A QUESTÃO GENÉTICA

                           Paulo Corrêa

          A imprensa brasileira noticiou recentemente o resultado da mais nova pesquisa americana, divulgada pela revista Science: o homossexualismo tem uma base genética. Foram analisados os cromossomos de 40 pares de gêmeos idênticos.
          Esse estudo vem somar a pesquisa de outro cientista americano que descobriu diferenças anatômicas entre cérebros de homens hetero e homossexuais.
          A discussão a respeito da causa do homossexualismo é antiga: já se nasce gay ou o homossexual é produto do seu meio familiar? Postos na balança, os estudiosos ora pendem para a biologia, ora para a psicologia.
          As opiniões sobre a pesquisa se dividem. Homossexuais acreditam que passarão a ter seus direitos garantidos junto a sociedade e suas mães acham que agora "aceitarão" os filhos e se livrarão da "culpa". No outro extremo, militantes gays e cientistas temem que a investigação caracteriza o homossexualismo como um "defeito" genético, incrementando a listagem de anomalias existentes, e que, no futuro, se preste à modificação da conduta sexual do feto a partir da possível identificação de um "gene gay".
          Explicações existem. São numerosos os estudos produzidos pela antropologia, psicanálise, literatura, medicina etc. Por que a ciência não pesquisa a causa do heterossexualismo? Por que o homossexualismo continua provocando tamanho interesse? As contribuições científicas têm, de fato, beneficiado a população gay? Os homossexuais querem saber a causa? Por que algo complexo como a sexualidade humana é reduzidae reconduzida agora ao estatuto biológico? É para controlar melhor? O que a ciência quer, afinal?
          O papel da ciência tem sido o de "curar" o homossexualismo, a partir do esquema médico-psiquiátrico do século XIX, onde se cunhou a visão do homossexual como "doente". A cultura psicológica e psicanalítica (não o pensamento freudiano), parecem ter reforçado tal estigma seja na classificação como "perversão", seja focalização obsessiva do dispositivo "mãe dominadora - pai ausente", transformado em clichê. A atuação da ciência será diferente de agora em diante?
          A retirada do homossexualismo do rol das desordens mentais em 1974, feita pela Associação Psiquiátrica Americana, não significou, necessariamente, que o homossexualismo "deixou" de ser considerado doença para alguns profissionais de saúde, assim como para a sociedade que incorporou o jargão "psi" com propriedade, utilizando-o em larga escala no dia a dia. A maneira pejorativa com que o homossexual é tratado na nossa sociedade hoje, parece ter sofrido modificações, porém permanece a discriminação em frases sutis como "ele é gay, mas é uma ótima pessoa".
          O psicanalista Jurandir Freire Costa em seu belíssimo livro A Inocência e o Vício - estudos sobre o homoerotismo, afirma que " a grande ilusão hoje como ontem é a de acreditar na força persuasiva de argumentos científicos ou cientificamente fundados". Segue dizendo que " ninguém abandona suas crenças preconceituosas porque um outro pode provar-lhe que aquilo que pensa (...) é cientificamente errado", cita o racismo como exemplo. Se por um lado os negros americanos conquistaram, através de lutas pelos direitos civis, maiores ganhos materiais ou legais, por outro não conseguiram a "consideração moral esperada".
          Considerada, ao analisar a ética naturalista do escritor francês André Gide - que defendia o homossexualismo com base na idéia de que era natural e biológico - que seu pensamento, ao contrário, acentuava o preconceito atrelado às noções de norma e desvios naturais, na medida em que excluía os direitos individuais.
          Sendo assim, não vê sentido em legitimar o direito de amar homossexual porque a ciência hoje "ordena" que é natural: "o álibi da inocência, entre outros inconvenientes, apresenta um especialmente grave: isenta nossa sociedade de seu compromisso com a tolerância e o resto à diferença, razão de ser do ideal ético que está em sua fundação". Conclui: "se, enfim, desistirmos de ver o "homossexual" como uma realidade natural ou psíquica (...), continuaremos cultivando a crença de que o direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade são direitos inalienáveis de todos os indivíduos (...); continuaremos cultivando a crença de que a busca da felicidade não precisa justificar-se (grifo nosso),  exceto quando esbarra na dor e na humilhação do outro".
          Um cientista Prêmio Nobel declarou, a partir do trabalho dos colegas, que "no campo da manipulação genética a ciência precisa desconhecer o limite ético (grifo nosso) se quiser avançar". Avanço ou retrocesso? Avançar ou DETONAR? Que ciência é esta que recusa a ética? É ciência, loucura ou mais outra bomba atômica?
          Quanto a este "esbarrão", queremos sim, saber a causa. Quanto a Freud ou a genética responderem sobre homossexualismo, eu não sei. Sabemos todos que queremos AMAR EM PAZ.