
O GUETO E O DISCURSO DO GUETO
John McCarthy
Eu admito. Tenho
um problema sério. É que me irrita profundamente e me desanima
quando me reúno com pessoas com as quais tenho algo em comum e algumas
delas me advertem que é preciso evitar "formar gueto".
É claro que
esse discurso surge somente quando o principal traço que tenho em
comum com as pessoas é a orientação (ou preferência)
sexual. Curioso, não? Quando me reúno com amigos guias de
turismo, por exemplo, e trocamos as nossas experiências, que nos
são peculiares e que a qualquer outro grupo poderiam até
parecer uma espécie de código secreto, nunca ocorre a ninguém
advertir que ali estamos correndo o risco de formar um gueto de guias de
turismo.
Qual seria a diferença
fundamental entre um grupo e outro, que faz com que membros de um estejam
apenas se reunindo para trocar experiências, enquanto membros de
outro estejam formando um gueto?
E, por falar nisso,
o que significa exatamente gueto? Visto que a palavra não surgiu
em função de orientação sexual, qual seria
sua aplicabilidade neste particular? Creio que, ao dimensionar e historiar
esta palavra tão carregada de sentido pejorativo, poderemos chegar
a algumas conclusões interessantes.
O início
clássico de qualquer definição de palavras é
o dicionário. Neste caso, o bom e confiável Aurélio
diz:
(do italiano ghetto)
1. bairro onde os judeus eram forçados a morar, em certas cidades
européias.
2. P.ext. Bairro, em qualquer cidade, onde são confinadas certas
minorias por imposições econômicas e/ou raciais.
De ínicio,
surge o que é, para mim, o cerne da questão: por definição,
um gueto, quer como bairro, quer como uma extensão metafórica
do conceito, é imposto de fora; é uma condição
forçada, nunca voluntária.
Em termos mais recentes,
nos Estados Unidos, os negros se apropriaram do termo gueto para caracterizar
as áreas onde lhes era permitido morar. Repare: os negros pobres
moram em guetos, os brancos ricos moram em bairros.
Qual a diferença?
Apenas o caráter ipositivo da moradia dos negros pobres. Não
têm escolha. Um branco, por solidariedade ou até por esporte,
pode morar num gueto de negros pobres, se quiser. Afinal, os donos da maior
parte dos imóveis são brancos. Já um negro pobre não
poderia jamais optar por morar num bairro de brancos ricos, exatamente
pela mesma razão. Não obstante as leis anti-discriminação,
até mesmo os poucos negros ricos existentes nos Estados Unidos raramente
conseguem morar em certos bairros de brancos ricos. Não basta ter
dinheiro. Tem que se apresentar referências bancárias, creditícias,
empregatícias e a imobiliária pode alegar, simplesmente,
que um outro pretendente ao imóvel apresentou referências
mais seguras.
Portanto, acho pertinente
esta apropriação da palavra gueto pelos norte-americanos.
São poucos os negros que vivem no gueto porque querem. O grande
sonho da maioria é justamente sair dele.
A história
do guettho é uma coisa - aparentemente - pouco conhecida de grande
parte dos meus interlocutores, que chegam ao absurdo de achar que "eram
bairros para onde os judeus se recolhiam, por se acharem melhores que os
cristãos" (alguém me falou isto, com toda a sinceridade dos
ingênuos!). Portanto, vamos a Itáliado século XVI,
mais precisamente a Veneza, onde se originou a palavra ghetto.
Época de
ouro da Renascença. Veneza - Empório da Europa. Itália
- epicentro dos esforços da Igreja Católica de manter sua
ascendência sobre os cristãos (A Inquisição:
nesta época, já militavam Calvin, Luther, Zwingli e outros).
Já que estava difícil os católicos se unirem em torno
de assuntos internos, que jeito melhor do que se unir contra assuntos externos?
E que alvo mais fácil do que os judeus, os "assassinos de Cristo"?
Em 1492, todos os
judeus foram expulsos da Espanha, medida que viria a se repetir em Portugal
cinco anos depois. Muitos vieram para o Brasil, outros foram para Amsterdam,
e ainda outros para Veneza.
Havia em Veneza
várias fundições. No italiano desta época,
o verbo ghettare significava "fundir, verter, vazar", colocar metal líquido
em uma forma. Uma das ilhotas de Veneza , que ficava no quadrante das fundições,
recebeu o nome de Campo Ghetto Nuovo. Em 1516, o governo local decretou
que todos os judeus deveriam abandonar suas casas e seus pertences e se
mudar para lá. A área foi murada, com portões guardados
por vigias cristãos, e fechados a chave à noite, aos domingos
e nos dias santificados. Ao sair do ghetto, os judeus eram obrigados a
usar crachás amarelos, para facilmente identificá-los.
