
O DESAPARECIMENTO DA HOMOSSEXUALIDADE
Nestor Perlongher
Arquipélagos de
lentejoulas, toucados de penas iridescentes, constelações
de purpurinas transformando o rosto numa máscara a amis, toda uma
alvenaria kitsch, de uma impostada delicadeza, de uma estridência
artificiosa, desaba sob o impacto (é preciso dizê-lo) da morte.
A homossexualidade (pelo menos a homossexualidade masculina, que dela trata-se)
desaparece do cenário que não rebuscadamente armara, apaga-se
como a esfumação de um pincelinho em torno da pestana rígida,
melada. Toda uma melifluidade relaxada de lencinhose papel picado irrompe
na paz conjugal do dormitório. Toda essa parafernália de
simulações cênicas, jogadas normalmente em torno aos
trocadilhos da identidade sexual, desaba por inércia do sentido,
com estrépito, mas na verdade quase que suavemente, num desfalecimento
geral. A decadência seria romântica, não fosse tão
transparente, obcena na sua translucidez de polietileno canforado. Desvanece-se,
mas sem descer aos abismos donde supõe-se emergida graças
ao escândalo da liberação, mas desfiando-se num declínio
quase horizontal.
É preciso
esclarecer: o que desaparece não é tanto a prática
das uniões dos corpos do mesmo sexo genital, neste caso corpos masculinos
mas a festa do apogeu, o interminável festejo da emergência
à luz do dia, no que foi considerado o maior acontecimento do século
XX: a saída da homossexualidade à luz resplandecente da cena
pública, os clamores esplêndidos do - diriam na época
do Wilde - amor que não se atreve a dizer seu nome. Não somente
atreveu-se a dizê-lo, mas o tem gritado na vozearia do excesso. Acaba,
poder-se-ia dizer, a festa da orgia homossexual e, com ela, a revolução
sexual que sacudiu o Ocidente no decorrer deste acidentado século.
Esse declínio
é processo da homossexualidade contemporânea. Ela abandona
o palco com uma cena patética e desgarrada: a de sua morte. Esses
acontecimentos não podem escapar à sinistra coincidência
entre um maximum (um esplendor) de atividade sexual e a emergência
de uma doença que utiliza o contato entre os corpos para se expandir
em forma terrificante, ocupando um lugar axial na contelação
de coordenadas do nosso tempo, em parte por se registrar aí a atraente
(por ser misteriosa e ambivalente) colusão de sexo e morte.
O dispositivo social
desenvolvido em torno da irrupção da AIDS leva paradoxalmente
à sua máxima potência, a promoção planificada
da sexualidade - sendo ela tratada como um saber por um poder -, e marca
de passagem o ponto de sua inflexão e decadência. É
curioso constatar como estamos até tal extremo imbuídos dos
modernos valores da Revolução Sexual que nosso primeiro impulso
é denunciar colericamente seu refluxo. Não vemos a historicidade
dessa revolução, não conseguimos relativizar a homossexualidade
tal como ela é dada (ou era dada até agora), ensinada e transmitida
por médicos, psicólogos, pais, meios de comunicação,
amantes e amantes dos amantes - sendo essa ilusão de historicidade
intemporal incentivada por boa parte do movimento homossexual, que defende
a teoria de uma essência imutável do ser homossexual. Nossa
homossexualidade é um Sexpol, ou pelo menos se apresenta e se conduz,
apesar da homofobia de Reich, como uma de suas resultantes. Um elemento
político, um elemento sexual.
Sabemos graças
a Bataille que a sexualidade (o "erotismo dos corpos") é uma das
formas de atingir o êxtase. Bataille diferencia três formas
de dissolver a mônada individualmente e recuperar certa indistinção
originária da fusão: a orgia, o amor(o "erotismo dos coraçes"),
o sagrado. Na orgia chegava-se à dissolução dos corpos,
mas estes se restauravam rapidamente e instauravam o cúmulo do egoísmo,
o vazio que produzem na sua ginástica perversa sendo ocupado pelo
personalismo obsceno do puro corpo (corpo sem expressão, ou mulhor,
corpo que é sua própria expressão, ou pelo menos tenta...).
No sentimentalismo do amor, no entanto, a saída de si é mais
duradoura, o outro permanece tecendo uma capinha que resiste à passagem
do tempo no transporte da sublimação erótica. Mas
é só na dissolução do corpo no cósmico(ou
seja, no sagrado) que se dá êxtase total, a saída de
si definitiva.
Com a AIDS vai acontecendo,
sobretudo no campo homossexual (penso mais no caso brasileiro, muito avançado,
isto é, onde chegou-se a um grau considrável de desterritorialização
nos costumes, em outros países menos ousados esse processo de refluxo
talvez não possa ser percebido com a mesma clareza; é que
este desaparecimento da homossexualidade está sendo discreto como
uma anunciação de periferia, a muitos locais a notícia
demora a chegar, ainda não se inteiraram...), outra volta de parafuso
do próprio dispositivo de sexualidade, não no sentido da
castidade, mas no de recomendar, através do progressismo médico,
a prática de uma sexualidade limpa, sem riscos, desinfetada e transparente.
Com isto não desejo postular um desquício sexual, Deus nos
salve, após tudo o que temos passado com a premissa de nos libertar,
mas advertir sobre um processo de medicalização da vida social.
Isto não deve querer dizer (confesso que não é fácil)
estar contra os médicos, já que a medicina desempenha, no
combate contra a ameaça mórbida, um papel central.
