
CIDADANIA E SEXUALIDADE
Cristina Câmara
No início
da discussões em torno da epidemia causada pelo HIV, foi dito várias
vezes que o "movimento homossexual" existente, no Brasil, teria acabado.
Argumentava-se que as pessoas com práticas homossexuais, de certa
forma, teriam voltado à clandestinidade, devido as associações
diretas entre a orientação homossexual e a AIDS. Esta aproximação
teria gerado um refluxo no "movimento homossexual", o que é real
em termos.
A existência
dos grupos homossexuais não pode ser reduzida às questões
externas, que inegavelmente os influenciam. Alguns grupos homossexuais
se envolveram com a prevenção ao HIV e AIDS, outros não
tiveram a questão como prioritária, na sua dinâmica
interna. Nesta "divisão" de prioridades, com relação
à problemática da AIDS, é nítida a distinção
entre a luta com relação às políticas públicas
voltadas para a epidemia do HIV e AIDS e a luta pelos direitos civis dos
homossexuais. Se, por um lado, esta distinção aparece claramente,
por outro, os dois caminhos se interpõem.
Um lado importante,
nesta conjuntura, que tem pouco ou nada abordado, é o fato da epidemia
causada pelo HIV ter possibilitado, uma crescente mobilização
das pessoas com orientação homossexual - nos grupos especificamente
voltados para a militância homossexual ou em quaisquer outros. As
discussões referentes à AIDS, contribuíram para que
a orientação sexual surgisse como um dado a ser considerado.
A epidemia causada
pelo HIV fez com que os homens com orientação homossexual,
além de se envolverem com o trabalho de educação e
prevenção ao HIV e AIDS, através das Organizações
Não Governamentais - ONGs/AIDS, também se preocupassem em
repensar os lugares que vêm ocupando na sociedade civil. A problemática
da AIDS suscitou discussões sobre a cidadania e, consequentemente,
a evidêcia da inexistência dos direitos civis - no que diz
respeito a soroprevalência e a orientação sexual.
Após dez
anos da epidemia da AIDS, no Brasil, é insuficientemente afirmar
que houve retrocessos e, acreditar, tão somente, em uma nova medicalização
da orientação sexual, é desconsiderar as inovações
geradas pelas articulações políticas.
Ao contrário,
é permanente a necessidade de demonstração das respostas
práticas e das reflexões geradas ao longo destes dez anos.
A participação ativa, dos homensco orientação
homossexual, no encaminhamento das propostas que vêm norteando os
trabalhos de educação e prevenção ao HIV e
AIDS, é um fato. No entanto, a reflexão a respeito deve,
ainda, conclamar uma avaliação crítica para evitar
a exaltação de um grupo específico e, consequentemente,
a exclusão de outros. O que geraria uma reprodução
irrefletida.
Refletir politicamente
sobre a vivência com HIV e AIDS pode possibilitar correlações
entre as questões levantadas sobre a sexualidade e as referentes
à cidadania, ambas construídas nas relações
sociais cotidianas. A conjuntura atual coloca estas, dentre outras questões,
em ebulição. Talvez, po isto, haja atualmente uma proliferação
de ensaios, livros, teses acadêmicasque problematizam questões
referentes à orientação homossexual - independente
de trabalharem com esta categoria e dos mais diversos caminhos teóricos
seguidos. Estes trabalhos evidenciam a problemática e exigem o resgate
de uma memória até então esquecida, montam um quebra-cabeça
fundamental para subsidiar as discussões em torno da epidemia da
AIDS, evitando que sejam repetidos erros passados.
