
EM DEFESA DO "SER HOMOSSEXUAL"
Luiz Mott
Nos últimos
anos, o termo HOMOSSEXUAL vem recebendo diversas críticas tanto
dentro da Academias, quanto por parte de certos militantes gays é
lésbicas. Alguns estudiosos, inspirados em Michel Foucault, afirmaram
que só no Século XIX que surge o homossexual enquanto portador
de uma identidade, e como tal, foi um tipo "inventado" pelos cientistas
que rotularam os praticantes da sodomia de "homossexual" a fim de melhor
controlar e curar estes anormais. Outros intelectuais disseram não
existir uma identidade existencial que distinga gays e lésbicas
dos heterossexuais, daí preferirem o termo "homoerótico",
restringindo a homossexualidade apenas àqueles momentos de erotismo
envolvendo pessoas do mesmo sexo. Outros ainda introduziram a expressão
"homossexualidades", advogando que são múltiplas as manifestações
do amor entre pessoas do mesmo sexo, não havendo nada me comum entre
um gay brasileiro e um africano tribal que transa com parceiros do mesmo
sexo. Até dentro do movimento em defesa dos direitos dos homossexuais
há quem critique o uso deste termo, uns dizendo: "eu estou homossexual,
não sou homossexual", empregando-o como adjetivo e não como
substantivo. Algumas lésbicas igualmente têm recusado identificar-se
como homossexuais, preferindo o termo "lesbianismo" empregando "homossexual"
como sinônimo apenas de gay.
Na origem desta
discussão está a afirmação de Foucault que
antigamente os homens apenas praticavam a sodomia, sem se identificarem
enquanto homossexuais e que foi apenas nos meados do século passado
que os cientistas sobretudo os médicos, "inventaram" o termo e a
figura do homossexual, isto com o objetivo de aprisionar os perversos
sodomitas: rotular para curar. Dentro desta lógica, se o termo Homossexual
foi criado pela Ciência com vistas a controlar os praticantes deste
"comportamento anormal", seria incorreto ingênuo por parte dos militantes
gays e lésbicas adotarem um rótulo imposto pelos opressores,
data sua origem e objetivo repressivos.
Tal polêmica
não tem interesse apenas teórico ou acadêmico, mas
se constitui num dos alicerces do movimento em defesa dos direitos de cidadania
dos gays e lésbicas - com repercussões inclusive até
na política de prevenção da AIDS, daí a importância
de desvendar e desmascarar os equívocos daqueles que criticam ou
querem acabar com o uso dos termos homossexual e homossexualidade. A fim
de justificar o acerto científico e político do uso do termo
homossexual, enumero alguns pontos que destroem os argumentos em contrário:
1*) se definirmos homossexualidade como a relação sexual
entre seres do mesmo sexo ("homo" do grego "igual" e sexual do latim),
podemos afirmar que a homossexualidade existe abundantemente no reino animal,
bastando para tanto que dois machos ou duas fêmeas mantenham relações
sexuais. Entre os humanos a homos sexualidade é documentada desde
os primórdios da pré-história. Portanto, a atração
e a prática homossexual é natural (existe na natureza) e
cultural (adotada por diferentes sociedades desde o tempo das cavernas).
Mesmo reconhecendo que os homossexuais antigos devessem ter comportamento
diverso do atual na qualidade de militante gay, sinto-me orgulhosamente
irmanado e próximo a Alexandre Magno, Miguel Angelo, Safo de Lebos
- todos os amantes do mesmo sexo. Quem escolhe e identifica seus "heróis"
são os membros da mesma minoria social: negar aos gays e lésbicas
identificarem-se com os "homossexuais célebres" da antiguidade,
e privarnos de um direito fundamental: eleger e homenagear nossos ídolos.
2*) documentos recentemente descobertos comprovam qu Foucault errou
ao defender que só no século XIX é que surge a "identidade
homossexual". Macintosh recua para que só no século XVIII
e a documentação produzida pela Inquisição
Portuguesa comprova cabalmente que já no Século XVI, em Portugal,
os "sodomitas" constituíram uma subcultura gay, pois se identificavam
enquanto diferentes, eram reconhecidos pela inter-comunicação,
com gestos e linguagem particulares, inclusive com um discurso pré-político
que defendia a excelência de ser homossexual. Portanto, apesar de
serem poucos os documentos até agora descobertos, há provas
evidentes que em muitas sociedades antigas gays e lésbicas tinham
uma identidade própria e diferente dos demais cidadãos, reconhecendo-se
e sendo reconhecidos como homossexuais.
