
Os casais gays criam beleza!
Arnaldo Domiguez
Dois homens que se amavam e
compartilhavam suas vidas, repentinamente foram surpreendidos por uma crise
de relacionamento.
Como poderia se evitar o
"burn out" ( a queima total )?
Como se sustentar o compromisso de uma relação
afetiva quando a ruptura da paixão e seus encantamentos, libera
os fantasmas do desamparo?
E as individualidades retornam
impositivas obrigando os indivíduos a enfrentarem a transformação
do casal?
O que se faz necessário para ultrapassar
esta situação tão dramática que destrói
a alma dos amantes, quando não, as conquistas materiais que
simbolizam a união, os produtos da relação, os "filhos"?
Esgotam-se todas as alternativas mas parece que a "pulsão
de morte" reina no absolutismo empurrando-os à impotência
que se articula com a angústia de castração.
Os corpos cindem-se enlouquecidos. A temida fragmentação
da totalidade mostra-se crua, nua e cruel.
Já não há mais uma relação-psicótica
(se é possível utilizar esta expressão
ambígua). A psicose agora situa-se no individual atormentado pela
solidão. Perante a sensação de um pedaço arrancado.
Uma metade amputada. Um vazio de ser ou uma falta de ser. Solidão
a dois.
Era-se um casal. Eis dois sujeitos
barrados. Impossibilitados de atingir a felicidade, tal qual
haviam imaginado fantasísticamente ao abraçar o corpo do
amante numa cópula simbiótica de completude.
Narciso afogou-se no lago. E o casamento acabou!
Alguém toma a iniciativa. Um deles. Geralmente
aquele que se sente sufocado e que não mais suporta as cobranças
de amor do amante desejante. Cobranças que ele não poderia
pagar, logicamente.
Então, inadimplente, decide livrar-se desta "dívida
simbólica" (que antecedia em muito tempo ao casamento) e respirandocom
alívio "sai de casa" retornando ao apoio do seio familiar, onde
mora "mamãe", esta senhora possuidora dos seios kleinianos.
Chegou a hora da divisão dos bens.
Dos bens? Parece-me que a divisão é dos "maus". Os bens ficam
por conta dos bons momentos que passaram juntos e que futuramente
recordarão ao folhearem os álbuns das épocas
em que "eram felizes e não sabiam".
Curioso é que muitas pessoas ajudam para acelerar
a ruptura do vínculo, dando palpites negativos.
-- Você não percebia que ele não
te amava? Era evidente que estava contigo por causa da comodidade que lhe
era proporcionada.
O parceiro será sempre o último em saber.
Ele era um cafajeste! Embora os amigos dele devam dizer coisas semelhantes
a respeito deste.
Machucados e paranóicos em
vão tentam encontrar, dentro da lógica, motivos que
venham justificar o desenlace fatal.
Falácias, traições. Sintomas do
"mal" projetados no outro.
A lógica doentia do terceiro excluído.
Uma história já vivida.
Mas se o casamento tornara-se uma
loucura, a separação transforma a vida das pessoas, num hospício.
Um hospício de dor.
A ilusão do número "UM"
está morta. Sucede-se o luto pela morte de um só corpo,
uma só psique. Aquele hermafrodita de Aristófanes no
banquete de Platão, antes da decisão de Zeus castrador.
Mas Zeus existe! A prova é que o número
"UM" está dilacerado.
E o nascimento do número "DOIS", mais parece
um aborto. Um aborto do casamento.
Será possível a ressurreição
do número "UM"?
É o único modelo que eles conheciam!
Essa questão os trouxe ao consultório,
buscando, uma terapia de casal.
Sentados na minha frente estes dois homens quebrados
pela situação que atravessam, parecem dois meninos.
Estupefatos diante do incomunicável. Do indizível.
Da vivência individual (O Erlebnis
de Benjamim): um lugar sem palavras.
Dirigem-me um olhar suplicante como se acreditassem
que a "sabedoria" do analista pudesse responder-lhes os porquês.
Assim cada um conta uma história do casal. Uma
história singular, conjugada em plural por mero acaso da fascinação.
Se confrontam quando há discordâncias.
-- Ele é teimoso, diz um deles.
-- Ele é que é teimoso, retruca o outro.
Pronto, já sei algum detalhe importante. Ambos
são teimosos.
Minha mente de poeta ouve as imagens do que me dizem
enquanto meu lugar de analista, olha as palavras.
ANGUSTIA
Amargo no conflito,
sofro...
me defendo como posso.
Fico aflito.
Gozo.
Peço apoio,
encontro um interdito.
Desafio, enfrento
Desabafo, desabo.
Amargo no conflito,
Sofro...
Me defendo como posso
Fico aflito,
Gozo.
Peço apoio... encontro...
repito.
Trato de enxergar por detrás das
palavras. Penetrando nas histórias, enlouquecendo junto. Digo-lhes
que estamos numa lavanderia (minha adorável lavanderia) e que roupa
suja se lava na Lapa ( o bairro do consultório). Me intrometo na
relação, Estremecem. Eles não querem uma terapia de
casal!
Querem me convencer das razões individuais.
Sinto isso. Interpreto isso. Ficam ambos
em silêncio. Um silêncio profundo, parecido ao da angústia,
porém com uma pequena diferença. Esta
angústia começa a receber um nome. Acabou a sessão.
Até terça.
