
"VIOLÊNCIA CONTRA HOMOSSEXUAIS: ELABORANDO
UMA AGENDA DE SOLUÇÕES"
Edgar Merchán Hamann
Dados estatísticos
das regiões metropolitanas brasileiras revelam uma frequência
alta e crescente de fenômenos de violência, repercutindo no
estado de saúde e na qualidade de vida das comunidades. A proporção
de mortes por "causas externas", que tem registrado um aumento na última
década, é um reflexo desta situação. Torna-se
necessário frisar que a ocorrência de episódios fatais
de violência está longe de ser aleatória. Morrem mais
pessoas de baixa renda, adolesentes, pessoas de raça negra ou mulata
e, dependendo da região, mais homens ou mulheres. Na última
década, as entidades de militância homossexual têm chamado
a atenção para os números crescentes de episódios
de violência contra o homossexual. Fora do âmbito destes grupos,
este problema é raramente abordado e estudado, ou é encarado
como um fenômeno marginal.
Não é
difícil imaginar a situação, vivida durante 1992 em
qualquer área metropolitana de algum país da América
Latina. Durante um programa de televisão transmitido no horário
da tarde, entrevista-se um assassino confesso de um cidadão, que
se enontra ainda foragido das autoridades. A vítima tinha sido assassinada
com mais de cinquenta cortes de navalha. O repórter policial teve
grande dificuldades na descrição das situações
que levaram ao delito, particularmente quando se trata de descobrir "no
ar" e em horário "nobre", que a vítima era homossexual, palavra
que chega a ser mencionada com grande dificuldade. A questão é
que o criminoso tinha uma justificativa para seu ato, que esteve rodeado
de circunstâncias de especial crueldade; tendo sido pago pela vítima
em troca de favores sexuais, esta tinha querido inverter as regras do jogo,
pedindo para o seu parceiro eventual fazer o papel passivo na decorrência
do ato sexual. A idéia transmitida ao longo da entrevista não
é ambígua: ele era uma pessoa que se prostituía com
outros homens, sendo porém, "homem de verdade" e não podendo
suportar o atrevimento do cliente homossexual. A matéria culminou
com a a justificação tácita de um fato horrendo, a
recomendação de que o assassino se apresentasse às
autoridades e os votos do repórter pela melhor resolução
do caso em favor do agressor.
Esta situação
é real e representa somente um caso extremo dentro do aspecto de
atos cometidos sobre a pessoa do homossexual. Com este exemplo não
se busca estigmatizar pessoas engajadas em atividades de sexo comercial
nem fazer generalizações a seu respeito. A violência
contra homossexuais é uma das principais preocupações
dos grupos que lutam pelos direitos das comunidades atingidas. Este fenômeno
se torna a cada dia mais evidente, não necessariamente por um aumento
real na sua frequência, mas em decorrência da criação
de espaços de fala, o crescimento das organizações
de militância homossexual e o aumento de sua atividade política.
A existência deste problema não pode mais ser negada; é
desnecessário lembrar que sob regimes autoritários já
foi tentada a eliminação sistemática de homossexuais
( na Alemanha nazista).
Quase todas as pessoas
que transitam no meio "gay", conhecem casos de diversas formas de abuso,
desde a agressão verbal até as formas mais cruéis
de assassinato sob tortura, atingindo homossexuais. A maioria das casos
fica impune. Estas manifestações de agressão extrema
formam parte do imenso repertório de modalidades de violência
social e estrutural; à diferença de outras formas, esta é
negada ou silenciada tanto pelo discurso oficial como pela maioria dos
outros setores da sociedade, incluindo em muitas ocasiões, as próprias
vítimas. Devido às tensões sociais geradas por questões
não resolvidas ou mal aceitas com respeito à homossexualidade
e à falta de apoio ou sanção social, a violência
contra o homossexual termina sendo ignorada ou banalizada. Neste caso,
como no estrupo ou o extermínio de menores, a saída mais
fácil é culpabilizar a vítima.
Preocupados com
este silenciamento em torno do problema, reuniram-se na ABIA, representantes
de diversas organizações que lutam pelos direitos do homossexual
e de uma entidade acadêmica que estuda a violência. Este artigo
recolhe reflexões sobre a mesa-redonda "Violência contra Homossexual:
Elaborando uma Agenda de Soluções", organizada pelo projeto
"Homossexualidades" da ABIA e o Grupo Pela Vidda. (1)
Abordagens do Problema
Os expoentes convidados
a falar do problema, concordaram em caracterizar a violência contra
o homossexual como um problema de direitos humanos. Houve um consenso em
torno da idéia de que a violência não se limita aos
episódios que se tornam conhecidos mais facilmente, como os assassinatos
com requintes de crueldades noticiados na imprensa sensacionalista, ou
os que acontecem em ambiente público (na rua).
