
O VISÍVEL E O REPRESENTÁVEL
Luiz Morando
Há alguns
anos vem tomando vulto, sobretudo nos Estados Unidos, uma prática
na comunidade homossexual à qual se denominou visibilidade. Esse
tipo de comportamento diz respeito a uma forma de manifestação
sem o tom agressivo e o acento contestatório radical do "coming
out" da década de 70 e início dos 80. A visibilidade
pressupõe uma forma mais contínua e recorrente de manifestação
no que ela tem de menos exibicionista e mais marcante: estar afirmando
e se posicionando diariamente de acordo com sua orientação,
tornando-se visível através de uma prática política
de exposição mais eficaz.
No que tem de organização,
o movimento tem cumprido seu fim: tornar visíveis uma parcela da
população que se encobria sob a desnecessidade, a desmotivação
ou a falta de coragem para se expor aos olhos do outro. Considerados minoria,
homossexuais masculinos e femininos se projetavam em locais de freqüência
quase exclusivamente gays sem, na maior parte das vezes, se manifestarem
publicamente e defenderem questões de interesse próprio.
No Brasil, excetuando-se casos isolados de organizações não-governamentais
ou grupos específicos da sociedade civil com trabalhos voltados
para a homossexualidade, são poucas as manifestações
organizadas com o interesse de tornar visível a participação
desse segmento no desenvolvimento do processo social. No entanto, falar
tão somente de visibilidade ou invisibilidade pressupõe falar
em representação e identidade. É a respeito desses
três pontos que gostaria de desenvolver este texto.
A homossexualidade
foi um termo criado e uma categoria construída a partir do início
da segunda metade do século XIX, dentro de um contexto teórico
cientificista e positivista e um quadro cultural que tentava limitar
certas práticas sexuais. Concorrem para a construção
dessa imagem as medicinas legal e social, as instâncias jurídica
e policial e a religião. É necessário esclarecer que,
antes do século XIX, a sodomia era um ato interdito e seu autor,
um sujeito jurídico presente diante do juiz. A interferência
da instância jurídico-policial se fazia quando da acusação
de atentado contra o pudor e à imoralidade pública e/ou da
exploração e corrupção de menores.
A ação
da medicina visou justamente dar um registro civil àquela instância.
Como relata Foucault, "o sodomita era um reincidente, agora o homossexual
é uma espécie" 1. Tomando emprestada a concepção
cristã das práticas nefandas, a medicina se fixou em duas
evidências: física (procurar sinais do vício no corpo
do indivíduo) e moral ( motivos que impeliam o indivíduo
ao vício e o tornavam foco de contágio na sociedade).
O discurso sobre
a sexualidade prolifera, então, de maneira a se adequar a um contexto
capitalista-industrial que se sedimentava sobre dois pólos: o da
sexualidade considerada regular (heterossexual) e o da sexualidade considerada
periférica (homossexual). Ainda segundo Foucault, a sexualidade
periférica é obrigada a falar e a se reconhecer como tal,
provocando uma polarização entre o mundo da legalidade e
o da perversão. Desse modo, o status civil que o homossexual ganha
na sociedade do século XIX faz remeter a uma classe de indivíduos
que dão uma orientação exclusiva à sua sexualidade,
embora descolados da natureza do ato sexual realizado e do caráter
do seu desejo sexual. O homossexual deixa de ser detectado individualmente
para constituir um grupo homogêneo, reconhecível em sociedade.
Nessa linha de construção, as marcas atribuídas a
esse grupo impeliam-no para a área das enfermidades, para o discurso
das patologias, dos desvios sexuais. Inscrito na ordem do transgressor,
o homossexual será qualificado e identificado pela sua aproximação
com o feminino e de seu estereótipo: o efeminado, aquele que repete
e explora comportamentos e trejeitos femininos.
Essa representação
ressoa ainda fortemente no imaginário social deste final de século.
Como ser social, o homem está inserido em um agrupamento que convive
com os mesmos recursos, normas, convenções e atribuições
- apesar de não ser facultado a todos, por motivos sócio-econômicos,
o usufruto daqueles recursos. Entretanto, o homem realiza sua inserção
no campo social ao ter acesso à rede de símbolos que atuam
como elementos de mediação entre o indivíduo
e a realidade. Essa inserção, em consonância com vários
fatores e variáveis, se estabelecerá sobre determinados mecanismos
de identificação ou hostilidade recortando espaços
de igualdade entre indivíduos pertecentes a um mesmo grupo e espaços
de hierarquia entre grupos diferentes, multiplicando os sistemas e as formas
de representar determinados segmentos.
Na rede que se forma,
a representação do grupo será feita por si e pelos
outros grupos, potencializando imagens e criando continuamente processos
de identificação entre iguais. Uma vez que dada, a identidade
se extrutura sobre um código prévio de sinais perceptíveis
e organizada de acordo com uma expectativa baseada no arranjo de elementos
semelhantes. Esse raciocínio se choca com a questão da identificação.
Enquanto a identidade é uma relação construída
pelo sujeito, interna à sua subjetividade e, portanto, voltada para
a construção de seu eu, a identificação é
um processo externo que aponta, adequadamente ou não, possíveis
semelhanças entre um indivíduo e um grupo, assinalando para
a formalização e fossilização do gueto. Esse
processo externo, que vai estar delimitando espaços e qualificando
indivíduos, tem como resultado um produto inverso ao salientado
pela visibilidade.
A visibilidade,
como inicialmente apontada, é um processo de revelação,
afirmação e sustentação da subjetividade do
indivíduo pelo próprio indivíduo. Um processo que
visa construir a igualdade a partir de uma retomada das manifestações
do final dos anos 70 e início dos 80, quando uma parcela dos homossexuais
definitivamente mostraram o rosto fazendo uma colagem entre o que era identificado
neles a identidade que eles queriam construir, porém chamando a
atenção para as arestas que não se integravam.
Assim, a figura
da "bicha louca" pôde começar a romper com as estruturas sedimentadas
da identificação externa para buscar sua identidade de grupo.
Resta para esses anos 90 a tarefa de tentar desconstruir e reformular a
forma de representação do homossexual. É patente que
o visível e o representável se chocam de forma aguda, deixando
transparecer incongruências que, se não inviabilizam, ao menos
impõem obstáculos de difícil transposição.
Enquanto fenômeno mais geral da sociedade, o processo de representação,
ao mesmo tempo que difundido rapidamente, também se cristaliza com
a mesma rapidez, apesar de manter uma flexibilidade (mas não uma
mobilidade) que lhe permite atualizações constantes.
Atualmente, a luta
pela visibilidade está conectada a reivindicações
que buscam afirmar e consolidar posições políticas
alcançadas durante a década de 80. Os eixos desta luta, parece-me,
estão se construindo sobre a valorização da auto-estimado
do homossexual e sobre a aquisição de direitos que façam
solidificarseu status de cidadão. Esta é a forma política
e o instrumento utilizado através dos quais o processo de visibilidade
possibilita a ampliação do processo de identidade e a modificação
da forma de representar o homossexual.
