SERIAM CONFLITOS NATURAIS?

Miriam Martinho

          Na convivência com outras lésbicas, em paricular com ativistas lésbicas, algo que chama atenção de imediato é o grau de conflitos presentes nas inter-relações pessoais e de grupo. Mais do que os conflitos, contudo, surpreendente  mesmo é a naturalidade com a qual estes são encarados. Em várias reuniões lésbicas de que participei no ano passado, tanto aqui em São Paulo quanto fora do Brasil, tive a oportunidade, nada feliz, de constatar que a maioria das lésbicas considera as relações humanas como essencialmente antagônicas.
          Neste sentido, justifica-se qualquer baixaria, arbitrariedade, puxação de tapete e falta de ética sob o pretexto de que estas atitudes são inerentes à politíca e às relações entre mulheres. Questionamentos de tal perspectiva  equivocada recebem  o título de "ingenuidade", pois a política de verdade, com P maiúsculo, é tida como aquela aprendida com os homens, nos pequenos e grandes partidos, nas organizações de esquerda, enfim, na macroestrutura patriarcal e burguesa onde a competitividade predomina e a luta pelo poder não cessa um segundo.
          Obviamente, os conflitos existem e negá-los não só não os resolve como inclusive tende a acentuá-los. Entretanto, existe uma diferença enorme entre constatar a existência de conflitos e considerá-los como coisas normais nos processos de inter-relação lésbica. Ao vermos os conflitos como coisas normais, na base do "é assim em toda parte" acabamos por naturalizá-los, elevando-os ao nível do inquestionável e, portanto, do inevitável. Acontece mais ou menos assim com a questão da heterossexualidade obrigatória. Vista como natural, da Natureza humana, tornou-se inquestionável e virou norma para todos, relegando as outras sexualidades ao terreno do desvio. Vistos como naturais, os conflitos tendem a perpetuar-se , fazendo da idéia da cooperação uma tola quimera. Como diz a filósofa norte-americana Sarah Lucia Hoagland, em seu instigante livro Ética Lésbica:
"...como esperamos que os seres humanos sejam agressivos, a idéia da cooperação, entre os mesmos, nos parece desconcertante. Entretanto. se enfatizássemos as interações cooperativas em vez das antagônicas, seria a idéia da competição que nos pareceria desconcertante e não a da cooperação".
          Em outro trecho do livro, ela argumenta que as hostilidades entre seres humanos, longe de serem naturais, provêm, entre outros, do pensamento do filósofo alemão Hegel, para quem o antagonismo é necessário por ser parte do processo de nos tornarmos consciências autoconscientes.
"Esta teoria afirma que cada consciência (pessoa) mantêm uma hostilidade fundamental contra toda outra consciência e que cada sujeito (pessoa) se estabelece como essencial opondo-se a todos os outros. Isto é, as relações humanas são fundamentalmente antagônicas e a hostilidade, recíproca. Aquela que não consegue se opor a outra se descobre tendo que aceitar os valores da outra e se torna submissa à própria".
          Sarah coloca que esta maneira de pensar as relações humanas formou a base de nosso pensamento conceitual presente, alimentada pela popularização do trabalho de Hegel, mas que é possível obter um antídoto para a situação e tentar vê-la com um outro olhar. Assim declara:
"Hegel se preocupava com o fato de que o reconhecimento do Outro pudesse não ser em nossos prórios termos: embora eu possa estar ardentemente engajada em algum projeto, outra pessoa pode me ver como uma otária. Para manter meu eu, na teoria hegeliana, preciso dominar a outra e forçá-la a perceber-me através de meus próprios valores. Entretanto, se percebo meu eu como um entre muitos, não fico dependente do reconhecimento de nenhuma lésbica (embora possa depender dela). Assim, o fato de uma lésbica me ver como otária pode ser algo que eu queira discutir (ou não), mas não algo que precise controlar para manter meu senso de eu.
Entre lésbicas, freqüentemente quando temos medo da percepção das outras sobre nós mesmas que conjuramos. Em minha experiência, nossos próprios fantasmas são em geral piores do que as percepções em relação a eles, conseguindo assim exorcizá-los, através da interação. Diferentemente, percebendo-nos como uma entre muitas, podemos aprender que a percepção de outra lésbica a nosso respeito é apenas isso: uma preocupação que pode dizer muito, tanto sobre ela mesma quanto sobre nós.