O pânico da
AIDS radicaliza um refluxo da revolução sexual que já
vinha-se insinuando, em tendências como a minoritariamente insinuada
nos Estados Unidos, que postulavam o retorno à castidade. Na verdade,
a saturaço já vinha de antes. A saturação parece
inerente ao triunfo do movimento homossexual no Ocidente, que vem de um
processo bastante movimentado e conhecido que não é preciso
repetir aqui. Lembremos que a homossexualidade é uma criatura médica,
e tudo o que se tem escrito sobre a passagem do sodomita ao perverso, do
libertino ao homossexual. Basta ver que a homossexualidade moderna é
uma figura relativamente recente que, pode-se dizer, viveu num período
de cem anos sua glória e seu fim.
Que acontece com
a homossexualidade, se ela voltar às catacumba donde era tão
necessário resgatá-la, para que brilhasse na provocação
de sua libertinagem de lábios refulgentemente vermelhos? Ela simplesmente
vai-se diluindo na vida social, sem chamar mais a atenção
de ninguém, ou de quase ninguém. Fica como uma intriga a
mais, um sentimento nada especial, como algo que pode acontecer a qualquer
um. Não dá vontade, certamente, de festejar, afinal fopi
divertido, nem tampouco de lamentar. É que a homossexualidade não
foi por sinal uma coisa tão maravilhosa quanto seus interessados
apologistas proclamaram. Não há, em verdade, uma homossexualidade,
mas como diriam Deleuze e Guattari, mil sexos, ou pelo menos, até
bem pouco, duas grandes figuras da homossexualidade massculina no Ocidente.
Uma, a das bichas loucas geneteanas, sempre flertando com o masoquismo
e a paixão de abolição; outra, a dos gays à
moda americana de erguidos bigodinhos hirsutos, desmoronando-se na sua
condição de paradigma individualista no tédio mais
abjeto (uma substituição do matrimônio mormal que consegue
a façanha de ser mais aborrecido do que ele). Arriscar-me-ia a postular
que a reação de grande parte dos homossexuais perante campanhas
de prevenção está sendo deixar de ter relações
sexuais em geral, mais do que proceder a uma mudança radical das
antigas práticas por outras novas "seguras", ou seja, com camisinha.
A homossexualidade
esvazia-se de dentro para fora , como uma luva. Não que tenha sido
derrotada pela repressão que com tanta violência abateu-se
sobre ela (sobretudo entre as décadas de 30 e 50, e, no caso de
Cuba, ainda hoje). Não: o movimento homossexual triunfou amplamente
e está muito bem que isso tenha acontecido assim, no reconhecimento
do direito à diferença sexual, grande bandeira da briga libidinal
do nosso tempo. Mas o movimento das bichas começou a se esvaziar
quando as bichas loucas foram virando menos loucase, hirtos os buços,
a se integrarem: o dilatado enredo que fundia aos amantes do idêntico
com as mais heteróclitas, delirantes e perigosas marginalidades,
começou a rachar a medida que os veados ganharam terreno na vida
social. O episódio da AIDS é o golpe de graça, porque
muda completamente as linhas de aliança, as divisórias de
águas, as fronteiras. Há, sim, discriminação
e exclusão com relação aos doentes de AIDS, mas eles
- lembre-se - não são somente bichas, esse estigma parece
ter mais a ver com o escândalo da morte e sua proximidade numa sociedade
altamente medicalizada. Sua promoção aterroriza e serve para
acabar de limpar de vez os antigos poros tumefactos e purulentos que a
perversão sexual ocupava, nos quais ria com o riso das duas Divine
( a maricona de Nossa Senhora das Flores e a imensa travesti americana).
Aliás, com a chegada da visitante inesperada (assim se chama a última
peçade Copi), os antigos vínculos de socialidade, já
desmanchados pela quebra dos laços marginais de que falávamos,
terminam de afundar e desabar. Ocorre que com a AIDS mudam as coordenadas
de solidariedade, que deixam de ser internas ao gueto dos entendidos, como
sucedia durante a perseguição, para passar ao setor homossexual
e transbordá-lo. Assim, percebe-se que são, de um modo geral,
as mulheres (as mulheres maduras) que se solidarizam com os aidéticos,
enquanto seus colegas de salão fogem apavorados.
Toda essa promoção
pública da homossexualidade, que agora tão abundante e pesada
se afunda, não foi em vão. Ela contribui para dispersar as
concentrações paranóicas em torno da identidade sexual,
favorecendo certo modelo de androginia que não passa necessariamente
pela prática sexual. Em outros termos: as bichas foram as primeiras
a usar brinquinho; agora pode-se usar brinquinho sem deixar de ser macho,
embora ser macho já não signifique muito. Em última
instância, o desaparecimento da homossexualidade não detém
o devir mulher que o feminismo (mais um fóssil em extinção)
inaugurara; pelo contrário, o consolida e o assenta, mais do que
o radicaliza e lima suas pontiagudas arestas.
Com o desaparecimento
da homossexualidade masculina ( a feminina, é importante esclarecer,
continua em certo modo seu crescimento e extensão, mas num sentido
que parece mais de corporação de mulheres que de desquício
dionisíaco), a sexualidade em geral vai-se tornando cada vez menos
interessante. Um século de foda terminou por fartarmos. Não
é casual que a droga (ainda que sejam seus piores usos) ocupe crescentemente
o centro das atenções mundiais. Apesar de tudo ela aproxima
do êxtase e conclama a algum tipo de ritualização a
que a explosão dos corpos em libertinagem desavergonhada nunca se
propôs (embora já uma certa heroína de Sade proclamava:
"até a perversão exige certa ordem").
Abandonamos o corpo
pessoal. Trata-se agora de sair de si.
