
SER GAY
J. M. Wood
Qual mundo alegre é verdadeiramente alegre?
Ser gay não significa um universo de compromisso único
com a liberdade e a alegria desmedida de prazer. Este é o
compromisso do ser humano, qualquer que seja ele, para consigo mesmo e
para com o mundo gay. Ser gay não significa ser simplesmente alegre.
Ser gay significa apenas ser um indivíduo que por opção
possui seu sentimento e seu prazer compartilhado com outro indivíduo
de mesmo sexo. Loucos são aqueles que pensam que se forma um universo
particular e/ou complementar ao convencional mundo heterossexual; loucos
são aqueles que não percebem que o mundo gay é parte
integrante de um universo maior chamado sociedade. E, como parte integrante
da sociedade, o gay é um cidadão e como tal precisa lutar
por seus direitos de cidadão e, mais do que tudo, saber lutar por
tais direitos.
Sou apenas um homossexual. Talvez, até, um homossexual diferente
para aqueles que pregam que a visibilidade de ser gay situa-se em homens
mostrarem-se feminilizados e mulheres masculinizadas, corroborando toda
a caricatura da discriminação que por anos perdurou não
apenas no Brasil como também em todo o mundo. Sou apenas um homossexual
que a cada momento que passa se revolta não somente pelo fato de
ser um marginal no seio de uma sociedade heterossexual e não possuir
os mesmos direitos que os demais cidadãos deste País, mas
acima de tudo da própria discriminação existente entre
aqueles que compartilham e integram o mesmo mundo dito gay.
Talvez seja pelo simples fato deste pequenino mundo não aceitar
que ele é reflexo de todo o universo no qual se insere. O que não
se pode admitir é sofrer de nosso próprio mundo, dito gay,
preconceitos já gastos e ultrapassados, os quais gerações
inteiras de homossexuais sofreram. O direito homossexual é questão
emergente e urge ser resolvida por meio de seriedade, caso contrário,
repetir-se-á o fracasso de causas que se frustaram por não
se observar que não adianta lutar por uma minoria que se sinta marginalizada.
Tem-se que, acima e tudo, lutar pelo direito de sermos todos fruto de uma
sociedade e como tal lutarmos pelos direitos de sermos cidadãos.
Lutar para que o desenvolvimento se faça no País, entendido
este não como um conglomerado de indicadores fraudulentos que medem
um crescimento econômico, mas as condições de vida
de sua população. O mundo gay não pode ser visto apenas
como um mundo de seres mundanos, promíscuos e moralmente perturbados,
como foi encarado por grupos em muitas sociedades. O gay apenas difere
dos demais por sua preferência sexual.
O gay é um ser que trabalha para sobreviver como qualquer
outro indivíduo. Na maioria das vezes, escondendo sua realidade
por detrás de uma máscara, na elaboração de
uma personagem e, como tal, caricatural em suas mentiras e ilusões.
Cria-se em seu inconsciente uma entidade surreal, em dubiedade com seu
undo oculto e fantasmagórico. É, sou um homossexual diferente.
Percebi, com o passar dos anos, que não existe motivos para esconder-me
em mentiras e ilusões. Elaborei um personagem que morreu por existir
um algo maior: eu mesmo. Sou um profissional respeitado e consciente dos
meus deveres, sem mais esconder-me por intermédio de uma sobrenatural
abstrata máscara. Sou feliz comigo mesmo por poder ser-me o tempo
todo. E o mais importante: sem precisar colocar nas manchetes o que sou
e o que faço. Sou apenas eu, vinte e quatro horas por dia.
Mais uma vez pergunto: qual mundo alegre é verdadeiramente
alegre?
Alegria é estar bem consigo mesmo. Lutar pelo que acredita
independente de sua opção sexual ou de qualquer natureza.
Sejamos o que sejamos, sem medo de sermos nós próprios, sem
receios e temores. Basta-nos crer em nossos ideais e vivermos conscientes
de tudo o que fazemos. No entanto, nem todos os homossexuais agem desta
forma simples. Na criação de máscaras que se comportam
como seres surreais, os nossos direitos se perdem, esvaindo por não
nos permitir ser o que de fato somos.
Contudo, muitas vezes, as máscaras se multiplicam em cada
ser. E o ser gay, complexo por sua natureza, perde-se ocultando-se de si
mesmo. Ao ocultar-se, os relacionamentos passam a ser fugazes e ligeiros,
como a inovação tecnológica no século XX. E
o medo da entrega, de tentar mostrar-se para o ser que está ao seu
lado, independente de ser gay ou não, impede que a alegria de viver
torne-se a verdadeira tônica do ser humano.
Sejamos o que sejamos, mas, acima de tudo, sejamos verdadeiros com
nós mesmos. Apenas desta forma, uma forma simples e sem mentiras,
poderemos, de fato, sermos parte integrante da sociedade e garantirmos
os direitos plenos de cidadãos. O movimento homossexual como qualquer
outra forma de movimento reivindicatório, somente terá êxito
se as mudanças de conscientização partirem de dentro
de nós mesmos, aprendermos a nos aceitar e termos o ânimo
vital para lutarmos quotidianamente.