...Percebendo nossos eus como um entre muitos, podemos compreender que nenhuma percepção nos define, e que cada uma nos dá alguma informação útil na hora de fazermos escolhas. Podemos também compreender que a resposta às difernças nestas percepções não repousa nem na tentativa de subordinar nossos eus a elas ou a suas prescrições.
...  Nós também ganhamos um senso de singularidade: ninguém fará e dirá a alguém ou será para este alguém como eu serei. Além disso, o que eu digo ou falo ou sou, é ampliado pelo que outras dizem e fazem e são, bem como as ampliatanto aquelas que concordam comigo em certas coisas quanto as que discordam de mim em muitos aspectos.
...  Assim, não precisamos tentar negar as diferenças para obter conexões. Longe de pressupor antagonismo e solapamento de nossas conexões, as diferenças podem ampliá-las"
          Bem, você pode estar pensando, como no velho chavão, que a teoria acima transpira sofisticação e beleza mas, na prática, a coisa é outra. É outra, por exemplo, porque temos de trabalhar com nossas inseguranças, no trato com as demais lésbicas, e com as inseguranças das próprias, o que muitas vezes nos leva a conjurar fantasmas em número suficiente para assombrar uma vida inteira. E eu diria que você em parte tem razão. Realmente não é nada fácil colocar uma teoria em prática, principalmente quando temos toda uma estrutura mental condicionada, desde a infância, pela cultura do patriarcado  em que vivemos. Quem nunca se flagrou - no mínimo - tendo uma resposta desmedidamente agressiva a um questionament de suas  idéias e posicionamentos? Isso sem falar na nossa confusão quando temos que nos relacionar com aquelas lésbicas super-patriacalizadas (pode traduzir grosseiramente como machistas), cujo "modus vivendi" consiste na competição em tempo integral e cujo interesse em outras perspectivas é nenhum mesmo.
          Entretanto, de qualquer forma, não se trata aqui de trazer uma receita de como superar conflitos, com base numa idéia neocristã de "paz na terra às mulheres de boa vontade". Retornando, trata-se aqui de afirmar que os conflitos, ao contrário do que afirmam os pensadores patriarcais, não são naturais, não são inerentes a nossa maneira de ser. A humanidade já conheceu sociedades cooperativas e pacíficas, no passado, prova de que nossa natureza não é belicosa por essência, e pode voltar a conhecer. Os conflitos são muito mais fruto da cultura surgida com o patriarcado do que de nossos temperamentos. Ter e manter a consciência deste fato faz muita diferença. Além disso, não nos resta alternativa a não ser tentar outras maneiras de pensar o assunto, como, por exemplo, a da filósofa que citei acima. Caso contrário, estaremos sempre envolvidas em conflitos dilaceradores, tentando imputar umas às outras a responsabilidade pelos "crimes" cometidos, como os homens fazem em suas intermináveis guerras.
          No ano passado, ouvi de uma medalhona do feminismo nacional, uma não-lésbica, que as já notórias guerras entre os grupos de mulheres fazem parte do processo da política, que assim é porque Deus quis. Ouvi de outras mulheres homossexuais brasileiras, empenhadas na realização de um encontro, cuja comissão organizadora não se entendia de jeito nenhum, que tudo bem estarem praticamente aos tapas, desde que o evento fosse realizado. Ouvi até gente, em geral bem pensante, já a nível internacional, que esse mesmo enontro podia ser passado para às lésbicas do país X porque estas ainda não haviam entrado na fase dos conflitos, como se os conflitos fossem um destino inescapável, à la tragédia grega (A companheira esqueceu que, ao pressupor o antagonismo, nós o encorajamos).
          Enfim, ouvi, com pequenas variações e em diferentes lugares, esta mesma ladainha: a naturalização dos conflitos e sua conseqüente inevitalidade. Por isto escrevi este artigo, onde conclamo a quem me lê a refletir sobre o assunto e a tentar pensar de forma distinta da tradicional. Aceitar a ladainha acima significa minar a credibilidade em nós mesmas, em nossa capacidade de nos unirmos para lutar contra os inimigos que não são poucos. Precisamos buscar novos valores, diferentes dos patriarcais, para medir nossas relações, não só porque estes não nos servem, em particular, como não servem à humanidade como um todo. E isto não é ingenuidade, é instinto de sobrevivência.