Os representantes
dos grupos Atobá e do Movimento 28 de Junho, a partir das suas experiências
com a população mais pobre da área metropolitana -
o subúrbio e a Baixada Fluminense, destacaram a dimensão
social do problema, i.e., o papel das desigualdades sociais como base das
diversas formas de violência contra o homossexual. Neste sentido,
falou-se da frustação canalizada por setores hegemônicos,
às vezes estimulada pelo clero católico e pelas igrejas protestantes.
Eles também reconhecem modalidades de violência de massa,
e na medicina, que dão por resultado, a criação e
reprodução de estereótipos. Enfatizou-se na conveniência
de enxergar a existência de formas mais ou menos veladas de violência,
que podem ou não institucionalizadas; citou-se o exemplo da discriminação
a gays e travestis para a doação de sangue e a violência
doméstica.
Justamente sobre
todos esses tipos de violência, é que Otávio Cruz Neto
se baseia para delinear um roteiro de análise, partindo do pressuposto
de que a violência decorre de formas desiguais de relações
de poder dentro da estrutura da sociedade. Baseado no seu trabalho com
a violência sobre crianças e adolescentes na sua forma mais
externa, o extermínio, Otávio reconhece quatro tipos principais
de violência igualmente aplicáveis à violência
contra o homossexual: o primeiro, na esfera doméstica, decorrente
da falta de apoio da própria família, a violência se
apresenta mais silenciosamente no seio dos relacionamentos de casal, cuja
legitimidade não é reconhecida; o segundo, a violência
institucionalizada, ilustrada pelos exemplos de discriminação
na igreja, no exército, nas prisões; o terceiro tipo é
a discriminação e exclusão do mercado de trabalho,
associada a estereótipos e preconceitos; e finalmente, a violência
pública não institucionalizada.
A experiência
do Grupo Arco-Íris decorre do trabalho deste coletivo junto a homossexualidade
de classe média de vários bairros da cidade do Rio de Janeiro.
O grupo não descarta a existência de uma violência cultural
mais ampla, dirigida ao homossexual como alvo destas práticas. Também
não se diminui a importância da violência explícita
e organizada manifesta sob formas variadas como a extorsão, roubo,
chantagem e assassinato. Porém, o cerne do trabalho do GrupoArco-Íris
é o papel da "violência interna", a desestruturação
do próprio ego, o auto-preconceito, como resultado de séculos
de estigmatização da homossexuliade como pecado, delito ou
doença. Para Augusto Andrade, as pessoas chegam ao espaço
cultural do grupo com essa carga cultural e social, que deve ser trabalhada
da mesma maneira que os outros aspectos do problema.
Respostas ao Problema
Alguns dos representantes
de grupos que têm projetos de trabalho específico sobre o
problema, expuseram as suas atividades, parte das quais se desenvolve a
nível internacional, como a participação em fotos
internacionais de direitos humanos de Gays e Lésbicas. O Grupo Atobá
conta com um dossiê de relatos de violência contra homossexuais
e estimula a denúncia e o esclarecimento jurídico. Adauto
destacou o apoio dado por segmentos da polícia, delegados e autoridades
da Secretaria de Segurança do Estado, com atitudes positivas com
respeito à denúncia de delitos contra homossexuais.
Para Otávio
Neto, persiste uma prática de banalização da violência,
que traduz a inexistência de uma política clara por parte
do Estado a este respeito. Foge-se do problema jurídico e da Polícia.
Em face à existência de um meio homossexual "programando",
não organizado, o pesquisador destaca os perigos da institucionalização
como veículo de controle, o refúgio no gueto. Partindo do
princípio "Admitir por si, é admitir para os outros", Otávio
valoriza a resposta da comunidade organizada como a melhor forma de reivindicar
os direitos. Inicialmente há a necessidade de resgatar a história
do movimento homossexual organizado para evitar a redundância nas
ações e aproveitar as experiências prévias.
Desde os seus primórdios, com o movimento "Somos", e o I Encontro
de Homossexuais em São Paulo, nos anos 70, tem-se reiterado a necessidade
de articular respostas contra a violência.
