
HOMOSSEXUALIDADE: UM-AMOR-QUE-NÃO-DIZ-SEU-NOME
Jacqueline Muniz
A promessa de transpor
para uma realidade discursiva tudo aquilo que incide sobre os mais obscuros
lugares da experiência humana faz do nõa dito algo, senão
indesejável, ao menos incomôdp à nossa disposição
de tornar as coisas, mais que classificadas, bem ditas. Ardiloso, o indizível
se constitui num interlocutorimprevisível e ameaçador. Ausente
de uma sistematização satisfatória, isso que estamos
chamando de o não-dito do sexo é um território da
linguagem cuja perversão parece ser a dele se propor surpreender
aprópria linguagem, visto que sua forma privilegiada de diálogo
é, exatamente, a administração do silêncio num
universo que se quer falado. Sua aparente afasia obriga o intelectora não
poupar esforços na empresa de perseguir um modo de codificá-lo
plenamente.
É dessa maneira
que a homossexualidade feminina se põe no mundo. Como uma região
incógnita, uma espécie de caixa de surpresas que suspeita
do discurso que veicula, o amor entre mulheres é capaz de disseminar
perplexidade, seja quando parece optar pelo seu ruidoso silêncio,
seja quando autoriza alguma tradução. Em ambos os casos,
esse amor-que-não-ousa-dizer-o-nome aparece como alguma coisa que
ininteligível, não encontra correspondência na gramática
sexual abrangente. Filha bastarda de uma sexualidade pouco afinada à
sua voz, a homossexualidade feminina figura como subterrânea e por
vezes inexistente aos olhos do mundo e de si mesma. Tudo se passa como
se o amor entre mulheres fosse projetado para fora da linguagem. É
como se a homossexualidade feminina recebesse a missão de ornar
presente o non-sense, já que sua pretensa exclusão do universo
falado a caracteriza como impensável, do mesmo modo que a tentativa
de traduzí-la faz aparecer aquilo que nela resiste à classificação.
Todo esse incômodo
em relação ao homoerotismo feminino pode ser percebido através
de uma economia do silêncio e da invisibilidade provinda de longa
data. No antigo Testamento, mais precisamente no capítulo XVIII
do terceiro livro de Moisés, chamado Levítico, aparecem significativas
considerações acerca dos "casamentos ilícitos" e das
"uniões abdomináveis". Entretanto, nesta ampla lista de advertências
não consta qualquer referência ao homoerotismo feminino.
Mas, o silêncio
que parece emudecer a homossexualidade feminina não se restringiu
às escrituras bíblicas. Até o temível Tribunal
do Santo Ofício Português fez "vista grossa" ao lesbianismo.
Tamanha complacência adquiriu o status de lei a partir de 22 de março
de 1646, quando o Conselho Geral da Inquisição de Lisboa,
num ato surpreendente, decidiu ignorar a prática sexual entre mulheres.
Conforme esclarece
Mott (1987), antes mesmo do Santo Ofício formalizar esta postura
de tolerância, ou melhor, de desconfiança acerca da possibilidade
deste tipo de pecado existir, já se podia detectar uma expressiva
descrença em relação ao homoerotismo feminino. Segundo
o historiador, "raríssimos são os processos de mulheres-sodomitas
existentes na Torre do Tombo, não havendo registro de nenhuma lésbica
lusitana que tenha sido queimada pelos tribunais religiosos".
O período
vitoriano, famoso por seu policiamento aos bons costumes, também
não debruçou sua ira sobre a homossexualidade feminina. A
rainha Vitória, através de uma lei sancionada em 1885, condenou
somente às práticas sodomitas entre os homens, negando incluir
punição contra o sexo entre mulheres por não acreditar
na viabilidade desse invisível amor.
A mesma ambiência
de segredo e invisibilidade também é constatável no
fluxo da vida diária. Ainda que o amor entre mulheres suscite comentários
e refexões provindos das "bocas pequenas" e dos "buchichos" que
animam o nosso dia a dia, não se pode negar que suas visitas à
linguagem se revestem de recato e discrição. Ora, frequentemente,
a homossexualidade feminina é interpretada como alguma coisa sigilosa
ou mesmo invisível. Principalmente quando contrastada com a reconhecida
visibilidade do universo homossexual masculino. A própria caricatura
do "sapatão", apesar de bastante popular, possui menor publicidade
que as clássicas figuras do "veado", da "bicha" e do "travesti".
Nas anedotas, ditados e provérbios, assim como nos trabalhos científicos,
se observa mais uma vez um tímido registro do lesbianismo. Também
no circuito gay a presença de mulheres é menos significativa,
e são poucos os locais cuja frequência é marcadamente
feminina. A propósito desta suposta invisibilidade vale ressaltar
que, quando realizamos uma pesquisa no "mercado homossexual carioca", constatamos
não só a ausência de espaços abertos dedicados
à "pegação" entre mulheres, bem como a inexistência
de "casas de chá" e similares especializados no atendimento à
clientela feminina.
