MULHERES ENCONTRAM MULHERES

Leila Mícolis

Na minha pauta deste mês estava apenas a cobertura do 10 Congresso da Mulher Fluminense, realizado no Rio dias 14 e 15 de junho, no Sindicato dos Metalúrgicos, cabendo a mim escrever um artigo sobre ele; mas, tendo sido convidada pelo Grupo de Ação Lésbica-Feminista para participar do Encontro de Grupos Feministas em Valinhos, dia 21 e 22, fui forçada a reformular toda a matéria, e traçar um paralelo entre ambos.
10 CONGRESSO DA MULHER FLUMINENSE
Cerca de 300 participantes. No primeiro dia, pela manhã, sobre "Mulher, Família e Sexualidade" falou Marta Vassimon, pedindo para que levantássemos as causas de manutenção e transmissão da opressão da mulher. Mas , infelizmente, esta proposta não foi bem aceita, pois concluímos que, em matéria de sexualidade, "apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais"...
A maioria das turmas (ao todo em n0 de 10) preferiu discutir carestia, à revelia do temário estabelecido, como se os problemas específicos da mulher fossem apenas resolvidos por aí... Só as turmas "O" e "T" (não confundir com OIT...) aprofundaram-se em sexualidade, sendo que a minha, a "T", partiu da vivência de cada uma de nós para chegar a conclusões gerais, solução considerada irreverente num formal encontro de mulheres. Nossa coordenadora não gostou nada desses métodos pouco ortodoxos, sendo constantes suas intervenções autoritárias "conclamando-nos" a debater, por exemplo, educação sexual nas escolas...
Como não conseguiu, retirou-se indignada, deturpando dados e informações: segundo o seu relatório, tínhamos perdido três horas discutindo clitóris e dando depoimentos pessoais íntimos, de pouca valia. Pouca valia, com certeza, por se referirem a orgasmo e a violência, como o caso de uma das participantes que nunca gozara com o marido e ficara aliviada ao ouvir pela TV-Mulher a preciosa informação de que o gozo só era necessário ao homem. Ou então, o relato de uma moça de 21 anos, negra, que quando menor apanhou do pai a ponto de ser internada num hospital em estado desesperador.
Se esses fatos não são políticos, o que mais é? A implantação da educação sexual num ensino totalmente anti-sexual? A criação de soluções paliativas dentro de uma família violenta e repressora, primeira a espancar, a forçar relações com suas mulheres, a oprimir e a castrar? O apoio apenas a uma luta geral, sem o mínimo interesse para os problemas específicos da mulher, e, ainda, incrementadora de seu desconhecimento corpo real para melhor subjugá-la?
Uma congressista achava que algo estava errado com ela porque não conseguia gozar na vagina... A esta, seguiu-se uma belíssima intervenção: "a cliteroctomia - operação de eliminação do clitóris - pode ser feita na faca, por alguns povos, e na cultura, por outros, inclusive por alguns ramos da psicologia que distingue o gozo vaginal (maduro) do clitorial (imaturo)". Continuou dizendo que "temos no corpo um órgão cuja única função é nos proporcionar prazer: o clitóris. A vagina quase não tem enervação, caso contrário não seria possível o parto normal nem a simples colocação de um O.B..." No entanto, reprimimos o clitóris - inclusive indo contra nossa própria biologia - por imposições machistas, pois o prazer do homem está mais na penetração, e o da mulher, na manipulação. (Remember Relatório Hite...)
Mas, se a sexualidade para a mulher ainda é confusa, a homossexualidade, então, nem se fala: neste campo, o desconhecimento é enorme e as informações distorcidas. Alguém me perguntou, particularmente, se a transação entre mulheres também seria homossexual; outra afirmativa que quando a mulher deixa de tomar anticoncepcionais, o excesso de hormônio feminino será transmitido durante a gestação a seu filho, causando o aumento da taxa de homossexualismo... (Eu me sentia como devia ter se sentido Galileu ouvido as absurdas teorias "científicas" de sua época).
Quando afirmei que a mulher homossexual é igual a todas as demais (ao se equipararem então a mães solteiras ou desquitadas), uma grávida protestou: nada tinha a ver com homossexuais, achando "mais justa" a luta das prostitutas, como se tudo não viesse de uma ninhada só, e como se a opressão aos dois - e a repressão dela mesmo enquanto mulher - não se originasse da mesma fonte...
