
LÉSBICAS: AMOR E ÓDIO
Marinês
Apesar da lésbica
ser alguém que tem a chance de repensar seu corpo e suas relações
com o mundo, e que, portanto, deveria ter, em tese, a autonomia de sua
opção, todos a chamam de "maldita". Inclusive a própria
lésbica. Esta "maldição" obriga a mulher homossexual
à infelicidade e, tantas vezes, determina adoção
de comportamento dúbio visando a sobrevivência dentro dos
padrões ideológicos da sociedade. E por quê? Porque
a lésbica, por optar pelo amor a outra, repensa sua sexualidade
e modifica seu "estatuto de mulher" perante os demais. Modifica-o, libertando-se
em teoria, da sexualidade "normal", que lhe exige a maternidade como prova
óbvia do "feminino" que encontra o "masculino" para se "complementar".
Ao negar esta aliança com o homem, a lésbica estaria rejeitando
e questionando as estruturas sociais vigentes, uma vez que em sociedade
somente dois sexos são reconhecidos. O que é de todo conveniente
para a ideologia, é lógico. O sexo alternativo é perigoso
para o equilibrio ideológico do sistema. Por isso a lésbica
é perigosa. Politicamente incorreta. E está invisível
nas estatísticas, independentemente de sua classe social, formação,
opção política. Esta é a visão da sociedade,
da qual não participa o cotidiano da lésbica. Senão,
vejamos:
Rejeitando a sexualidadedita "normal", ela não pode fazer parte
de uma ideologia que treina culturalmente a mulher para um "modelo" onde
o viril só tem complemento no feminino, na maternidade, na vida
em "família".
Por outro lado,
e agora falando da prática cotidiana, é muitas vezes nítida
a rejeição da lésbica por outra. Rejeitando em outra
lésbica aquilo que sofre da própria sociedade, a homossexual
feminina desenvolve frequentemente mecanismos que impedem a convivência
e a aliança entre amigas com a mesma opção sexual
e até mesmo com a sua bagagem afetiva. Esta mal conhecida relação
de amor e ódio entre lésbicas prevalece, amiúde, no
cotidiano de muitas. Está inaugurado, no "modus vivendi" da lésbica,
muitas vezes sem percebê-lo, o modelo patriarcal que a lésbica
rejeitou quando, ao repensar seu corpo, optou por amar outra mulher. Muitas
vezes inconsientemente, aspira torna-se um homem e faz espelho do modelo
"hetero" (onde o ponto fundamental é a "superioridade" masculina
sobreposta e oposta ao etéreo modelo "feminino") como base para
seu próprio relacionamento.
A partir disso é
praticamente impossível uma lésbica expressar livremente
sua sexualidade perante a parceira e seu núcleo de convivência,
a não ser copiando "modelos" heterossexuais. Adicionando à
sua própria arquitetura corporal o modelo hetero, muitas lésbicas
negam sua opção sexual e se iludem ao optar pela cópia
do modelo que rejeita em tese: aliena sua própria sexualidade que
somente é expressa a partir daquele modelo de amor e ódio.
Impede a aliança entre as lésbicas-amigas e as lésbicas-amantes,
porque recalca sua própria homossexualidade ao buscar o modelo "hetero"
como o único viável para se expressar.
Assim ao mesmo tempo
em que a lésbica opta na teoria por questionar o único modelo
viável para sua biologia e ecologia de mulher, adota na prática
este mesmo modelo para se expressar. Ainda que seja o tabu dos tabus, no
momento em que propõe para si mesma o inverso do que o sistema lhe
requer, nem sempre a troca de prazer com outra mulher flui porque
há pouco espaço para definir trocas verdadeiras num modelo
"hetero" que não tem cabimento numa relação entre
mulheres.