E saíam do
ghetto para exercer as poucas profissões que lhes eram permitidas,
e, até, reservadas. Como Veneza era um entreposto comercial entre
a Europa e o Oriente, e como as missões mercantis necessitavam de
capital de risco, e como emprestar dinheiro a juros era pecado (usura)
para os cristãos, naturalmente este serviço sujo e pecaminoso
era reservado aos judeus. Irônico é lembrar que os judeus
são freqüentemente criticados por saberem lidar com dinheiro,
serem banqueiros etc, como se a profissão tivesse sido escolhida
por ele e portanto os cristãos dele privados! Curioso também
é notar que não era pecado lucrar com o comércio mercandilista
financiado pelos judeus - atividade esta que obviamente produzia o retorno
suficiente para pagar a usura aos judeus e ainda tornar rica muita gente
nobre de Veneza.
A prática
de encurralamento dos judeus se espalhou pelas repúblicas independentes
da Península Itálica, até que em 1655, o PapaPaulo
IV lançou um edito estabelecendo a oficialização dos
ghettos, com toque de recolher para os judeus, bem como a proibição
de exercer profissões adequadas a cristãos, de possuir terras
e outros bens imóveis, e de exercer qualquer cargo governamental.
Somente a Revolução
Francesa e a invasão Napoleônica viriam remediar totalmente
a situação, quase 3 séculos depois!
A ressurreição
dos ghettos pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial foi o primeiro
passo para um programa de genocídio. Mais uma vez, os judeus perderam
suas posses, lares, profissões - e em pelo menos seis milhões
de casos - suas vidas.
Muito bem: o que
tudo isso tem a ver com a conscientização das pessoas sobre
sua orientação (ou preferência) sexual?
Para mim, fica evidente
que não cabe aplicar o termo gueto a um grupo de pessoas com experiências
sexuais em comum. A nós como grupo não nos é imposto
nada de fora, e nem nos é explicitamente proibido nada. Alguns membros
do nosso grupo podem sofrer discriminações, humilhações
e privações ao exibirem certas características que
são atribuídas ao grupo, enquanto outros membros são
poupados. Já judeus, negros e outras minorias raciais e sociais
eram submetidos a essas desgraças pelo simples fato de pertencer
ao grupo. Seu comportamento ou aparência pessoal em nada aliviava
ou piorava o tratamento recebido.
Então, por
quê esse anseio, expresso freqüentemente em reuniões
do nosso grupo de "evitar o gueto", de "não formar um gueto"?
É uma pergunta
para muita reflexão. Creio que não se esgote facilmente,
nem pretendo ter a resposta definitiva. Porém, eu gostaria de oferecer
uma possível explicação, à guisa de encaminhar
a discussão.
Eu, pessoalmente,
nunca escutei heterossexuais se referirem a agrupamentos de homossexuais
como um gueto. Mas os próprios homossexuais parecem demasiadamente
preocupados com isso. Por que será se os "de fora" não nos
impõem, nem vêem como um gueto? Pode ser justamente porque
a forma de opressão que sofremos é muito mais eficaz: embora
não nos seja imposto nada de fora, legalmente, a censura social
que sofremos é fortíssima, isto me sugere que os próprios
homossexuais internalizam e "vestem" um juízo negativo de valores
inventados pelos "de fora". A absorção de valores externos
negativos torna-se auto-depreciação. Quem precisa de um opressor
externo quando nós mesmos fazemos o serviço dele - e muito
melhor! A forma instintiva de lutar contra essa nossa auto-depreciação
é tentar limitar a nossa exposição aos comportamentos,
sentimentos e atitudes que a sociedade dominante condena. Ou seja, até
sem perceber, concordamos que esses comportamentos, sentimentos e atitudes
sejam inerentemente negativos e condenáveis! Afinal de conta, se
você se acha horrível de feio, a última coisa que quer
ver pela frente é um espelho!
Que outro resultado
teria uma série de reuniões de grupos de discussão
e conscientização de homossexuais, senão o de fortalecer
os espíritos dos participantes, de maneira que possam assumir seus
comportamentos, sentimentos e atitudes como positivos e legítimos,
e não inferiores e condenáveis?
Um grupo de músicos,
quando se reúne para trocar experiências e aprofundar discussões
que lhe sejam peculiares, é um gueto? Que tal um grupo de usuários
de computador? Um grupo de fãs da Madonna? Um grupo de estudos sobre
cristais e florais de Bach? Por que nem nós nem eles, pensaríamos
na palavra gueto para definir estas reuniões? Simples: nem nós,
nem eles, condenamos seus comportamentos, suas experiências, suas
atitudes, seus sentimentos.
Portanto, em vez
da negatividade do termo gueto, usamos grupo, turma, galera, e por aí
vai. O discurso do gueto é o discurso do opressor, não do
oprimido.
Aqui vai meu apelo:
já houve, no passado, quem nos confinasse e forçasse a usar
crachás cor de rosa. Hoje, não se chega a tal extremo. Mas
não vamos fazer o serviço do opressor para ele! Não
vamos usar o discurso dele! Vamos estudar, nos esclarecer, discutir, trocar
experiências, nos fortalecer e nos amar. Não vamos esperar
que a sociedade legitime os nossos comportamentos, sentimentos e atitudes.
Vamos conquistar nossa legitimidade por esforço próprio.
Não devemos ter medo, vergonha, receio, nem sentimento de inferioridade
ao nos reunir. Temos muito de valor para trocar!