Estiveram presentes a AUÊ/RIO (agora já há o do Recife) e o SOMOS/RJ, este representado pela Dolores, uma companheira e tanto, conseguindo em sua turma "O" os mesmos resultados que nós na "T". Eis a moção de apoio entregue à mesa coordenadora:
" Representado no 10 Congresso da Mulher Fluminense, o grupo organizado homossexual - AUÊ - se une às suas irmãs de opressão em todas as reivindicações específicas de nossos direitos humanos, na luta ampla, geral e irrestrita contra todo tipo de massacramento responsável pelo esvaziamento de seu discurso ideológico, ao considerá-las maioria, quando, na verdade, elas são maioria numérica da população e força transformadora desta sociedade discriminatória e antidemocrática".
Pela primeira vez - anotem este fato histórico - conseguimos o apoio das mulheres à luta homossexual (imaginem que até o JB que tanto evita este tipo de contato mencionou a palavra "homossexuais" em sua notícia...) e, em nossa turma, ainda aprovou-se moção de apoio à passeata de prostitutas, travestis e homossexuais de SP, contra o delegado Richetti, além do repúdio ao título da matéria da "Veja" pela discriminação aos grupos estigmatizados.
Sobre o tema "Mulher e Trabalho", tarde do primeiro dia, falou a advogada Salete Maria Macalós, ressaltando que, mesmo que se altere a CLT, o atual trinômio continuará: o patrão não cumprindo as leis trabalhistas, o Ministério do Trabalho não fiscalizando, e o empregado atado, por não ter estabilidade capaz de lhe garantir o emprego ao ajuizar suas reclamações na Justiça.
Na última manhã, sobre "Mulher e Participação Política e Social" falou a deputada Helonieda Studart, mostrando que, enquanto uma parte das mulheres trata de orgasmo, a maioria delas ainda dorme em camas-de-vara e faz contas com caroços de feijão. Concordo, Heloneida, só que não vejo incompatibilidade na coexistência de ambas as lutas. No plenário, houve apoio às lutas dos lavradores, Sônia Valeska, contra qualquer tipo de "militarismo feminino", seguindo o exemplo da precursora Iara Mendes, e Jurema, pela Associação dos Artistas.
Foi então que surgiu um documento assinado por inúmeros grupos, protestando contra o manobrismo e autoritarismo político dentro do Congresso; e o já conturbado plenário se dividiu, então, em mulheres que gritando por unidade, e outras por autonomia. No final, um exemplo do baixo nível de conscientização das mulheres: com exceção de 3 turmas, entre elas a "T" e a "O", defensoras da autonomia feminista, a quase totalidade se interessou pela filiação do movimento a partidos políticos já existentes, esquecendo-se delas próprias para apenas discutir problemas da "luta maior" (pelo poder), sem cogitar de uma mudança ideológica paralela. Significa: o mesmo discurso político que sempre oprimiu a mulher, que ainda não luta por seus direitos, mas pelos deveres de seus homens...
ENCONTRO NUM CONVENTO DE FREIRAS
O contrário dessa terrível frustração, desânimo e impotência  ocorreu no Encontro de Grupos Feministas de SP, realizado num belíssimo convento de Valinhos - Lar de S. Joaquim. Saídas da catastrófica experiência do 20 Congresso da Mulher Paulista (bastante semelhante a do 10 Congresso da Mulher Fluminense...) os onze grupos feministas (das 54 entidades participantes do CMP), com metas comuns - como autonomia - resolveram se reunir para discutir seus problemas específicos, já que eles não puderam ser colocados no Congresso... Presentes: Grupo de Ação Lésbica-Feminista, Somos/SP, Sociedade Brasil Mulher, Grupo Nós Mulheres, Grupo 8 de Março, Centro da Mulher Brasileira, Grupo Feminista de Campinas, de Brasília, Ação Mulher Recife, Associação das Mulheres, Coletivo de Mulheres, e AUÊ/Rio (como convidado).
Oito grupos ao todo, bastante diversificados; fiquei com Téca no 6, acabando sendo relatora de meu grupo:
"A partir da análise que fizemos de nossa atuação aqui , nas sessões plenárias, bem como da maneira como atuamos no 20 Congresso, identificamos que existe no movimento feminista um problema institucional que é: como negar uma forma de organização patriarcal, machista e hierárquica, substituindo-a por uma maneira de atuação feminista. Na prática, não estamos efetivando essa substituição, mas apenas reproduzindo os papéis que nos são impostos por esta mesma estrutura que combatemos. E temos feito isso de duas maneiras: ora adotando uma atitude de donas da verdade (inclusive porque muitas de nós traz este "vício" dos partidos políticos aos quais se filiam), tentando conquistar posições e, portanto, impondo nossos pontos de vista, ora abrindo mão deles. Agimos assim, tanto num caso como no outro, por nos faltar a identidade feminista que se oporia à identidade machista que tem marcado nossa maneira de atuar.
