NEGROS, MULHERES, HOMOSSEXUAIS E ÍNDIOS NOS DEBATES DA USP

FELICIDADE TAMBÉM DEVE SER AMPLA E IRRESTRITA

Eduardo Dantas

 
 
O pessoal da universidade de São Paulo foi quem quis: organizaram uma semana de minorias e tiveram que suportar, em seu auditório, uma multidão de negros, mulheres e homossexuais a apregoar que a felicidade também deve ser ampla e irrestrita (os índios, infelizmente, ausentes, foram representados pelos seus procuradores habituais - os antropólogos da boa escola). LAMPIÃO esteve lá todos os dias, conferiu e atesta: as "minorias" não estão mais a fim de continuar sendo o último vagão desse enorme comboio denominado "luta maior".
A oportunidade era boa demais para ser desperdiçada. Os estudantes da USP queriam saber o que os homossexuais, como grupo minoritário e discriminado, estavam fazendo para sua emancipação. E assim, durante três horas, cerca de 300 pessoas debateram o assunto com seis componentes da mesa: João Silvério Trevisan e Darcy Penteado, representando Lampião da Esquina; três integrantes do grupo Somos, provavelmente a primeira tentativa de organização dos homossexuais de São Paulo em torno de seus objetivos comuns; e ainda o poeta homossexual-proletário Roberto Piva, autor de diverso livros.
Esta reunião foi uma série de surpresas para todo mundo; para os homossexuais, houve a novidade do convite à participação na discussão o que talvez torne esta data de 08 de fevereiro histórica. Afinal, não se tem lembrança de um debate tão livre e polêmico sobre um assunto que as autoridades policiais e grande parte da sociedade brasileira ainda consideram tabu. Depois, teve o choque do plenário e até de integrantes de outros grupos minoritários convidados (negros, mulheres e índios) que nunca tinham ouvido falar dessa nova militância guei e perguntavam-se perplexos como podiam estar desinformados a respeito e os objetivos de tudo isso.
O mais surpreendente, porém, foi a intensidade do debate (a maior parte do tempo a mesa expositora foi simplesmente ignorada, sendo discussão direcionada pelo pessoal do plenário, homossexuais ou não) e a confirmação de que os pontos de vista já levantados por Lampião e o grupo Somos sobre o posicionamento político do problema homossexual estão muito mais difundidos do que se pensa. Logo no início da discussão, quando já se tentava enquadar o movimento guei na ótica da esquerda, alguém no plenário tomou a palavra e disse: "Eu vou dizer agora o que metade desse auditório está sequiosa para ouvir. Vocês querem saber se o movimento guei é de esquerda, de direita ou de centro não é? Pois fiquem sabendo que os homossexuais estão conscientes de que para a direita constituem um atentado à moral e à estabilidade da família, base da sociedade. Para os esquerdistas, somos um resultado da decadência burguesa. Na verdade, o objetivo do movimento guei é a busca da felicidade e por isso é claro que nós vamos lutar pelas liberdades democráticas. Mas isso sem um engajamento específico, um alinhamento automático com grupos da chamada vanguarda."
A partir daí a discussão incendiou-se, mesmo porque, durante a apresentação do grupo Somos um de seus integrantes, Alfredo, havia afirmado que a repressão aos homossexuais existe tanto nas ditaduras de direita como nas democracias européias, enquanto nos países de regime socialista as poucas informações que existem a respeito mostram que o quadro não é muito diferente. A opinião foi calorosamente contestada pelo poeta Roberto Piva, para quem não existe repressão nos países do bloco socialista: "Em Cuba, em Moçambique, nas nações do Leste Europeu existe a maior liberdade sexual. O que acontece é que esses elementos homossexuais não conseguem ascensão na hierarquia do partido, o que é até bom porque assim eles não se tornam uns burocratas."
As diversas tendências do movimento estudantil da USP também fizeram questão de lavar um pouco a roupa suja, resolvendo em público as diferenças que dividem Caminhando, Refazendo e Liberdade e Luta. Um deles, fazendo questão de ressaltar sua não-homossexualidade (embora após a reunião tivesse procurado esse repórter para queixar-se de que outros estudantes dizem que  ele "não dá porque é um cara reprimido") exaltou-se quando suas opiniões sobre a moral do homem novo que vai surgir após a revolução proletária foram contestadas e desabafou: "Se não for para a gente caminhar juntos, então eu quero que os homossexuais vão a p.q.p." Vaias, apupos e xingos seguiram a observação. O auditório quase veio abaixo.