O Grupo Arco-Íris
age co soluções diferentes para cada nível de violência:
a interna, a cultural e a organizada. O denominador comum é a resposta
visível. Para combater a auto-violência, o grupo tem criado
espaços para fala e lazer, no seu projeto "Vamos nos Ver", que visa
o aumento da auto-estima com base no apoio mútuo, no estímulo
à fala e na união. Ademais, o grupo está organizando
um coral gay e lésbico e desenvolvendo formas de descarregar a agressividade
reprimida e auto-dirigidacom um novo projeto de trabalho corporal, "Vamos
à luta", que utilizará artes marciais sob uma nova perspectiva,
positiva. Contra o segundo nível de violência, a cultural,
a resposta é a maior visibilidade; dirigindo cartas a jornais, participando
em debates na televisão, como alguns integrantes do grupo já
fizeram. Por último, a denúncia da violência organizada
faz parte da resposta da comunidade organizada, indo aos locais onde ocorrem
os episódios, estimulando as pessoas vitimizadas a não ficarem
caladas.
A resposta comunitária
pode ser difícil em ambientes da cidade menos receptivos e com recursos
mais limitados. Os representantes do Movimento 28 de Junho destacam as
dificuldades financeiras para criar um espaço para discussão
na Baixada Fluminense.
Conclusão do Debate
Partindo da percepção
de que invisibilidade e silêncio se confundem com inexistência,
a comunidade homossexual deve reagir, e da visibilidade da sua resposta
decorrerá a afetividade da sua ação. O problema da
violência é mais um sintoma das múltiplas tensões
sociais de uma estrutura perversa e precária. Um tanto essencial
que permeia os episódios de violência é a existência
de um desequilíbrio entre entidades heterogêneas com poderes
desiguais. Esta relação assimétrica é estrutural
e dinâmica, proporcionando a base de diversos graus de poder ao longo
de diversos eixos pelos quais discorre a integração humana
(hegemonia - antihegemonia; dominador - dominado; possuidor - despossuido;
cidadão opressor ou de primeira classe - cidadão de segunda
classe ou oprimido). Na construção hegemônica da sexualidade,
os homossexuais de ambos os sexos, pobres e negros, levam a pior parte.Gisella
Carvalho levantou a possibilidade de que a situação seja
pior ainda no caso da lésbica.
Para elaborar uma
agenda de soluções é necessário trabalhar politicamente
as áreas críticas que determinam o problema. O primeiro passo
deve ser a reivindicação dos direitos de gays e lésbicas
partindo da caracterização da violência contra o homossexual
como um problema de cidadania. As ações da comunidade organizada,
descritas acima, tendema aumentar a consciência e a resolver problemas
pontuais em vários níveis i.e., com atividades constantes
de esclarecimento individual, com trabalho coletivo, com respostas restritas
ao âmbito local. Também é necessário continuar
exercendo pressão sobre mudanças na legislação
e a jurisprudência tendentes a proteger os cidadões.
Um segundo passo
é atingir as verdadeiras causa do problema que residem na construção
arquetípica, por parte de setores hegemônicos da sociedade,
da homossexualidade. Neste sentido, ela é associada explícita
ou sutilmente, à anormalidade, doença, desvio ou crime. Esta
mudança implica redimensionar valores muito enraizados na sociedade.
Promover uma mudança neste âmbito implica quebrar o silenciamento
ditado por esses setores: as informações derivadas de dossiês
mantidos pelas entidades de militância homossexual, devem ser difundidas
não só no seio da comunidade atingida mas também para
um contigente mais amplo que poderia se interessar no problema e pressionar
politicamente. A criação de um sistema de informação
de episódios de violência contra o homossexual e sua difusão
deve elevar o nível de informação e consciência.
Por último,
nem todas as respostas devem passar pela contestação oriunda
da condição de minoria vitimizada. A conquista. A conquista
lenta de espaços sociais antes reservados ao poder hegemônico,
deve caminhar paralela ao aumento da auto-estima, à crescente visibilidade
que retire da clandestinidade as práticas homossexuais, e finalmente,
à construção comunitária de uma vivência
plena, positiva e legitima da homossexualidade.
