
HÁ UMA SANTA COM SEU NOME?
Carlos André F. Passarelli
Tento pensar aqui a identidade sexual. O que faz de alguém
idêntico? Idêntico a quem ou a quê? Se transitamos no
terreno da anatomia, as coisas parecem um pouco melhor definidas do que
nas ditas ciências humanas. Homem tem pênis. Mulher não
tem. Ou seja, pode-se falar de uma identidade sexual que se garante geneticamente,
fenotipicamente caracterizada pela posse ou não de um orgão.
Porém, ao propor estas formulações nestes
termos -- esta premissa genética -- percebo que meu discurso está
impregnado de uma ética, a saber, aquela que elege o binômio
ausência/presença do orgão masculino como definidor
de uma identidade psíquica ou sexual. Se ética, tal definição
é cultural, e o corpo de que falo é um corpo falado e falante
, imerso em linguagem e não mas em líquido amniótico
-- transcendemos a biologia. Ou seja, homem e mulher são construtores
lingüísticos -- ora imaginários, ora simbólicos,
nunca inscritos no real -- significantes que se colam e deslocam dos corpos
desfigurados pela palavra.
Quase todo discurso da e obre a homossexualidade parece negligenciar
estas metáforas e deslocamentos a que os papéis de gênero
estão sujeitados, que nos desviam daquilo que queremos querer para
aquilo que queremos ser, na tentativa de identificarmo-nos com o desejo
do Outro. Procura-se desesperadamente definir e diferenciar este corpo
homossexual, encontrar outros iguais e daí dizer: " isto é
homossexual! ". Constrói-se um altar e coloca-se a estátua
da Santa, nem homem, nem mulher, nem lá, nem cá, e sempre
além ou aquém do prazer. " Viva a Múmia do Tyrol!
" gritam os idênticos, " Nossa Senhora dos Gays, rogai por nós".
Estou dizendo que não existe identidade homossexual?
Acho que estou, na mesma medida em que digo que não existe identidade
sexual masculina ou feminina, enquanto rótulos capazes de definir
uma forma de estar no mundo, comum a todos aqueles que se abrigam no conforto
de suas identidades: são inumeráveis as maneiras de ser mulher,
homem, criança, gay, lésbica, animal, planta e até
mineral. E se a pergunta vinha: "eu sou neguinha?", ela vinha para todos,
dado que Zeus, ao dividir-nos em duas metades, apontou-nos para o sempre
e mesmo corte: o sexo. A terra prometida de desejo não é
prioridade de nenhum povo eleito. É terra de ninguém.
No entanto, uma grande romaria de fiéis marcha, aos
trancos e barrancos, para a Meca do prazer, e nesta peregrinação,
cruzam com outros grupos que dizem que, eles sim é que estão
se dirigindo para a verdadeira Meca, formando um alvoroço tamanho
que ninguém encontra mais uma bússola que defina um Norte
qualquer. O desejo desorientou-se, principalmente quando algumas pessoas
começaram a aventar que talvez exista mais de uma cidade sagrada.
Estava deflagrada a guerra santa, onde não se sabe bem ao certo
qual o teritório que se pretende ocupar.
Enquanto isto, peregrinos errantes se apossam de terrenos
provisórios. De um lado temos a supremacia da normalidade, invadindo
nossas casas através da pequena tela onde se estampam beijos coloridos
entre a mocinha fálica e o mocinho que parece egresso da capa de
uma revista gay, a perseguição sexual das gatas e ratos dos
enlatados norte-americanos, a estereotipia dos galãs viris e das
divas dóceis, os longos passeios na orla da praia do jovem casal
-- ele e ela -- de mãos dadas. Às vezes um desvio, para fazer
rir ou chocar, mas logo voltar à conformidade da monogamia heterossexista.
E seguimos adiante, acreditando que nossas vidas não
diferem muito daquelas que desfilam na nossa frente, depois que o Cid Moreira
anunciou uma tragédia e, sorrindo, disse " boa noite ".
E nos outros territórios, estes que vemos nos programas
sensacionalistas da madrugada e nas capas da imprensa marrom, lugares públicos
que "não são de ver para crer -- estão na cara" --
lá circulam os zumbis dos parques proibidos, roçando seus
corpos sem se tocar de verdade; pegando em paus que crescem em meio ao
cheiro de urina dentro dos banheiros, também públicos; nas
caixas escuras de sons ensurdecedores e anestésicos; nas clínicas
-- estas clandestinas -- onde pênis se transformam em vaginas; nas
ruas, onde aquela que você jura que é uma mulher mais perfeita
que Eva exibe um grosso e enorme pau para um senhor idoso e bem casado,
camuflado no seu grosso e enorme carro importado, provido da mais High
Tec que um japonês pôde sonhar e realizar.
Aí estão eles: os pervertidos, devassos, sadomitas,
pederastas, criminosos, doentes, bichas-loucas, desajustados, imorais,
invertidos, sapatões, aberrações da natureza, estes
que não gozam como a maioria, que usam ouros buracos. E, na urgência
de se afirmar como alguma coisa, pois a sociedade sempre nos quer idênticos
a algo, buscam um coro dos contrários, onde, em uníssono,
podem gritar: "eu sou homossexual! ". Mesmo que à noite todos sonhem
com a idéia de liberdade veiculada pelas imagens da telinha, entre
a propaganda de cigarros ( " alguma coisa a gente tem em comum " ) e a
novela das oito.
Nesta trama perversa, que prioriza um desejo em detrimento
de tantos outros, não consigo perceber nenhuma outra identificação
possível que não esta construção ideológica
que vem a se chamar " identidade heterossexual ", sendo a " identidade
homossexual " mais outra construção que só tem sentido
ontológico quando se toma a primeira como referência: a luz
e sua sombra.
Assim, penso que uma mesma orientação sexual
não define uma identidade psíquica comum a um certo número
de mortais desejantes, pois orientação sexual, isto é
, o desejo, é uma questão clínica, ou seja, particular,
que se resolve na cama ou no divã, conforme o gosto do freguês.
Agora, se se trata de reivindicar o direito que sempre foi
negado a uma minoria (?) de realizar suas práticas (homo?) eróticas,
aqui saímos da esfera da psicanálise, e passamos a questão
política, que implica na necessidade de se organizar este grupo
social, que não mais caracterizar-se-ia por uma igualdade na identidade
psíquica ou sexual, mas cujos integrantes têm em comum o estigma
da exclusão por parte de uma sociedade marcadamente heterossexista,
homofóbica, intolerante em relação à diferença.
Este processo pede a desconstrução do altar
-- o "desmonte" da Santa -- que permitiria o afloramento das diferenças
e dos desejos em meio à procissão. Uma pluralidade de hinos,
crenças e, por que não dizer, de novas e outras santas teria
voz e vez e, numa festa alegre (gay), ocuparia os espaços da cidade
(polis), revertendo a maldição do Deus único ("oniprepotente"),
bem-dizendo o prazer.
E desculpem se abuso de Caetano Velloso, mas termino com palavras
dele:
Minha identificação, registro geral,
carece de revisão
Cara, careta, dedão, isso não é
legal, em frase de transição
Sou celacanto do mar, adolescente solar
Não pensem que é um papo torto,
é só um jeito de corpo
Não precisa ninguém me acompanhar.