
DA CAMA À DELEGACIA ( ou os limites da "perversão"
)
Paulo Henrique Longo
Outro dia alguém
chamou para fazer uma palestra com o sugestivo título "Sexualidade
em Grupos Marginais". Ao preparar alguns pontos que apresentaria, percebi
que título muito mais adequado é o que apresento acima, ponto
comum que caracteriza as formas marginais de expressão da sexualidade.Sim,
porque não era minha intensão descrever como se manifesta
a sexualidade nos chamados grupos marginais, não tenho conhecimento
de causa para falar das atividades sexuais dos punks, meninos de rua ou
mesmo dos traficantes dos morros cariocas. Grupos marginais, por imposição
ou opção. Preferi falar de alguns mecanismos que marginalizam
práticas, comportamentos e identidades de determinados grupos, que
em grande parte dos casos tornam-se justamente a partir de suas práticas.
Escolhi então
a prostituição (de maneira geral e mais especificamente a
prostituição masculina) e a homossexualidade, buscando compreender
estes mecanismos que as tornam sexualidades marginais. Parti do pressuposto
de que esta marginalização não se dá única
e exclusivamente pelo preconceito e discriminação que destas
práticas tomou conta, mas destes como conseqüência direta
deste processo de marginalização.
É possível
destacar que não se tratam de grupos marginais à priori,
mas que assim se tornaram em função de suas práticas
num processo de construção histórico. Este caráter
histórico é fundamental na compreensão do processo,
pois o que hoje é assim nem sempre foi assim.
Passamos então
a lembrar dos argumentos ainda usados - muitas vezes de maneira leviana
- da importância social da prostituição e da homossexualidade
nas sociedades antigas, como a grega e a romana. Em muitos momentos usa-se
esta construção histórica de maneira apológica,
às vezes com um certo exagero: diz-se que na Grécia antiga
ser homossexual era um sinal de status e que a prostituta era considerada
um ser sagrado. Muitos estudos permitem esta interpretação,
mas fato é que a abertura a estas práticas era muito maior
do que na sociedade contemporânea.
Numa rápida
passagem pelos mecanismos de marginalização destas práticas,
foi possível ver que, há pontos de união entre a prostituição
e a homossexualidade no que se usou para colocá-las como marginais.
O principal ponto é que ambas passaram a estar, após um determinado
momento, sob o mecanismo da lei e da medicina.
Basta lembrar a
Santa Inquisição. Mulheres prostitutas foram queimadas por
exercerem aquela atividade demoníaca, como o foram os homossexuais,
acusados de estarem possuídos por este ou outros demônios.
A despeito das questões religiosas, naquele momento a Igreja era
a lei. Para os que não sabem, tivemos Inquisição também
no Brasil, principalmente no Nordeste (basta ver "Devassos no Paraíso",
de João Silvério Trevisan, importante histórico da
homossexualidade no Brasil).
A lei nem sempre
precisou recorrer aos subjetivos mecanismos religiosos. A medicalização
advinha do avanço das pesquisas "científicas" colocou a sexualidade
sob o domínio médico. Epidemias de transmissão sexual,
como a sífilis, podiam facilmente ser atribuídas às
prostitutas ou aos homossexuais, seres tão "promíscuos".
Tornou-se fácil ante a alegação médica que
leis fossem criadas para o controle desta verdadeira "ameaça", leis
essas cujo cumprimento deveria estar sob a responsabilidade da polícia
(ver "Meretrizes e Doutores", de Magali Engel). Talvez nem precisássemos
retroceder tanto na história, vejam a história recente da
AIDS.
À mesma medicina
que a acusava a promíscuídade sexual como vetor principal
de doenças sexuais - como se a promíscuídade fosse
exclusiva de determinados grupos -, cria mecanismos mais ferozes, a patologização
das práticas sexuais pouco enquadradas. Assim, o Código Internacional
de Doenças até bem pouco tempo colocava a Homossexualidade
como "desvio de comportamento", a psicanálise como perversão,
prato cheio para os mais diversos tipos de condenação e exclusão.
Bom ainda lembrar
que estes mecanismos de exclusão estão permeados das mais
diversas explicações não apenas médicas e legais.
Michel Foucault mostra que os modelos econômicos também podem
servir como importante base para explicar a discriminação
e marginalização, principalmente no que concerne à
Homossexualidade. Simples: numa sociedade em que o fundamental é
produzir e consumir, a relação homossexual - por não
ser reprodutiva -, não gera novas forças para o trabalho
e para o consumo.
Obviamente não
se torna possível uma análise tão rápida e
superficial de aspectos que permeiam o tempo todo nossas vivências,
mas sempre servem alguns pontos para reflexão. O que dizer da prostituição
masculina, que une prostituição e homossexualidade na maioria
dos casos?
Esta reflexão
talvez sirva para que se considere a sexualidade dentro de um contexto
mais amplo, considerando que qualquer forma de relação está
inserida em outros contextos. Seja na cama ou na delegacia.
