A EXPERIÊNCIA HOMOSSEXUAL COMO UMA EXPERIÊNCIA DA MODERNIDADE

                                                                              Osmundo de Araújo Pinho

Para Cristìã, com amor.
"Let me show you the world in my eyes."  Depeche Mode
          A sexualidade é uma partede nosso comportamento. É uma parte de nossa liberdade mundial. (...) Temos que entender que, com os nossos desejos, através deles, vêm novas formas de relacionamento, novas formas de amor, novas formas de criação. Sexo não é uma fatalidade, é uma possibilidade de vida criativa."  M. Foucault
          Em um artigo do "El País", republicado pela "Folha", o escritor peruano Mario Vargas Llosa conta uma história" viajava de trem para Washington e dividia o veículo com um numeroso e entusiasmado grupo de homossexuais que seguiam para a grande marcha gay do dia 25 de março. Em determinada altura, dirigindo-se a um grupo de lésbicas, pergunta o que querem os homossexuais: "os homossexuais querem ser vistos com naturalidade", é a resposta que obtém.
          Ora, este ponto talvez seja o mais significativo e problemático para a reflexão homossexual. Queremos ser vistos como iguais a todos, ou devemos investir na afirmação da diferença criativa?
          A proposição que gostaria de fazer pretende prestar algum socorro à pantanosa confusão que parece se estabelecer em torno deste assunto. Imagino compreender melhor o problema considerando-o como, 1* suspenso entre as transversais objetivas da vida cultural moderna; 2* indissociado de sua relação com a sociedade inclusiva.
          A questão não aparece circunscrita a ambivalência entre o natural e o contra-natural, a questão é: qual é o nosso lugar no desenvolvimento das formas legítimas de cultura no mundo moderno, ativo ou passivo? Sofreremos as injenções de uma avalanche de pré-noções e idéias-símbolo sobre as quais não temos o menor controle ou seremos capazes de organizar significado e propô-lo à sociedade?
          A experiência homossexual tal como a atualizamos em nossas vidas - e isto já foi dito um sem número de vezes e das maneiras mais diferentes - é uma experiência tipicamente moderna e ocidental. Tem a ver com a idéia psicológica de um sujeito intradimensionado, com a noção de direitos individuais, com o processo de produção de subjetividade seriada, com o avanço do saber médico sobre os corpos, com o desenvolvimento de redes globais de informação e comunicação. Nada mais é necessário que se diga sobre isso, o que importa destacar é que essa experiência não é única, ou seja, não existe A Experiência Homossexual.
          Tudo isso seria naturalmente um truísmo não fora a necessidade de contra argumentar àqueles que se apóiam nestas obviedades para revelar, com mal disfarçada sofreguidão, que não existe uma especificidade homossexual, e que os movimentos gays que superinvestem na identificação estão equivocados e reificam uma categorização repressiva e blá-blá-blá, blá-blá,blá, blá-blá,blá. Ora, é impossível negar que: 1* as condicionantes de classe e de cultura incidem poderosamente sobre as configurações específicas da experiência coletiva - o que de maneira alguma desautoriza a reflexão e a ação em torno da idéia de comunicações ou pontos de encontro entre as variantes dessa experiência; 2* que a noção de identidadefavorece de fato a reificação de processos de agenciamento coletivos, que são sempre transitórios e sempre vir-a-ser e que a identificação reduz múltiplas singularidades à esquemas pré-codificados de existência e significação. Estamos falando aqui, entretanto, da vantagem política e existencial dos agenciamentos coletivos de singularização! O processo de subjetivação organiza significados partilhados e se privilegia da condição do encontro com outras subjetividades também em constante devir, se redefine a cada novo enfrentamento e desenvolve mais e melhor o vigor e a exuberância da aceitação e da repulsa a padrões exógenos.
          Nós temos uma identidade quando quando nos divertimos juntos, quando exibimos a fecundidade de nossa irônica linguagem, quando respondemos, ou não, às expectativas produzidas ao nosso respeito. Assim, os homossexuais devem ser entendidos como imersos num dever que se articula com a expressão, num processo contínuo de singularização frente aos padrões de subjetividade majoritários. A experiência não está, deste modo, reunida exemplarmente sob a égide de alguma identidade. A possibilidade de singularização é uma possibilidade de recomposição da experiência. Nestes tempos de morte de significado, a experiência homossexual deve ser entendida como empenhada neste processo.
          Mesmo aqueles de nós que hoje, adultos e bem sucedidos, supomos não ter mais nada a ver com a guerra sórdida que se locomove sombriamente no Brasil contra as bichas pobres e os travestis, não temos a dolorosa recordação de uma piada grosseira na 3* série primária, ou da eterna suspeita, "será que meus amigos de rua sabem do que eu sinto? Aí, neste momento, somos constituintes de um universo partilhado de sensibilidade.
          A experiência homossexual deve ser compreendida então como definida  na modernidade, e dessa forma padecendo das mesmas contradições que são intrínsecas à "aventura da modernidade", melhor dizendo a experiência homossexual é uma dessas contradições. Por outro lado ela só existe na relação com a sociedade inclusiva e todas as questões ligadas à condição homossexual só podem ser desenvolvidas nesse contexto.
          Assim sendo, a agenda de qualquer movimento homossexual só se constitui verdadeiramente quando avança até a consideração de que só existe futuro melhor para a comunidade gay se tivermos munição e coragem para reinstituir os valores globais. Ou envolvemos toda a sociedade na discussão de questões que são vistas como só nossas ou permaneceremos sempre no mesmo lugar: aquele que nós não escolhemos. A única maneira, entretanto, de constituir diálogo com a sociedade inclusiva é assumindo o lugar de sujeito do discurso, ou seja, assumindo o processo de subjetivação.
          Se Vargas Llosa me perguntasse o que querem os homossexuais, eu lhe diria que queremos ser reconhecidos como de plena posse de nosso direitos civis, principalmentedo direito de instituir "vida criativa", do direito de exibir socialmente nosso humor sofisticado, nossos desejos vulgares e nossa imaginação desigual. Como Signorile, eu diria que "não somos iguais aos outros e que queremos ser aceitos como diferentes". Aqueles que preferem se iguais estão fazendo a escolha da pobreza e da mediocridade, a maior riqueza da moderna cultura global vem da diferença e de suas contradições, aqueles que imaginam escolher a "normalidade" e mergulham envergonhados na massa anônima são iguais a todos, ninguém.