
NEM TRANSGRESSOR, NEM TRANSVIADO
Luiz Morando
Se nos detivermos
sobre o discurso produzido pela ciência médica no decorrer
do século XIX, no Brasil, perceberemos a emergência nítida
da imagem do homossexual em conformidade com a produzidapelo discurso médico
europeu. Dentro de um espaço em fase de formação e
já em transição de um conjunto de características
patriarcais para outro de caráter urbano-industrial, a sociedade
brasileira oitocentista buscou firmar sua sustentação sobre
aestrutura familiar monogâmica, heterossexual, com fins procriativos.
Para cristalizar esse núcleo sócio-familiar, o discurso médico,
então hegemônico, necessitou regular, em contrapartida, um
universo de relações consideradas "desviantes". Constituíram
essa lista, além dos homossexuais, os celibatários, os libertinos,
as prostitutas, os adúlteros, as mundanas - todos submetidos a tentativas
de normatização e recondução à regra
social.
Especificamente
em relação ao homossexual, duas correntes prevaleceram para
tentar explicar as causas do "desvio": uma, de caráter congênito,
considerava a "inversão sexual" provocada por fatores hereditários;
outra, de caráter adquirido, acreditava que o indivíduo homossexual
o era por vício de comportamento proveniente de causas variadas.
Dividido entre esses dois ponto-de-vista, o discurso médico encerrou
o homossexual no espaço pouco confortável do diferente, do
discrepante, do exótico, do perigoso, do indefinido, do patológico,
do anormal, do culpado.
Pode parecer exagerado
ponderar do modo que se segue, mas essas imagens permaneceram no imaginário
social, quase intocáveis, até os dias atuais. A afirmação
poderia ser relativizada ou suavizada mencionando-se casos ou situações
esporádicos que se obrigariam a se alinhar ao paradigma das exceções
por serem pontuais ou isolados, sem repercutir ou contribuir para a modificação
ou remanejamento de posições já quase sedimentadas
no imaginário social. Essas ações teriam seu valor
e sua importância quando atuantes na rede das sociabilidades cotidianas,
apresentando-se como produto/resultado de um micro-sistema social. No entanto,
perderiam ou teriam diluído seu poder de mudança quando enfocadas
de um ponto-de-vista mais geral e uniforme. Essa afirmação
deve ser considerada mesmo levando em conta a atuação de
grupos de emancipação sexual localizado e restritos à
sua região de influência, que não performam um grupo
de identidade homossexual aceito como tal apar além de seus limites,
apenas apontando para similaridades e eixos de confluência com outros
grupos.
No entanto, voltando
à construção da imagem do homossexual, acredita-se
atualmente, e a ciência deseja comprovar materialmente, que a defesa
do "caráter adquirido" está ultrapassada e que se pode explicar
pelo "caráter congênito" a causa da homossexualidade. Pesquisas
recentes e divulgadas amplamente pela imprensa escrita dão como
certa a localização da origem da homossexualidade em determinado
par de cromossomos do conjunto genético do indivíduo dito
homossexual.
Não é
difícil perceber que implicações essas "revelações"
podem conter. A mais irônica, e no meu modo de entender mais perigosa,
é o deslocamento operado de um espaço externo e localizável
para um espaço inteno e invisível. A conjetura do "caráter
adquirido" foi relegada e afastada pela inevitabilidade de se absorver
um grupo cultural com sinais mais ou menos identificáveis e pela
organização desse grupo enquanto imagem (mesmo que deturpada)
representativa. E a própria noção de "caráter
adquirido" que sedimenta, no imaginário do senso comum, algumas
imagens associadas ao homossexual: a do efeminado, a da indefinição,
a do fraco (por oposição ao viril), a do sensível
e afeito a tarefas femininas, essas imagens tentam performar uma capa,
uma aparência, uma superfície externa sem ruptura ou contradições
visíveis.
O afastamento dessa
imagem não significa a mudança na forma de apropriar dela,
pelo contrário: por supor integridade, deve-se afastar apenas o
sentimento de culpa que aprisiona o indivíduo e procurar trazê-lo
para o seio social, explicando sua conduta e constituição
através de uma justificativa genética, com um argumento científico,
dominado apenas por aqueles iniciados, doutores de um saber que se quer
único. Camufla-se um possível sentimento de culpa ao intentar
transpor a origem da homossexualidade para um campo menos palpável,
menos visível, mais restrito e mais iniciados e formados em uma
ciência.
Entretanto, qual
a necessidade de se explicar uma origem? Em que isto colabora par dar a
um indivíduo status de cidadão? Que dispositivos obrigaram,
ou impeliram, os cientistas a deslocarem do meio social para o microbiológico
a explicação para a origem da homossexualidade? Que implicações
ética e morais essa nova explicação poderá
trazer? Se a situação se torna "irremediável" (pelo
menos por hora, já que a engenharia genética ainda não
se manifestou com tentativas para "consertar" o erro), qual o novo espaço
que o homssexual irá ocupar no meio social?
Há que se
pensar, e se fazer o esforço para isso, que a homossexualidade (ou
a relação sexual praticada entre homens ou o comportamento
sexual relacionado ao homoerotismo) não deve se restringir a uma
inerência cultural ou genética. É necessário
que se pense que a integridade e dignidade do indivíduo homossexual
devem ser formadas independente de sua opção/preferência
sexual, em oposição a um sentimento de culpa ou não-aceitação
de sua identidade. A formação dessa identidade deve se situar
longe de mecanismos reguladores e normatizadores, tentando-se localizar
elementos da própria vivência que orientem esses indivíduos
a se afirmarem como tal, independente da determinação de
seu código genético ou das implicações culturais.
