
ASSUMIR-SE ? POR QUÊ ?
João Antonio Mascarenhas
Assumir-se, no caso,
significa o processo de aceitar com naturalidade a condição
de homossexual, sem alardeá-la as sem escondê-la. Isto não
se consegue nem rápidanem facilmente, mas, em geral, a duras penas,
depois de angústias e frustações. Valerá o
esforço? Creio que sim. Não pretendo enumerar todos os motivos,
mas alguns deles:
1o. - sentimo-nos desobrigados de fingir, livrando-nos do peso da mentira
e da tensão provocada pelo terror de sermos descobertos;
2o. - dispensarmo-nos da hipocrísia, de participar do jogo dos outros,
do eu-faço-que-escondo-e-você-faz-que-não-vê;
via de regra as pessoas simulam ignorar o homossexualismo dos queas rodeiam
para, assim, mantê-los sob domínio, para que eles conheçam
seus lugares, não se manifestem, sigam as regras, curvem-se calados,
gratos, até, pelo bom tratamento.
3o. - impedir a ocorrência de chantagem por parte de indivíduos
com quem mantivemos relações sexuais; de repórteres
sensacionalistas da imprensa marrom; de companheiros de serviço,
enfim, de todo o círculo de criaturas com quem convivemos, até
mesmo do círculo familiar, onde às vezes um outro tipo de
chantagem ocorre, a chantagem afetiva - talvez a mais terrível de
todas - que, surda, implacável, prenhe de ameaças, traumatiza
tanta gente;
4o. - fazer com que fiquemos a salvo da necessidade de subornar certos
policiais inescrupulosos, que fingem desconhecer que homossexualismo não
é punível na legislação brasileira e procuram
submeter-nos a todos os vexames sob ameaça de uma acusação
qualquer;
5o. - saber que neutralizamos os nossos opressores machistas, porque os
privamos de utilizar a única arma de que dispunham contra nós:
a ameaça de descobrir-nos, quando impossibilidade de acusar-nos
de qualquer deslize, utilizavam-se desse recurso para manter-nos amedrontados;
obviamente essa gente nada pode fazer contra m homossexual assumido;
6o. - dar, pelo nosso exemplo, apoio aos homossexuais desejosos de assumirem-se,
mas com receio de fazê-lo. Infelizmente, não raro, jovens
se suicidam porque não suportam o estigma imposto pela sociedade;
7o. - também pela nossa atitude, ajudar os familiares que se indignam
quando percebem o homossexualismo de um parente a questionarem a validade
da posição de repúdio por eles adotada e a auxiliá-los
a darem-se conta dos preconceitos de que são portadores; na medida
em que mais e mais homossexuais assumidos impuserem-se pela qualidade do
trabalho, na indústria, comércio, política e outras
atividades, haverá maior aceitação por parte dos heterossexuais.
O processo já se acha em andamento, não aumentará
o número de homosexuais, mas provocará uma progressiva queda
de máscaras;
8o. - sentir que estamos batalhando para a construção de
um mundo melhor, onde os direitos humanos e os das minorias sejam respeitados,
pois o assumir-se constitui um ato essencialmente político, através
do qual o indivíduo reconhece-se como integrante de um grupo oprimido,
primeiro e indispensável passo para lutar contra a opressão.
Evidentemente, quem teme defender-se, pelo receio de identificar-se, não
se encontra preparado para fazer se respeitar.
Relacionei certas
razões de ordem individual, social e política que me levam
a considerar convenientemente o ato de assumir-se. Como decorrência
das mesmas, posso enumerar ainda outras, tais como:
9o. - maior auto-respeito, pela ausência de sentimento de culpa;
10o. - aumento de segurança, por nos vermos livres de tensões
e angústias;
11o. - melhor relacionamento com nossos parentes e amigos, pela maior franqueza;
12o. - possibilidade de plena realização pessoal e profissional,
pelo conjunto de condições acima.
Estas, a meu ver,
algumas das vantagens. Entretanto nem tudo são flores. Há,
de outro lado, muitos e graves inconvenientes. Os opressores machistas
não se resignam de bom grado à perda de um trunfo.
Em várias
situações, a fúria punitiva é tal que somente
cada um de nós, individualmente, acha-se habilitado a decidir quando
e como poderá arcar com as consequências de uma ostensiva
rejeição dos preconceitos dominantes. Apesar de absurdo,
o homossexual assumido sujeita-se ao risco de perda de emprego ou de arruinar
a carreira profissional e, além disso, de alienar i afeto de criaturas
que lhe são caras.
Impossível
ressaltar a capital importância dos dois primeiros pontos. O terceiro
porém parece-me irrelevante. Em meu entender, não merecem
nosso apreço as pessoas que condicionam a amizade ao uso que damos
à nossa genitália, salvo-é óbvio-as que vão
para a cama conosco, pois para elas - e só para elas - o desempenho
de um papel sexual determinado realmente significa muito.
Este, aliás,
parece ser o pensamento do escritor norte-amerciano Truman Capote, reconhecidamente
guei. Após pronunciar conferência em universidade do E.U.A.,
durante os debates que se seguiram, um estudante perguntou-lhe: Are You
gay? ("Você é homossexual?") e teve como resposta: Are you
proposing me? ("Você está me dando uma cantada?").