DISCUSSÃO
Este relato partiu
da observação de que a condição de homossexualidade
da vítima, constitui, em muitas ocasiões, em fator
atenuante da responsabilidade do delito para quem o comete. Este fato nos
leva a pensar que a violência contra o homossexual não deve
ser encarada como mais um problema de saúde pública, senão
como um aspecto da negação sistemática da cidadania
a indivíduos e coletivos numa sociedade doentia. A situação
piora quando notamos que parte das vítimas não tem o poder
suficiente para reivindicar esses direitos. Eles não se vêem
como cidadãos porque a sua identidade de seres humanos está
esfacelada.
A identidade cidadã,
como a identidade sexual, se constróem através de práticas
determinadas pela própria sociedade em que os diversos atores têm
um papel cujo sentido e valor é conferido e interpretado de acordo
com um repertório de símbolos oferecido pela cultura. Não
obstante, há ambiguidades nos significados associados com estas
práticas, nas formas de expressão do desejo e na presença
ou ausência de sanção social. O tecido social deixa
ver, desta maneira, as frestas da sua precariedade. A violência surge
como um tipo de resposta a estas situações ambíguas.
As explicações dadas à resposta violenta são
construídas de modo a ajustar-se ao sentido das práticas,
e ao papel das pessoas enquanto atores sociais dentro do mesmo contexto
cultural. A nossa proposta surge destes pressupostos; sendo violência
gerada e manifesta através de relações sociais, sua
explicação tem que passar mais pelo estudo da sua inserção
no universo sócio-cultural dos atores do que pelo frequente apelo
a explicações naturais e biológicas. De acordo com
estas últimas, o travesti pode ser visto como "agressivo por natureza",
enquanto pessoas que o violentam podem se justificar. É contraditório
atribuir a violência à agressividade das vítimas ou
à suposta ameaça que elas representam, enquanto se diminui
a importância e se justificam diversos crimes e ofensas.
É necessário
conhecer melhor as raízes do problema mediante o estímulo
à pesquisa sobre os determinantes sociais e culturais da violência.
A análise destes fatores deve atingir as atitudes violentas contra
as minorias, devendo colaborar para a formulação de soluções.
A compreensão dos fenômenos da violência deve relativizar
as explicações que o inconsciente coletivo vê como
"naturais", e a reificar a homossexualidade como parte da diversidade humana.
Já existe um corpo acadêmico que tem pensado, em outras sociedades,
no caráter ideológico da determinação do que
é ou não normal, nos limites da tolerância, na descriminalização
e medicalização do desvio. Também a violência
tem sido objeto de estudo como um problema de saúde que representa
um sintoma de problemas sociais cuja origem e solução estão
fora do escopo das entidades de saúde. Os próprios organismos
de saúde podem também ser agentes de violência institucionalizada.
Com respeito à violência associada com o machismo e a determinação
cultural do gênero, um ponto de partida nesta sociedade é
o estudo da construção cultural e das específicas
em que se dá a vivência da sexualidade no Brasil. É
necessário resgatar a história não só das organizações
de militância homossexual, mas também das próprias
práticas homossexuais no nosso meio; o uso social e erótico
urbano ao longo da história do Brasil.
As respostas à
violência devem passar pelo redimensionamento de símbolos
e o trabalho das relações sociais, pela utilização
de redes de apoio da subcultura "gay", pelo esclarecimento de direitos
do cidadão, em suma, através da construção
de laços da solidariedade. O fato de reivindicar a cidadania
"plena" para o homossexual, implica o caráter inegociável
da violência contra ele; os direitos não se barganham, eles
se conquistam.
NOTA
1. Contou-se com a participação de Adauto Belarmino
Alves (do Instituto de Estudos da Religião - ISER - e do Grupo Atobá),
Raimundo Pereira e Gisella Carvallo Santos )do grupo Atobá), Augusto
Andrade (do Grupo Arco-Íris), Otávio Cruz Neto (do Centro
Latino Americano de Estudos de Violência - Escola Nacional de Saúde
Pública - Fundação Oswaldo Cruz), Marcos Silveira
(do Movimento 28 de Junho) e de integrantes da ABIA e Grupo Pela Vidda.
Representantes de outros segmentos, como das Igrejas Católica e
Israelita, não compareceram ao convite nem enviaram uma resposta
formal. Foram convidados e não compareceram, como representantes
de entidades religiosas, Monsenhor Amaro Cavalcanti, presidente da Confederação
Nacional de Bispos do Brasil (CNBB); o Arcebispo Dom Carlos Alberto Navarro,
do Rio de Janeiro; e o Rabino Alejandro Lilienthal, da Associação
Religiosa Israelita (ARI) - RJ.
Agradecimentos especiais a Gerson Santos.
