio absurdo, não?
          Muita gente escreveu ou telefonou cobrando as máscaras - que só ficaram prontas na véspera. Aliás, a idéia das máscaras veio justamente da conversa com algumas pessoas significativas do mundo gay carioca. Ninguém as usou - à exceção de um membro de um grupo gay.
          Fato é que na reunião muita coisa ficou clara: o desinteresse de quem não compareceu e a comodidade dos que lá estavam. Dentre outras coisas, queriam atribuir aos organizadores a tarefa de fazer as faixas. Ora, cada grupo sabe o que quer dizer. Cada grupo tem sua própria informação a passar, seu próprio protesto a fazer. E fazer uma faixa não é difícil, principalmente quando há algum interesse.
          Acontece que, ainda assim, a passeata cumpriu seu trajeto - Leme ao Posto 6. Na altura do Maxim's, todos pediram para dar uma paradinha, com o intuito de reunir mais pessoas para nos seguir. Nós ainda comentamos: essa parada não vai dar certo! Ali tem veado, sombra e chopp (o termômetro marcava 38*). Mas nada adiantou. O grupo dirigiu-se ao bar e por ali, nas mesas e na calçada, pelo menos 10 pessoas de grupos gays, de instituições que trabalham com AIDS e dois donos de casas gay?
          Depois disso a passeata seguiu, esvaziada, porém melhor do que antes. Naquele momento, as poucas pessoas que continuaram eram as pessoas interessadas - e o "desfile" tornou-se interessante e até aplaudido pela população que se colocava ao longo da Av. Atlântica. Foram gritadas "palavras de ordem", com a "platéia" fazendo coro e acompanhando, pela calçada, a trajetória da passeata. Gente careta. Por falar em gente careta (heterossexuais) devo registrar que convidamos poucos amigos gays para o evento. Nenhum apareceu. No entanto, estiveram presentes 6 amigos heterossexuais - para dar uma força. A mim pareceu que o Maxim's naquela tarde transformou-se em posto de observação. Se a passeata viesse animada, as pessoas a seguiriam. Porém, o número de gays era pequeno, pelo menos para quem não queria "passar vergonha" ou expor-se.
          E as mulheres? Recebemos pelo menos 16 cartas de apoio à passeata, dizendo acharem muito importante, que gostariam de ajudar e participar. Respondemos a todas. Apenas uma apareceu.
          O que se pensa, depois de um evento elogiado pelos grupos gays e tratado de forma não preconceituosa pela imprensa? Que o resultado foi positivo. Poderia ter sido melhor, mas isso não cabe aos organizadores da passeata. Cabe, sim, à nossa comunidade que, embora fale muito, age muito pouco. Tornar-se necessário falar um pouco sobre isso, saber exatamente o que querem os gays cariocas - porque os de outros estados, bem ou mal estão levando a coisa um pouco mais a sério. Chego às vezesa questionar para que serve um jornal dirigido ao público gay. Por que compram, o que buscam? Fotos sensuais?
          Não desistimos. No próximo ano estaremos lá novamente. Apesar de alguns grupos gays terem sugeridos a data 28 de junho, por ser o dia do Orgulho Gay, pretendemos entrar em negociação com eles para que seja no mês de janeiro, mais exatamente no dia 20, dia de São Sebastião. É feriado, faz sol, há gente de fora, o santo é brasileiro e, dizem, gay.