O preconceito que se manifesta na esquerda ficou demonstrado pelo depoimento de uma estudante, que informou ao plenário sobre a existência de um trabalho preparado pela Escola de Comunicação e Artes da USP (a famosa ECA), intitulado "A ausência do homossexualismo na classe proletária" A piada foi recebida com o que se esperava: muitos risos. E outra estudante foi ainda mais clara: "Nós precisamos acabar com essa palhaçada. Enquanto a esquerda se divide, a direita se fortalece. O importante é a liberdade, que inclui o direito de cada um ir para a cama com quem quiser. E eu quero trazer a denúncia de que as vanguardas (malditas sejam!) fazem o maior patrulhamento sexual na faculdade de Filosofia da USP."
Ma quem verdadeiramente roubou o espetáculo foi aquele rapaz do começo (um dos muitos homossexuais que compunham o plenário, desconhecido para a maioria do pessoal), tomando a palavra por diversas vezes, criando polêmicas e definindo claramente suas posições: "Não adianta querer envolver a nossa problemática em termos de política. Trata-se de um problema específico, que atinge a um determinado número de pessoas de características diferenciadas. Eu, particularmente, acho que é muito mais válido mostrar para aquele pessoal pintoso, as bonecas da zona boêmia, a sua condição de homossexual, a opressão que os atinge diretamente, do que chegar até eles com papos culturais e politizados sobre movimentos de emancipação do proletariado. É lógico que muitos homossexuais já têm uma posição política definida, e já devem estar engajados nessa luta mais ampla. Ma acredito que, nesse momento, a ação política mais conseqüente é mostrar à imensa maioria dos homossexuais o estado de alienação em que eles estão, e mostrar isso como um igual. Nunca como um intelectualzinho com o rabo cheio de cultura, mas como um ser com o mesmo tipo de problema e necessidade de liberdade".
Ele também foi autor de conceitos que poderiam ser tranqüilamente encaixados em qualquer tratado de filosofia guei, tais como: "O problema de qualquer revolução é saber quem vai lavar a louça depois:; e sobre a visão moralista da religião: "A Igreja também precisa acabar com esse negócio de ficar jogando água benta no ..*.. dos homossexuais".
De uma forma geral os resultados dessa reunião foram aceitos imediatamente, como verdade incontestável. Ninguém duvidou dessas colocações, o que prova que setores importantes da sociedade já estão conscientizados a respeito. Depois, pela descoberta dos homossexuais de que já há um grupo onde eles podem trabalhar e organizar-se - o grupo Somos, que saiu praticamente da casca com essa primeira oportunidade de vir à luz.
Na apresentação do histórico da existência desse grupo, Emanuel, um dos seus integrantes que fez parte da mesa, explicou o que tem sido feito em praticamente um ano de atividade, e as possibilidades que se abrem em termos de uma atuação cada vez mais profunda junto aos homossexuais, principalmente agora que um número maior de pessoas interessadas está procurando participar. Somos é formado por seis subgrupos, com atribuições específicas, e espera-se que em médio prazo consiga solucionar alguns de seus problemas básicos, como a ausência de mulheres e negros em seus quadros. Na opinião de Emanuel, isso é mais uma prova da situação de opressão, pois a barra realmente pesa muito mais para as mulheres e negros homossexuais, discriminados também por características biológicas e de cor de pele.
Apesar das contradições levantadas durante o debate - houve até gente dizendo que as bichas têm preconceito contra os esquerdistas, que também são uma maioria discriminada (sic) - a conclusão geral foi de que a marcha pela liberdade - social, racial, sexual - é uma só. Cada grupo minoritário deverá unir-se, organizar-se com seus integrantes, lutando por uma democracia de fato no Brasil. Só assim se conseguirá a tal felicidade, ampla e irrestrita, para todos.