
ACERCA DA HOMOFOBIA ECLESIÁSTICA
Eugênio Ibiapino
A visão que
as igrejas têm da homossexualidade ainda tem sido de bastante hostilidade
e preconceito. São posicionamentos que em nada contribuem para aumentar
a auto-estima das pessoas e serve como um entrave na luta por cidadania.
No dia 06/11/94,
a Folha Universal, órgão oficial da Igreja Universal do Reino
de Deus, citava algumas aberrações ao se referir à
homossexualidade. Que todos os homossexuais são viciados, doentes,
promíscuos e que não seríamos filhos de Deus, entre
outras aberrações. Como também fui citado nominalmente,
enviei uma carta ao referido jornal como direito de resposta. Posteriormente,
enviei outras para a OAB e Sindicato dos Jornalista do Rio de Janeiro e
outras entidades de direitos humanos.
Como o jornal NÓS
POR EXEMPLO tem um caráter democrático e informativo, sendo
um dos principais veículos de comunicação da comunidade
homossexual, resolvi fazer uma pequena reflexão acerca da homofobia
eclesiástica. Por ter analisado o alto índice de pessoas
que passam por um processo de auto-isolamento e ficam carregando um forte
sentimento de culpa, imposto sobretudo pela maioria das igrejas "cristãs"
e obviamente reforçado pela família, meios de comunicação
social e demais parâmetros dos sistemas opressor.
Como homossexual
e como cristão, quero dizer que, infelizmente, este é um
processo "normal" que acontece com a maioria dos homossexuais. Aprendemos
desde cedo que qualquer relação que não seja procriativa
é pecado e abominável. Uns conseguem se libertar do sentimento
de culpa e auto-repressão, outros carregam pelo resto da vida a
imposição da solidão e do medo. Vivemos em uma sociedade
que não nos educa para respeitar as diferenças. Assim, a
dificuldade não é somente para nós, homossexuais,
mas para os negros, mães solteiras, deficientes físicos,
índios, menores abandonados, trabalhadores, enfim, as minorias exploradas
e oprimidas.
A Bíblia
não diz, em nenhuma parte, que a homossexualidade seja pecado. Ela
não discute nunca a orientação sexual. Não
disse em nenhuma parte que as pessoas gays e lésbicas podem e devem
mudar sua orientação sexual, porque não se encontra
nenhuma palavra para homossexual, no original grego ou hebreu da Bíblia.
A palavra homossexual só foi criada em 1869, pelo Dr. Benkert, usando
duas raízes lingüísticas (homo, do grego e, sexual,
do latim). Portanto, como a Bíblia foi escrita de dois a quatro
mil anos atrás, não poderiam os escritores sagrados terem
usado uma palavra criada no século passado.
A palavra grega mais comum
para o amor romântico (que inclui sexualidade) é EROS, que
nunca ocorre em todo o Novo Testamento.
A homossexualidade
também constitui uma forma de amor e onde existe amor, aí
Deus está. É melhor assumir a homossexualidade do que viver
reprimido, ouvindo sermões homofóbicos, que em nada contribuem
para a busca da cidadania pessoal e coletiva.
Jesus Cristo morreu
para apagar os nossos pecados e não nossa sexualidade. Segundo o
evangelho, para quem quer se tornar filho de Deus é necesário
buscar a presença do Pai e andar sob os seus mandamentos, porém,
quem anda sob os mandamentos de DEUS não deve julgar mal e condenar
os outros. Assim sendo, a homofobia continua afastando os homossexuais
de suas relações de fé com Deus e para com a sociedade
de conjunto.
De nada adianta
falar todas as línguas do mundo se não tiver amor, já
dizia São Paulo. Os cristãos que nos julgam mal e nos discriminam,
se esquecem da palavra do evangelho: Mateus 7.1-3 "Não julguem,
porque vocês serão julgados da mesma forma que julgarem o
próximo.Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão
e não vê a trave que está no seu próprio olho?"