3*) diferentemente do que afirmam os opositores, o termo homossexual
foi "inventado" por um militante gay, Karol Maria Kertbeny (1824-1882),
que em 1869 publicou um panfleto onde defendia a abolição
do Parágrafo 143/152 do Código Penal da Prússia, que
considerava o homossexualismo crime. Com o pseudônimo de Dr. Benkert,
o escritor jornalista (e não médico!) Kertbeny opunha-se
à discriminação de quem eram vítimas os "uranistas",
defendendo inclusive o direito de duas pessoas do sexo se casarem. Portanto,
todos que repetem a ilação de Foucault de que foram os cientistas
que inventaram o termo homossexual como camisa de força para dominar
esta maioria indesejável, estão redondamente equivocados:
homossexual e homossexualismo são expressões nascidas na
luta dos pioneiros gays em defesa dos direitos civis dos gays e lésbicas,
um termo que já conta com 125 anos de existência, é
utilizado em todas as línguas e foi cunhado pela primeira vez por
uma ativista gay.
4*) mesmo que a Ciência e os Cientistas, com o fim da Inquisição
e a discriminação da sodomia por influência do Código
Napoleônico, tenham se tornado os substitutos dos Inquisidores, confiando,
dissecando, patologizando os desviados homossexuais - verdade seja dita,
desde os primeiros anos do século XX, e sobretudo nas últimas
décadas, a Ciência e os Cientistas tornaram-se cada vez mais
os principais aliados e defensores dos gays e lésbicas, livrando-nos
das delegacias policiais, condenando os castigos cruéis que as forças
da repressão queriam aplicar nos pederasta. O Movimento Homossexual
Brasileiro deve muito aos Antropólogos, Historiadores. Demógrafos,
à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que desde
os inícios dos anos 80 posicionaram-se oficialmente contra qualquer
discriminação anti-homossexual, apoiando nosso movimento
para exclusão do homossexualismo da classificação
internacional de doenças da Organização Mundial de
Saúde. Se ainda há ramos de "cães de guarda da moral
oficial" (Hevelyn Hooker), cabe ao Movimento Homossexual denunciar e refutar
as meninas homofóbicas. É a Ciência que fornece os
argumentos inclusive para desmascarar os equívocos de quantos querem
impedir-nos de usar o termo e nos identificar como homossexuais.
5*) a última justificativa em favor do "ser homossexual" é
de cunho político: cada minoria deve decidir como ser chamada, como
se vestir, com quem fazer alianças, que personagens eleger como
seus ídolos ou heróis. Se um mulato quer identificar-se como
negro, tem de ser respeitado. Se milhares, milhões de homens e mulheres
que amam o mesmo sexo, querem se identificar como homossexuais, considerando
que tal orientação sexual implica numa maneira específica
de ser, negar tal direito é tirania, discriminação,
homofobia. Se para os bissexuais, ou para as pessoas predominantemente
heterossexuais mas com práticas homossexuais esporádicas
( aos quais o relatório Kinsey atribui os números 0 a 3 )
não faz sentido assumir uma identidade predominantemente homossexual,
para nós gays e lésbicas "egosintônicos" ( com o ego
sintonizado como nossa atração homossexual ), é uma
questão de coerência política e existencial a afirmação
de nossa homossexualidade. O que não significa necessariamente a
defesa do separatismo ou do gueto: somos diferentes não apenas na
forma de fazer sexo e amar, ( se biológica ou geneticamente diferentes,
só o progresso da ciência poderá esclarecer ), o certo
é que há séculos no Ocidente, e talvez a milênios
no Oriente, os SODOMITAS, BERDACHES, TIBIRAS, ADÉS, QUIMBANDAS,
AMAZONAS, INFAMES, PEDERASTAS, ERÔMENOS e ERÓSTATES, CHIBUNGOS,
SÁFICAS, FANCHONOS e FANCHONAS - eis alguns nomes como eram chamados
os gays e lésbicas em diferentes épocas e sociedades - todos
estes homossexuais certamente participam de algum tipo específico
de subcultura homossexual, algumas mais desenvolvidas e codificadas, outras
mais clandestinas que por se esconderem tanto, poucos vestígios
deixaram para os historiadores. Portanto, na qualidade de pesquisador e
autor de dezenas de artigos e livros sobre a história da homossexualidade,
concluo que o uso do termo HOMOSSEXUAL e científica e politicamente
correto para designar a orientação sexual e a subcultura
de gays e lésbicas. Quando nos confrontamos gays e lésbicas
com a sociedade heterossexual, considero mais acertado usarmos a expressão
"Movimento Homossexual", reservando as expressões "Gay" e "Lésbicas"
quando atuamos enquanto unissexual "afinal, a homossexualidade inlui tanto
o amor entre mulheres como entre homens. Concluindo: se você apenas
"está homossexual", ou se sente apenas homoerótico, tudo
bem, respeitamos sua opção. Exigimos e lutamos para que também
reconheçam o direito de todos nós que optamos pelo "ser nhomossexual".
Afinal, é legal ser homossexual... Somos milhões e estamos
em toda parte!