De fato, é
bastante curioso notar que tudo aquilo que se põe ou se quer silencioso
motiva as mais controvertidas apreensões, num mundo preocupado em
não só classificar mas também em transformar essas
mesmas classificações em denúncias. É por isto
que podemos afirmar que esta aura de silêncio e invisibilidade que
recobre o amor de uma ação repressiva contra as famosas perversões.
Ao contrário, parece mais apropriado dizer que tal mistério
é, fundamentalmente, uma espécie de dispositivo por meio
do qual o lesbianismo demonstra a sua forma de atuação na
liguagem. Em uma frase, esta suposta inexistência que intriga e em
muito obscurece, faz parte do próprio discurso homossexual feminino.
Não é demais recordar que, conforme esclarecemos noutro lugar,
essa modalidade discursiva se pretende indizível, isto é,
ela é uma narrativa que, mesmo falada, insiste em se colocar como
não-dita. E mais, este tipo de estratégia pode ser observada
nas atuações propriamente sociológicas deste discurso:
a positivação da clandestinidade, a administração
do segredo na construção da carreira homossexual e a maximização
do uso de uma linguagem não-verbal, tanto no ato da paquera como
em todo o precesso de identificação, emprestam ao amor entre
mulheres uma configuração pouco diretas e mais implícita.
É
evidente que a problemática do silêncio não se esgota
no que acabamos de apresentar. O discurso da homossexualidade feminina
é uma peça da linguagem que se agencia à revelia de
ser ou não ouvida. Simulando a própria inexistência,
essa forma discursiva reitera sua notabilidade e mais uma vez abre lugar
para indagações: o amor entre mulheres é um tipo de
discurso que convoca seus interlocutores a tentarem preenher a ausência
provocada pela sua estratégica mudez. Ora, isto é o mesmo
que dizer que o discurso homossexual feminino, por meio da invisibilidade,
faz brotar uma profusão de vozes engajadas na tarefa de desvendar
o seu mistério. É, portanto, através daquilo que parece
emudecê-lo que o lesbianismo torna audível sua fala. Se assim
é, o seu silêncio constrói uma narrativa.
Na verdade, sobre a homoerotismo
feminino a primeiracoisa que vem à tona é a imagem de algo
secreto, duvidoso e pouco compreensível. Há uma espécie
de consenso geral que desacredita e questiona a viabilidade deste tipo
de vivência. Isto se confirma numa tese muito divulgada tanto nos
meios acadêmicos quanto no senso comum. Segundo tal proposição
"se a homossexualidade feminina existe, ela parece em menor número
porque é menos frequente e mais improvável que a masculina".
É claro que
este modo de argumentar, tão ao gosto do nosso imaginário
social, ganhou as ruas e também as salas de discussão. E
isto a tal ponto que suas proposições foram revestidas de
um suposto aval empírico, muitas vezes ancorado na "objetividade"
creditada às leituras estatísticas. Não foram poucas
as produções que por meio de tabelas e gráficos apostavam
na veracidade dessa forma de explicação. Impunha-se como
necessário emprestar concretude a um tipo de universo cuja própria
existência parecia duvidosa e impalpável.
Todavia se, por
um lado, este bem intencionado esforço não esclareceu a natureza
da realidade homossexual feminina, por outro lado, ele acabou por ser capturado
pela mecânica do silêncio que estrutura este mesmo universo,
na medida em que nele se observa mais uma tentativa de tornar visível
um tipo de discurso que, a princípio, se faz indizível.
No que se refere
à problemática do silêncio, talvez seja importante
acrescentar que se, num plano cognitivo, tentar substituí-lo por
qualquer confissão implica na busca de um modo de conferir alguma
inteligibilidade a um domínio percebido como insondável,
ou mesmo irredutível, num corte sociológico, este procedimento
equivale à tentativa de fazer com que aquelas vivências que
discursam pela afasia venham forçosamente a público reconhecer
sua unidade de grupo.
Lembro-me aqui de um episódio
interessante, ocorrido em julho de 1988, bastante ilustrativo no que se
refere ao incômodo provocado por esta indiferente invisibilidade,
típica do amor entre mulheres. Em virtude dos cortes realizados
em algumas cenas que enfocavam a rotina de um casal homossexual feminino,
na então "novela das oito" (VALE TUDO), a imprensa trouxe à
opinião pública um festival de questões sobre o tema.
O mais curioso é que neste debate os interlocutores se encontravam
não só surpreendidos com a postura da censura vigente, como
também assustados com o fato de que a maior emissora de televisão
do país apresentava em seu horário nobre flashes de lesbianismo.