A prática
do amor entre as pessoas do mesmo sexo é mais antiga do que a própria
Bíblia. Existem documentos egípcios de 500 anos antes de
Abraão, que revelam a prática do homoerotismo. No oriente,
o homossexualismo sempre foi muito praticado, desde toda antiguidade. Entre
os hititas, povo vizinho e inimigo de Israel, havia mesmo uma lei autorizando
o casamento entre homens, 1.400 A.C. Apesar de muitos pastores e sacerdotes
condenarem a homossexualidade, um crescente número de excelentes
exegetas de alta categoria reconhece agora que a Bíblia não
sustenta a base para tal julgamento. A ignorância continua sendo
mãe de todos os males. Necessitamos de novas informações
que poderão trazer novas liberdades. "A VERDADE VOS LIBERTA", disse
Jesus. Os poucos textos bíblicos utilizados para condenar os homossexuais
têm sido distorcidos, mal traduzidos e interpretados incorretamente.
O resultado tem sido muito prejudicial contra os quais o texto original
não estava dirigido, resultando em condenação e falsos
julgamentos.
Jesus nunca condenou
ou discriminou o amor romântico (sexual) e relações
sexuais entre pessoas do mesmo sexo. Continuamente, pregava sobre a importância
do verdadeiro amor, sobre a justiça e fraternidade. A Bíblia
repetidas vezes nos mostra e reomenda o amor entre pessoas do mesmo sexo:
Davi e Jônatas, Ruti e Noemi, Jesus e o discípulo amado, Paulo
e Timóteo. São exemplos bíblicos de intenso e profundo
amor entre pessoas do mesmo sexo.
"Disse Jesus: Desta
maneira, todos saberão que vocês são os meus discípulos,
se se amarem uns aos outros." Visto que Deus nos ama, estamos também
habilitados para amar a nós mesmos e amar aos demais: "Amai-vos
uns aos outros como eu vos amei". Mesmo sendo homossexual, nada me impede
de ser cristão, ou mesmo praticar outra religião.
Como cristão,
serei julgado e justificado pela fé em Cristo e pelas obras realizadas,
baseadas na justiça, liberdade e fraternidade, não a partir
de minha orientação sexual. "EU VIM PARA QUE TODOS TENHAM
VIDA, E VIDA EM ABUNDÂNCIA". Desta forma, Jesus não indicou
um o outro seguimento da sociedade, mas todos terão direito a uma
vida plena. É inaceitável o silêncio, a indiferença
das igrejas "cristãs" diante do derespeito aos direitos humanos
dos homossexuais. O absurdo de se matar um homossexuala cada semana, por
causa da homofobia, sem que as autoridades tomem alguma providência
no sentido de, pelo menos, punir os culpados.
Todos esse absurdo
é reforçado pelos sermões homofóbicos praticados
por padres e pastores sobre a homossexualidade, mostrando-a não
como uma opção sexual, mas como desvio, pecado, abominação,
deixando a grande maioria dos seus fiéis indiferentes a tudo que
acontece com as pessoas homossexuais, inclusive os assassinatos.
Faço um chamado
aos sacerdotes, pastores e aos demais cristãos para uma pequena
reflexão e auto crítica. Nunca é tarde para se reconhecer
o erro. "Voltar" a Jesus é o primeiro passo para reforçar
a construção de uma sociedade sem exploração
e opressão.
"Voltar-se" é
o significado literal da palavra "Arrepender-se", tanto em hebreu como
em grego, os idiomas da Bíblia. Isto significa abandonar as atitudes
e ações destrutivas e limitadoras para começar uma
nova vida de Amor, liberdade, paz e esperança que Deus nos oferece
em Jesus Cristo.
Como cristãos,
comemoramos o natal, nesta época. Que o espírito libertador
nasça e cresça em nossos corações, para que
sejamos firmes na busca de uma vida saudável para todos. Que o cristianismo
seja mais um instrumento de combate à homofobia e não mais
um componente de imposição, medo e sentimento de culpa para
as minorias exploradas e oprimidas.
Finalizando, desejo
para todos um natal bastante gay ( alegre e atrevido!)
