A ALIENAÇÃO DO HOMOSSEXUAL EM RELAÇÃO A SUA REALIDADE

                                                                                  Gilda, Grupo Dignidade.

          Os estereótipos, construções mentais fictícias, imagens e idéias de conteúdo alógico, estabelecem critérios sociais falsos a respeito dos homossexuais. A sociedade, mais especificamente os meios de comunicação, procuram retratar o homossexual através de atributos de comportamento bizarro, no qual os relacionamentos amorosos tendem sempre ao fracasso. Cria-se um quadro de ilusões para manter o homossexual alienado do seu próprio mundo, onde os estereótipos contribuem para mostrar uma "figura homossexual", com padrões de comportamento uniforme e de conduta social indesejável, relacionada apenas com uma busca pelo sexo.
          Face ao exposto, o homosexual se encontra compelido a aceitar a sua homossexualidade como algo natural em seu íntimo, pois não encontra sua identidade nas imagens e idéias repassadas como "verdades absolutas" pela ideologia heterossexual, limitando, assim, a livre expressão de sua sexualidade. Se seguíssemos os valores fornecidos pela mídia heterossexual e suas referências a nosso respeito, seríamos pessoas assexuadas, pois causa-nos estranheza as formas de relacionamentos apresentadas, nas quais não se reconhece nenhuma manifestação de sentimento.
         O controle social busca assegurar a uniformidade das condutas para permitir um pseudo-funcionamento da estrutura social, desencorajando o não conformismo com as regras estabelecidas. Dessa forma, ocorre, antes mesmo de uma condenação por parte da sociedade, uma auto-discriminação, na qual tanto os gays como as lésbicas sentem-se tolhidos para expressar a sua sexualidade e buscam o isolamento.
          A superação da condição de indivíduos marginalizados será possível através de um processo de conscientização, onde os membros de uma categoria social tornam-se conscientes de si mesmo, de sua identidade e de seu destino.
          A melhor compreensão da questão da alienação pode ser obtida ao verificarmos o conceito de liberdade fornecido por Sartre, em "O Ser e o Nada", no qual a consciência e a liberdade só existem juntas. Assim se pode distinguir três modos de ser:
          O "ser em si" é quando o indivíduo se protege contra o reconhecimento de sua própria liberdade, pretende ser inerte, controlado por outras pessoas e, portanto, sem escolha. Se optássemos por esta, existência, viveríamos isolados, seríamos assexuados, pois não externaríamos a nossa essência e estaríamos condenados a uma vida resignada, subjugados pela igreja e outras formas hegemônicas de controle social.
          O "ser para os outros" é o indivíduo que pretende nada ser, exceto o que os outros desejam que ele seja. Age segundo o papel, como se estivesse disposto a ser aquilo que esperam dele. Dessa forma, desempenharíamos papéis heterossexuais para não contrariar as normas sociais e reprimiríamos nossos desejos, infelicitando as pessoas com as quais conviveríamos.
         O "ser para si mesmo" é, segundo Sartre, o modo desejável de existência, sendo idêntico ao ser consciente. Nesta perspectiva, existe um hiato, uma falata dentro do si mesmo que precisa ser preenchida, relacionada com a luta dos indivíduos em direção a suas possibilidades. Os seres conscientes não têm "essências" fixas que determinam como devem se comportar. Eles são capazes de criar suas próprias "essências" a medida que avançam, através de uma escolha constante, para preencher a lacuna entre eles e seu futuro. Assim, a liberdade consiste na possibilidade de uma existência por nós elaborada, fruto de nossos sentimentos e emoções, ignorando os papéis postos na sociedade, a espera de indivíduos aptos a ocupá-los, como resultado do destino.
          Dessa forma, a conformação com os papéis que nos são designados e a aceitação do determinismo social, que nega o livre arbítrio ou a influência pessoal na determinação do ato, onde as leis ligam-se entre si de acordo com o princípio da casualidade.
          A conscientização consiste na busca de nossa própria essência, sem a necessidade de reproduzir padrões de comportamentos ditados pela ideologia heterossexual, que nos conduzem a alienação através de uma existência baseada em "ser em si" ou "ser para os outros", mantendo-se indiferentes ao nosso próprio mundo.
          Assim, a conscientização, numa perspectiva de educação permanente, possibilitará nos tornarmos pessoas livres e donas do nosso próprio destino. Não se concebe a conscientização e a emancipação homossexual em momentos diferentes, pois se entende estes conceitos como complementares, onde a conscientização está inserida num processo de vivência, troca de experiências, construção de um quadro próprio de referências homossexuais, através do qual se atinge a emancipação.
          O isolamento do homossexual para com o seu mundo, a falta de espaços para a discussão de seus problemas faz com que o único local onde se pode ter alguma liberdade sejam os "guetos", resultado da absoluta falta de liberdade dos gays e lésbicas perante a sociedade. Ao frequentarmos apenas lugares isolados e não criarmos novos espaços para discutirmos nossas vovências, estaremos aceitando a condenação de uma falsa moral que necessita que nossa existência ocorra apenas em lugares específicos, para que seus conceitos e padrões morais possam ser perpetuados como verdades incontestáveis, pois a reflexão sobre a questão homossexual traz à tona a necessidade da discussão da questão da sexualidade, reprimida e cercada de tabus, e pouco esclarecida para a maioria da população. Este "incômodo" tema, pelo visto, deve ainda permanecer cercado de mistérios.