LÉSBICA, SIM SENHOR.

Anita Klimt

          Retornando à São Paulo após algum tempo de reportagens pelos rincões do país, deparei-me com uma matéria na revista semanal "Isto É", que trouxe uma discussão que eu julgava estar separada, na medida em que internacionalmente os meios de comunicação já assimiliram a nomenclatura "gays e lésbicas". É a antiga questão da utilização da palavra "lésbica", em lugar do termo "homossexual", este de perspectiva genérica.
          A afirmação da referida matéria, no sentido de qualificar o debate como "meramente semântico" já começa com um equívoco linguístico. Não se trata de uma querela de significados, mas de seleção de vocábulos e nesse enfoque ela é mais lexical do que semântica. Porque a essas alturas ninguém tem dúvidas de que "homossexual" abrange femininos/masculinos e "lésbica" é palavra específica.
          Ao desmerecer o desejo das mulheres de serem chamadas de "lésbicas", a revista "Isto É" cai no erro grosseiro de crer na neutralidade da linguagem. Ora, a expressão verbal está eivada de valor social, de caráter ideológico, como já demonstrou o lingüista Bakhtin.
          Um exemplo de como as tensões políticas estão na linguagem pode ser visualizada na abordagem das reivindicações dos trabalhadores sem-terra. É diferente o discurso  que fala do "sem-terra" daqueleque o nomeia de "invasor". O primeiro aponta para a necessidade de reforma agrária e as mazelas da concentração de imensas propriedades. Seria  má fé pensar que, ao designar camponeses pobres de "invasores", por exemplo, a imprensa apenas relata fatos, por mais isenta que ela possa parecer em sua descrição dos acontecimentos. Nesse segundo caso, ocorre o reforço do ideário da propriedade privada, que indicia a batalha por "corações e mentes", através da palavra.
          Como assinalou Barthes com clareza, "a língua é simplesmente fascista" e fascismo é obrigar a dizer. A preferência da palavra "lésbica" em lugar de "homossexual" é a criação de um suposto paradoxo linguístico. Mas é essencialmente um movimento de ultrapassagem, daquilo que os estruturalistas chamam de "trapaça com a linguagem", no sentido de subverter - até onde é possível - seu caráter normatizador. Porque "homossexual" até abarca os dois gêneros, mas ainda é um "saco de gatos" que delimita a realidade como se ela fosse homogênea, quando ela dá todas as marcas de que não o é.
          Definir-se como lésbica é sobretudo uma apologia da diversidade, da riqueza de dois mundos. Vide a exuberância gay dos filmes de Derek Jarman ou a articulação poética das músicas de K. D. Lang - ingénue, lesbienne et trés belle. Isso não deixa de significar que há pontos em comum com os gays, que a discriminação afeta a ambos e que a solidariedade é um caminho.
          Chega a ser tautológico, mas é preciso sempre lembrar que gays diferem das lésbicas na medida em que homens são diferentes das mulheres. Porque a linguagem nos obriga a designar e ver uma massa compacta, "homossexual", um conivente conveniente  quase 3* sexo. Isso implicaria em negar autoritariamente as específicidades da lésbica enquanto mulher (opressão patriarcal de séculos, dificuldades de mercado de trabalho etc. etc.). Além de ser uma falta de percepção de cada um dos universos - gay e lésbico - com suas distinções, que são seu encanto, sua singularidade.