E por que a lésbica
abre mão de sua própria criatividade e ecologia e simplesmente
copia modelos "hetero" para sua convivêcia? A resposta, com certeza,
não é única. Entretanto, uma delastalvez esteja no
fato de que a ideologia cultural sempre enalteceu o sexo masculino. Se
este modelo recalca a mulher "normal", imagine a lésbica que está
igualmente imersa no modo patriarcal em que viernos. Ou seja, lésbica
se priva de seu próprio corpo ao imitar um homempara viver sua opção
sexual no dia-a-dia. (Conheço lésbicas que não admitem
ter vagina, menstruação, seios, et caterva). E se proíbe
de viver plenamente sua afetividade no momento em que abre mão da
originalidade incontestável da relação entre mulheres
e copia um modelo falido, neurótico e concorrencial como é
o do heterossexualismo nos moldes tradicionais.
Não há
dúvida de que as lésbicas optam por um modelo originalíssimo
de relacionar-se quado deixam de copiar modelos falidos. Não se
contesta a diferença radical entre a homossexualidade masculina
e a feminina e até mesmo no que se refere à masturbação
entre duas pessoas. É, no, entanto, exatamente por causa desta especificidade
que a lésbica representa, que o sistema procura rebaixá-la
e reduzir esta relação à invisibilidade plena e total.
Quero dizer, a lésbica que se identifica com o modelo "hetero" para
viver sua opção sexual, despersonaliza sua condição
originalíssima de relacionar-se. Deixa imperdoavelmente de reconhecer
sua condição feminina. Nela e na outra rejeita a atração
enquanto mulher, mesmo sendo uma mulher que deseja outra mulher. Com isso,
passa a viver de sentimento de culpa e de repressão, espelhos da
sociedade onde está inserida. Põe de lado as chances de viver
diante dalivre escolha de sua opção sexual com originalidade
e liberdade. Aqui está a visão que a própria lésbica
constrói de si, como sendo "maldita".
Desse modo a lésbica
passa a representar a sua própria marginalidade quando encarna uma
vivência que lhe proíbe a livre busca do prazer com outra
mulher. Fixada a um modelo que lhe proíbe o enriquecimento de sua
criatividade sexual, a lésbica diminui seu próprio prazer
em ser lésbica. Fortifica tabus ancestrais da sociedade, mesmo sabendo
que sua relação com outra mulher poderia vir a ser originalíssima,
diferente e rica. No momento em que "impõe" uma relação
que se alterna entre o amor e o ódio da companheira e das amigas,
a lésbica confirma desconhecer sua opção de vida,
sua percepção sexual e empobrece o relacionamento.
Ao contrário
do que toda a mídia propõe, a lésbica autêntica
não almeja ser um homem. Há, no entanto, aquelas que, talvez
inconscientemente, atribuam ao homem uma "superioridade" e constroem seus
modelos de vida a partir desta pretensa (e ilógica) "superioridade".
No entanto, o "grande perigo" que as lésbicas representam para a
sociedade é justamente porque prescindem do homem para atingir
o prazer e para construir sua própria vida. Na ecologia da lésbica
está presente o prazer de sentir de várias maneiras, diferentemente
do homem que somente acha prazer no ato sexual. E há mais: a certeza
de atingir pleno para ambas é muito mais frequente entre as lésbicas.
Ou seja, o prazer da mulher independe da existência do pênis.
Aliás, esta constatação é válida para
todas as mulheres, e não somente para as lésbicas.
A hipocrisia da
sociedade chega ao ridículo: no século do controle de natalidade
as lésbicas são marginalizadas porque não procriam.
E porque são francas no momento em que recusam a presença
masculina omo sendo a única forma de obter e dar prazer, são
rejeitadas. Quando dizem que o prazer de qualquer mulher não passa
necessariamente pela presença do pênis, são vistas
como um perigo, uma doença, uma ameaça.
Entretanto, e podendo
prescindir do modelo masculino, muitas vezes se adota, entre lésbicas,
este mesmo modelo. É preciso recusar a condição de
objeto. E recriar a sua semelhança na semelhança de sua parceira.
Igualar. Inovar. Tudo iso é o embasamento para a recusa aos
eternos hábitos masculinos. Transformar a neurose do amor &
ódio em relação de igualdade, sem maldições
fatais. Reinventar a emoção. Equilibrá-la à
flor da pele. Seria um bom começo.
