LÉSBICAS E FRUTAS EM PROMOÇÃO

Beatriz Aragão Murad

          Tenho percebido que cada vez mais aparece na mídia, seja numa reportagem, num artigo, ou uma peça publicitária, a abordagem do tema lesbianidade, o que me sugere que as lésbicas viraram moda, adquiriram o status de produto de consumo.
          Nem tudo é interessante nessa nova situação, principalmente quando se resvala para o bizarro. Outro dia li num jornal de Campinas, uma cidade importante aqui da Califórnia Brasileira, um anúncio no Caderno de Lazer do principal jornal local, destacando uma boate para homens desacompanhados, eufemismo bonito para prostíbulo. Como principal atração da casa colocava-se um show de lesbianismo  e frutas exóticas. Não gostei nem de ler isso porque não tem graça nenhuma esse lesbianismo (sic) para heterossezuais, que diga-se, en passant, está cada vez mais em baixa. E eu imagino que "frutas exóticas" queira significar kiwi, manga aden, pêssegos de tamanho aberrante, nectarina e outras espécies fabricadas.O que é rídiculo quando temos na região vareriedades tradicionais tão deliciosas como as uvas de Jundiaí ou os figos de Valinhos. Porque essas frutas de laboratório só tem boniteza, mas polpa que dê prazer à boca... Porque em termos de sabor, fruta exótica lembra frango de granja e certas mulheres bissexuais. Por mais que se coma, no fim das contas a gente percebe que não tem gosto nenhum.
          Outra estória que me deixa com pulga atrás da orelha é uma repetição, uma insistência. Não sei por que cargas d'água criou-se hoje a obrigação das lésbicas serem bonitas, bem vestidas, femininas e outros atributos ad litteris et verbis, em muitas reportagens ou depoimentos, a lésbica de perfil correto tem esse esboço. Porque eu vejo que isso é muito relativo, na medida em que a lésbica do gueto, por exemplo, não vai ter grana, tempo, disposição e às vezes saco para ser bonita, bem vestida ou feminina, conceitos que inclusive variam conforme a classe social.
          O que é diferente dessa onda norte-americana das lesbians chics, estratégia perfeita de marketing para um país onde as mulheres têm mais poder aquisitivo e criaram um modo de expressão, invertendo valores, ser lésbica é chique, straight is out.
          Quanto a esse conceito de feminilidade eu não sei bem o que pensar. Sempre vi o feminino como imagem social, moldagem que eu tenho o direito de refutar desejando qualquer outra coisa ou coisa nenhuma. Porque não me é intrínseco, me foi dado. Lembra-me as cabeças de gado Nelore, o rebanho com sua hierarquia social imutável, onde as vacas são fêmeas dóceis, robustas e simpáticas, sabendo cada uma seu lugar na fila para o pasto, estábulo, o cocho e o bebedouro. Mas gente eu acho que é diferente. Será que feminino não é palavreado sofisticado para doçura compulsória e emprego fixo no fogão e na limpeza dos cueiros dos fedelhos?
          Essa estória de discurso andrógino também não faz meu estilo. Admira-se criarem uma solução tão rápida para a velha dicotomia. Que como solução só pode ser simplificadora e desprovida de imaginação. Andrógino/andrógina é minhocuçu, modalidade grande das minhocas, bichos que eram chamados por Aristóteles há mais de dois mil anos de "intestinos da terra", pela aragem do solo. Eu, não.