O debate passeou
pelos lares e não foram poucas as considerações tecidas
acerca do polêmico assunto. Os que de alguma forma repudiavam o papel
da censura, deixavam transparecer em suas argumentações que
os cortes eram dispensáveis uma vez que, muito discreta, a relação
entre mulheres passaria desapercebida aos olhos da maioria dos desavisados.
Já aqueles que corroboravam a intervenção, advogavam
que essa mesma aparência de sutileza e mistério poderia aguçar
a curiosidade das jovens sobre o tema em questão.
De qualquer modo,
todas as posições envolvidas na rentosa polêmica foram
unânimes ao deixar transparecer em suas argumentações
a preocupação em saber "se o lesbianismo estava aumentando,
dado o seu súbito destaque nos meio de comunicação".
A propósito deste pitoresco episódio convém elucidar
que, para além do que as especulações e assertivas
produzidas procuravam anunciar, pudemos constatar uma espécie de
espanto diante de um discurso que produz ressonância, seja quando
parece repousar no seu intrigante silêncio, seja quando tonaliza
sua voz.
De fato, acontece com o silêncio
algo de bastante paradoxal. Sua mecânica, ao invés de inviabilzar
a fala (procedimento por demais afim a uma leitura conspiratória
da vida social), motiva a multiplicação de instâncias
discursivas exclusivamente ocupadas na busca de interpretar esse mesmo
silêncio de um modo eficiente. Para tanto basta acompanharmos a própria
hipótese repressiva quando procura esclarecer o invisível
amor entre mulheres.
Esta perspectiva
parte de uma premissa simples e muito popular, a saber, a idéia
de que pertencemos a uma civilização de tradição
patriarcal, responsável pela posição secundária
ocupada pela mulher face às instâncias decisórias.
Aqui, a invisibilidade do lesbianismo é interpretada como derivada
de um processo mais amplo - o monopólio do sexo sobre as produções
históricas, políticas, econômicas e culturais.
Merece nossa atenção
o fato de que tal proposição pretende apresentar um tipo
de explicação que transcenda a especialidade da homossexualidade
feminina. Isto porque ela promete esclarecer a problemática que
cerca o universo feminino na sua generalidade. Resulta daí que,
na hipótese repressiva, tudo que esteja de alguma maneira referido
como que encoberto por uma densa nuvem de silêncio em função
do lugar subordinado dispensado ao gênero feminino.
Esta posição
é também compartilhada pela militância lésbico-feminista,
que reivindica um lugar para o amor entre mulheres que não seja
contaminado pelos padres instituídos pela falocracia ocidental.
Assim, seja nos mais moderados manifestos ou naqueles que, claramente ufanistas,
entoam as virtudes do amor entre mulheres, podemos localizar a preocupação
em exorcizar o fantasma de uma subordinação feminina.
A respeito da perspectiva
assumida pela ótica repressiva havemos de concordar não só
com a existência de uma assimetria entre os gêneros, como também
podemos constatar que nessa assimetria é atribuído ao signo
masculino um sinal positivo. Da mesma forma, não se pode contestar
que as associações masculino/ativo e feminino/passivo, dada
a sua abrangência no mundo ocidental, contribuem para a veiculação
de uma imagem do "segundo sexo" deveras insatisfatória aos olhos
feministas. Entretanto, mesmo que tais evidências nos conduzam à
admitir que a "histórica subordinação da mulher" possa
se apresentar como um argumento capaz de compreender o silêncio e
a invisibilidade do lesbianismo, ainda assim, consideramos um procedimento
mais cuidadoso tratá-la como uma interpretação que,
compatível com o nosso imaginário sócio-sexual, ao
invés de esclarecer, deve ser esclarecida sob a luz desse mesmo
sistema de representações sexuais.
Eis aqui o ponto chave
de nossa discussão. Entendemos que uma abordagem pela via da subordinação,
no limite, promove uma reificação daquilo que ela própria
procura questionar. Em outras palavras, a hipótese repressiva, de
alguma maneira, reedita uma leitura falocrática da famigerada falocracia
ocidental, uma vez que atualiza, embora insista em negar, a visão
do universo feminino como alguma coisa construída pela ausência,
como um lugar definido pela falta. O que estamos querendo ressaltar é
que este modo de conceber a problemática da feminibilidade é
mais uma entre outras falas que participam do discurso da homossexualidade
feminina. Talvez por isso mesmo o argumento da subordinação
se mostre sempre com uma espécie de silêncio que se quer ao
mesmo tempo barulhento e inaudito.
De todo modo, mesmo
que não consideremos a hipótese repressiva como um ponto
de vista seguro de onde se pode projetar um olhar reflexivo sobre o universo
feminino, não é possível negar que, enquanto um rico
depoimento, ela pode ser e deve fornecer significativas pistas de serem
exploradas pelo pesquisador interessado em compreender a homossexualidade
feminina, tal e qual ela se põe na linguagem.
