SOLIDÃO E SOLIDARIEDADE

                                                                     Luiza Granado

 
          A solidão, palavra tão cantada em nossas músicas, tem particular relevância  para as mulheres lésbicas, sempre mais vulneráveis a ela.
          Farei uma apresentação do tema, objetivando trazer à tona sua problemática e quem sabe incentivar outras mulheres a nos enviarem depoimentos sobre o assunto.
          Se a solidão é tida como fenômeno das grandes cidades, seus efeitos são ainda mais críticos para a vida das lésbicas.
          Temos diferenças óbvias em relação às mulheres não-lésbicas, já que todos os lugares de socialização como o local de trabalho, a escola, os lugares religiosos, festas etc, são de estrutura heterossexual. Nesses lugares, a maioria das lésbicas é invisível enquanto tal, e as chances de encontrar uma companheira tornam-se mínimas. É o peso da discriminação.
          Depois de uma década de militância e contatos com mulheres lésbicas, é muito triste perceber que a realidade continua solitária. Algumas coisas mudaram, porém há muito para se fazer.
          Nesses anos, recebemos perto de 4.000 cartas de mulheres de todo o Brasil, das quais muitas, mas muitas mesmo, nos falam de solidão, não só de amores, mas também de amizades.
          Há uma unanimidade num ponto: todas as mulheres que nos escrevem contando da sua solidão se acham as únicas a padecer dessa dor.
          Não exercitam a visão de conjunto capaz de mostrar-lhes que o isolamento do qual reclamam faz parte da realidade de muitas outras mulheres que, por sua vez, também se julgam a sós com sua solidão. Cria-se um círculo vicioso, perverso.
          A título de ilustração, transcrevo abaixo um trecho de carta que recebemos de M. em fevereiro deste ano:
                "Eu não quero fazer parte de uma organização, nem grupo, nem  nada. Eu não sou de São Paulo, estou há pouco tempo aqui e simplesmente gostaria de encontrar uma mulher que eu pudesse amar e ser amada. Estou sozinha..."
                Segue-se sua idade e descrição física, bem como a da mulher que deseja para companheira, finalizando da seguinte forma: "Fico aguardando sua ajuda, tá?"
          Assim fantasia que podemos, magicamente, localiza a mulher de seus sonhos e de será amada, plenamente correspondida, vivendo feliz para sempre. A realidade nos mostra uma face diferente.
          A solidão faz com que as mulheres se limitem a buscar freneticamente uma companheira - simplesmente - e em grande parte não se permitam fazer uma ligação entre o trabalho da REDE e a quebra do isolamento.
          A solidão também já foi colocada em livro de temática lésbica, editado em 1928, em Londres (É o mais antigo que já li sobre o assunto). Foi escrito pela poetisa e romancista inglesa Marguerite Radclyffe Hall ( nascida em 1886 e falecida em 1943), obra bastante discutida e causadora de grande escândalo na época, tendo sua publicação sido proibida na Inglatera e EUA, e sua circulação liberada por tribunal. Acabou por se tornar um clássico. Eu o li há uns 5/6 anos, portanto precisaria relê-lo para fazer uma resenha. Além disso, o livro é bonito, porém triste demais. Nos faz mergulhar muito fundo. O nome do livro? "O Poço da Solidão".
          Portanto, o binômio lésbica e solidão não é um fenômeno atual. Vem de longe...
          CONSEQUÊNCIAS
          As implicações dessa segrega''cão são desastrosas para as lésbicas. Uma carta recebida em janeiro deste ano, de uma cidade muito pequena do sul de Minas Gerais, nos conta que D. estava apaixonada há 4 anos, sem ser correspondida, por uma moça heterossexual.
          "Fui para o bar e comecei a refletir sobre a minha vida... O problema é que tomei um porre e terminei a noite com um colega. Hoje minha consciência me censura por ter enchido a cara, ter ficado com um homem. Eu detesto homem! Por ter sido covarde e deixado o pessímismo tomar conta de mim. Não sei o que fazer. O que eu faço? O que eu digo pra mim mesma? Que justificativa dou à minha existência? Por favor desculpe por estar enchendo vocês com meus problemas. É que vocês são as únicas pessoas nas quais eu conto".
          A carta dá o recado. E você? O que responderia para D.? Algumas cartas que nos chegam são tão tristes quanto o livro "O Poço da Solidão". A solidão e o isolamento também levam as lésbicas a se apaixonarem pela primeira mulher que lhe dirija uma palavra de solidariedade ou que lhe seja mais afável. Existem poucas chances para possibilitar a escolha num processo de amizade, paquera, namoro, até chegar a hora de decidir uma vida em comum. Precisamos reverter esse quadro triste. Lutar contra a solidão é lutar contra uma das violêcias que atingem as lésbicas, pois na maioria das vezes temos que usar uma máscara no cotidiano que nos isola, nos segrega, nos guetariza.
          Eu acredito na necessidade de uma "saída do gueto", desenvolvendo uma ética de solidariedade lésbica. A REDE é um espaço importante, já que, como grupo político, interfere socialmente revelando nossa existência e levando a discussão de nossa dupla discriminação: a de gênero e a de especificidade.
          Aproveito para fazer um parêntese e colocar que os gays não sofrem discriminação enquanto gênero, já que, obviamente, continuam a ser homens numa sociedade patriarcal. A discriminação que temos em comum é quanto à orientação sexual.
          Na REDE, procuramos passar através das informações sobre nossos direitos e possibilidades, o incentivo para que cada mulher busque seus interesses a partir de uma visão de coletividade.
          Só quando mais mulheres estiverem comprometidas, mobilizadas e solidárias, com uma união forte e permanente, é que vamos conseguir, ao menos, abrir uma janela desta casa imensa que é a solidão.