Terça. Parecem animados. Contam-me que
fizeram amor e foram juntos à feira. Querem informações
sobre a Conferência Internacional da ILGA
que ocorrerá no Rio. Eles sabem que participo do Movimento
Brasileiro de Gays, Lésbicas e Travestis.
E que fui co-autor da constituição
que deu origem a Associação Brasileira
de Transexuais, através dos ideais
da nossa filosofia
"Etcétera e tal... pela livre orientação sexual e
de gênero".
As secretárias da clínica
dar-lhes-ão os detalhes. Isto os deixa mais à
vontade. Facilita o vínculo transferencial. O
analista não é repressor. Nem legislador
em prol da moral. O analista é o lugar da escuta.
Continuam semanalmente nas sessões.
Aos poucos revela-se o "núcleo vivencial" da relação.
Aquele modelo original a partir do qual se apaixonaram. E que parece
ser o único que conhecem pois a ele retornam incessantemente.
Cruzaram-se numa boate há oito anos, por ocasião
do aniversário de, vamos chamá-lo ''A". O outro
"B", sedutor, ofereceu-se como "Presente".
Em pouco tempo já estavam apaixonados, portanto
abandonaram os preservativos e o "Safer-Sex" (sexo mais seguro).
Sabe-se que o "amor" eliminar ou torna improváveis as possibilidades
de contágio pelas DST-AIDS!
No entanto "A" contraiu uma blenorragia. Ele estava ciente
de que a única alternativa de contaminação era seu
relacionamento com "B".
Logo "B" era um "Presente de Grego". Um cavalo de Tróia,
enganoso ardil que ingressara no território inimigo para destruí-lo.
Continuaram juntos, fazendo mentalmente
a contagem regressiva até o aparecimento dos primeiros
sintomas da imunodeficiência. Não fizeram
os testes. Continuaram sendo HIV Interrogativos.
Estava prontificado o território para o Sadomasoquismo.
Acusar e desconfiar do contagiante
passou a ser o hábito, num jogo completar de Dominação-Submissão.
"A" era estrangeiro. "B" nativo e negro.
O prólogo perfeito para brincarem de Robinson Crusoe e Sexta-Feira.
Pena que dentre os sonhos, fantasias e
associações, interpunha-se sua majestade: AS
QUEIXAS.
Fantasmas que pertubavam o desejo de
tornar-se invisíveis, mudos e cegos perante a
realidade. Quebrando todos os artifícios que poderiam ser bem sucedidos
no propósito de habitarem no imaginário. "O casal 20
na Terra do Nunca".
As queixas descubriam o subterrâneo:
onde conjugavasse um verbo assustador: casamento e HIV. Presentee
morte.
Defendiam-se um sustentando a falsa
superioridade e onipotência do outro, ora com recursos
místicos, ora intelectuais.
Mas havia um entrave para evoluírem do conluio inicial
em direção à cumplicidade.
Isto sem contar que "mamãe" lhes inculcara a idéia
de serem "preciosos tesouros", como podem os "tesouros"admitirem suas falhas?
Quantas revelações importantes lhes trazia a
análise.
Dava-lhes esperança. Surgiria uma nova tonalidade na
relação.
Estavam se "dando" tão bem agora. Comunicavam-me isto
com entusiasmo.
A " paixão atuava " novamente. Elogiavam meu
trabalho.
Davam-me elogios como " presente ".
" Presentes de Grego "?
Semana após semana traziam expectativas
insatisfeitas, desarmonias diversas, confrontos com amigos do outro (os
gays casam-se com seus namorados e os amigos destes, menos
freqüentemente com seus parentes).
Ciúmes, divergências financeiras,
sexuais, sociais. Infidelidades.
O mercado de orgasmos tão
fáceis de consumir no gueto extenso da cidade.
A dimensão moral do Sagrado
e do Profano retomada do modelo ortodoxo.
A velhice, a morte e a ameaça sempre presente da separação
dos amantes ("O objeto é fundamentalmente o outro corpo cujo encontro
atualiza ou torna sensível a dimensão essencial da separação"
-- J. Lacan).
Até que finalmente desistem de salvar o casamento.
Delineando-se assim a perspectiva de salvamento. Vieram
procurando um Messias Salvador e tal como ocorreu com Cristo,
houve uma ruptura no curso da história, tornando-se
o presente, presente.
Descobria-se um outro tipo de Beleza. A beleza das múltiplas
dinâmicas que eclodiram e muito bem substituíam a ilusão
da Totalidade.
Após o súbito aparecimento da fragmentação
dos sentidos podia-se brincar por estarem de luto.
As alegorias construídas prendiam parcialmente os buracos
da relação.
Expressavam a insuficiência do símbolo,
na tentativa de abarcar a dimensão sensível
da beleza ou do sofrimento ou seu sentido trascendente.
A falsa aparência da totalidade se
desfez e o "casal vinte" compreendeu que estavam juntos para subtrair,
não para somar.
Isto tornou possível construir algum luxo, por Deus.
Eu também preciso. Amém, prá todos nós.
Trata-se de um show inacabado porque lhe falta resposta.
E não creio que ninguém, no mundo, me dê...
O único jeito é acreditar... e acreditar chorando.
Pois este show acontece em estado de emergência e calamidade pública
e não se pode dar uma prova de existência daquilo que é
mais verdadeiro...
Apenas é um show em technicolor...
para ter algum luxo. Até terça.