
O PAPA E OS GAYS
Luiz Mott
João Paulo II coleciona alguns recordes nos quase dois mil
anos da história do Papado: moderno, foi o Sumo Pontífice
que mais vezes navegou os ares, campeão invicto em beijar o asfalto
de centenas de aeroportos nos quatro continentes. Piegas, foi o Papa que
canonizou o maior número de santos e beatos, elevando à
glória dos altares de centenas de bem-aventurados, alguns causando
polêmica, como o franquista fundador da milícia Opus Dei,
e a judia convertida em carmelita descalça. Ultra conservador
em questão de moral, o Papa pensa e ordena que todos católicos
pensem e vivam como se fôssemos camponeses polacos em sua remota
aldeia natal. Daqui a poucas décadas, nossos descendentes terão
dificuldades em entender - e perdoar! - ao atual Sumo Pontífice
por seu cruel desrespeito aos direitos humanos particularmente de um segmento
social: os homossexuais. Em toda a história recente da Igreja, João
Paulo destaca-se pela intolerância, crueldade e ignorância
como vem tratando a 10% da população do Ocidente: os gays
e lésbicas. Nem o puritano Pio XII, nem o bonaçhão
João XXIII ou o principesco Paulo VI - todos contemporâneos
da revolução sexual mundial que permitiu aos homossexuais
sair da gaveta e serem reconhecidos como cidadãos - condenaram os
"sodomitas": o Papa Polaco, secretariado pelo Inquisitor Ratzinger, a cada
ano descobre novos adjetivos para estigmatizar ainda mais a minoria mais
discriminada no Ocidente Cristão. Em 1986, na infame "Carta aos
Bispos Nort-Americanos", proíbe que sacerdotes desenvolvam qualquer
cuidado pastoralaos homossexuais católicos. Em 93, no povoCatecismo,
a homossexualidade é totulada de "intrinsecamente má". Agora,
reagindo à história do Parlamento Europeu de recomendar aos
Estados membros que permitam o casamento também a pessoas do mesmo
sexo, o Papa declara sem pejo: "o homossexualismo é uma desordem
moral", opondo-seintransigemente ao reconhecimento de que dois homens ou
duas mulheres possam cumprir a lei áurea do Cristianismo: "Amai-vos
uns aos outros".
A "homofobia" - intolerância à homossexualidade, e "misoginia"
- discriminação às mulheres - preconizadas pelo chefe
da Igreja Católica representam um atentado à razão
e à verdade, tão abominável quanto a burrice de Urbano
VIII ao impedir que Galileu divulgasse sua chocante descoberta: que a tradição
judaico-cristã estava errada ao pretender que a terra fosse o centro
do universo. Hoje, todas as Ciências - da Biologia à Antropologia,
passando pela Psicologia e Genética Humana - confirmam una voce
que absolutamente nada distingue os homossexuais dos heterossexuais. Nos
países desenvolvidos, onde as minorias sociais e a liberdade de
ulto são respeitadas, a prática vem demosntrando que gays
e lésbicas são cidadãos tão repeitáveis
e responsáveis como os celibatários ou casais de sexo oposto.
Que rotular a homossexualidade de "intrinsecamente má" é
tão obtuso como negar o heliocentrismo, e anatematizar o casamento
unissexual como "desordem moral" ou negar o direito das mulheres de exercerem
o sacerdócio, é tão iníquo e etnocêntrico
como chamar aos israelitas de "pérfidos judeus", ou obrigar os povos
tribais a abandonarem suas tradições ancestrais.
A resistência de João Paulo II em "agiornar-se" torna-o
culpado de crime de lesa humanidade: os milhões de mulheres que
morrem vítimas de abortos praticados clandestinamente; os milhares
de jovens que se contaminaram pela AIDS; a multidão de gays e lésbicas
que se suicidam, que sofrem todo tipo de discriminação e
acabam assassinados por carrascos inspirados na doutrina de que a homossexualidade
é intrinsecamente má - o sangue de todas estas vítimas
inocentes clama contra este cruel Vigário de Cristo que tudo faz
para empatar o carro da História. Galisteu estava certo, a lareja
errada. A Organização Mundial de Saúde ao recomendar
o uso do preservativo é que está certa, os Bispos errados.
A verdade está do lado do Parlamento Europeu ao abençoar
o casamento homossexual, e a Igreja Anglicana manifesta sintonia com o
genuíno espírito cristão ao ordenar sacerdotizas -
enquanto o Papa Polaco defende a rançosa intolerância inquisitional,
negando aos homossexuais um direito elementar de todo cidadão: o
respeito à própria identidade existencial. Afinal, não
foi o 'Discípulo que Jesus amava, e que na última ceia estava
gostosamente recostado no peito do Divino Mestre que ensinou: "Onde existe
amor, Deusaí está!" São Galileu, ora pro nobis. João
Paulo II, vade retro!
