
MORREU LAMPIÃO, O JORNAL DAS BICHAS
Francisco Viana
O jornal Lampião,
a principal publicação gay do país, deixa de circular
este mês. Morre após três anos de vida, por causa
das divergências internas que separaram os colaboradores paulistas
dos seus colegas cariocas e, por paradoxal que pareça, por falta
de interesse dos próprios homossexuais que, nos últimos meses,
não vinham comprando o jornal com a regularidade dos primeiros dois
anos.
O homossexual brasileiro
é muito conservador, é uma mistura de burguês com monarquista.
Ele quer casar e ter uma relação em casa do gênero
a "mulher" faz a tarefa doméstica e o homem trabalha. Discrimina
os próprios homossexuais, preferindo transar com heterossexuais
e, politicamente, ainda está muito desorganizado, dividindo-se
e subdividindo-se em várias tendências, igualzinho aos partidos.
Quem desabafa é
o jornalista e escritor Aguinaldo Silva, editor do jornal e responsável
por mais de 90% da sua feitura. Nos bons tempos, o jornal chegou a vender
15 mil exemplares, mais que Movimento e Em Tempo, ambos jornais políticos,
número que caiu para 10 mil e, posteriormente, foi reduzido a 8
mil. Além das divergências internas e da falta de dinheiro
para se viabilizar profissionalmente, o jornal também problemas
com a distribuição, que sempre foi feita de forma artesanal,
em todo o país.
Conta Aguinaldo:
- Em matéria de
sexo e costumes, O Lampião sempre esteve à esquerda da esquerda.
Todos nos discriminavam por isso: do distribuidor aos entrevistados e à
Igreja. Por várias vezes, tentamos uma entrevista com Dom Paulo
Evaristo Arns, mas nunca conseguimos nem uma afirmativa nem uma negativa.
Simplesmente fomos ignorados.
As divergências
internas têm ingredientes dos mais diversos: ciúmes, divergências
pessoais, principalmente, discordâncias quanto à linha editorial
do jornal. Seu idealizador, João Antônio Mascarenhas, estanceiro
gaúcho, desligou-se do projeto logo nos primeiros números.
Achava que o jornal devia ser só de artigos.
O editor do jornal explica:
- Esta discussão
persistiu até o fim do jornal. O pessoal de São Paulo (Darcy
Penteado, João Silvestre Trevisan, Peter Fry) são basicamente
articulistas. O João Silvestre, por exemplo, discordava do jornal
por não considerá-lo de vanguarda. Achava que a única
publicação de vanguarda que existe no país é
um negócio chamado Barbárie, uma dissidência do jornal
anarquista Inimigos do Rei, publicada na Bahia, que vende 500 exemplares.
O Peter Fry deixou de colaborar com o jornal depois que publicamos pela
primeira vez uma foto de homem nu (número 27).
Nesse clima, o jornal
conseguiu tirar 40 edições, das quais três são
extras. O último número é o 37, com uma reportagem
que indaga: "Viado Gosta de Apanhar?".
- Desde o número
30 que estávamos tentando botar a reportagem na dianteira dos articulistas.
Fizemos trabalho sobre masturbação, prostituição,
o carnaval e a repressão homossexual em Cuba... Foi a gota díágua.
O pessoal de São Paulo discordou, quis sair e eu disse: "É
melhor ninguém sair, a gente acaba o jornal."
E assim Lampião
morreu. Foi, na opinião de Aguinaldo, "uma experiência fascinante":
- O jornal mostrava a
muitas bichas que elas não estavam sós. Nós temos
aqui montes de cartas. No interior, o jornal era esperado com ansiedade.
Infelizmente, com o tempo, o jornal começou a ser alvo de
muitas críticas por parte dos próprios homossexuais, a não
ter mais a penetração que tinha antes. Talvez porque nunca
tenhamos conseguido fazer realmente um jornal popular e profissional. Com
a crise econômica, todos os problemas se juntaram.