Acreditamos indispensável, para a aquisição desta identidade feminista, uma maior clareza de nossas posições, o que só acontecerá com o efetivo debate destas questões específicas dentro de cada grupo e entre todos eles (inter e intra grupos). Acreditamos também que a busca desta identidade requer um exercício diário, tanto na maneira de agir quanto na de falar.
Em vista disto, nossas propostas concretas são:
1.  Com relação à contracepção e ao aborto, criar dois momentos de luta: primeiro, analisar os problemas e tomar posição dentro e entre os grupos, e, num segundo, concretizar as propostas debatidas em conjunto;
2.  Formar uma comissão permanente contra a violência com duplo objetivo: colher dados sobre os diversos graus de violência cotidiana contra a mulher e tomar providências para não ficar apenas ao nível de informação.
Esses temas deverão ser debatidos no interior dos grupos, como forma de fortalecer nossa identidade feminista".
Na última plenária, surgiu a proposta da organização de uma coordenação de grupos feministas, para tratar dos problemas específicos e prioritários da mulher: contracepção, aborto, violência policial e de outros tipos, imprensa (criação de um jornal feminista), além de, mais a longo prazo, tratar de creche, educação diferenciada e a Casa da Mulher Paulista. Este temário é bastante abrangente, já que a sexualidade libertária consiste no direito irrestrito ao uso do próprio corpo, respeitando-se suas opções, sem reprimi-las ou violentá-las, em nenhum "gênero, número e caso" (ui...).
Neste encontro ficou também bem claro que devia ser incrementada a troca de vivências pessoais (através de identificação), para que se chegasse a uma consciência do agir feminista. No sábado, ao ar livre, próximas de lagos e grutas, o dia todo informalmente falando de nós e nos ouvindo, tocamos em quase todos os pontos básicos da primeira parte do temário sobre "o que é feminismo" prova de que o individual também é enriquecedor e altamente revolucionário num discurso político. Exemplo: a discriminação entre mulheres, um dos itens propostos, não precisou  ser discutida; foi sentida por algumas participantes do Lésbico-Feminista, discriminadas num grupo exatamente pela sua condição de homossexuais. A partir da consciência da repressão pôde-se trabalhar em cima deste dado novo e concreto.
Nisso consiste o feminismo: numa atitude política nova (no sentido de tentar não reproduzir papéis, símbolos e comportamentos da sociedade patriarcal), nela se incluindo também a discussão do privado, como forma de mudança do comportamento cotidiano. O descondicionamento de padrões estabelecidos e impostos só pode ser feito quando compararmos nossos próprios valores, quando há identificação de conflitos, quando nos aproximamos dos  outros enquanto pessoas. E, a meu ver, é a verbalização do seu emocional uma das maiores armas das mulheres, já que elas sempre foram silenciadas e silenciosas.
Importante não é apenas a militância externa, falar em congressos ou participar de debates sobre temas genéricos. Também é imprescindível como introjetamos essa militância externa, o modo pelo qual vivenciamos na prática de nossas vidas os conceitos feministas que transmitimos. Uma coisa é o discurso teórico, outra, à vezes até mesmo bastante oposta, o que temos no dia-a-dia de nossas casas, de nossos trabalhos, camas e diversões.
Por falar nisso, sob uma temperatura de oito graus (e não só por isso...) as quase 200 mulheres, na noite de sábado, organizaram uma festa animadíssima no casarão, com vinhos, patê de peixe, frevos, namoros e cantorias.(até me disseram que não há heterossexual convicta, juro que não pensei no duplo sentido); vejam o final da letra irônica do "Hino das Feministas", composto pela Cida: "a rainha do lar morreu/ agora quem manda sou eu/, já posso ser mãe solteira/lésbica ou engenheira"...
O clima de descontração e confiança pessoal, sem hostilidades de partidarismos políticos ajudou muito o andamento dos trabalhos, numa sucessão interminável de momentos gratificantes, sem uma única briga de partidos entre nós, fato pra mim bastante significativo. Se nem tudo foi um mar de rosas (ainda bem), só trabalhando nossas contradições na prática superaremos obstáculos que nos surgem a todo o momento.
Voltamos a São Paulo muito tarde e cansadas (embora ainda a tempo de beijar Trevisan pelo seu aniversário), mas ainda envolvidíssimas pelo clima de companheirismo e produtividade do Encontro. Só assim a luta das mulheres não se torna demagógica ou manipulada por outros interesses que não o nosso.
Moral da história (embora esta seja amoral). Eis o trecho do começo do discurso de abertura, proferido por Nair Jane, da Associação Profissional de Empregadas Domésticas, no Congresso do Rio: "Há mais de vinte anos as mulheres deste estado não se encontravam. As meninas de colo de então já trazem seus filhos nos braços, as mulheres daquela época já são avós. Uma geração se passou, quase uma vida. E, olhando para trás, comparando a situação vivida pelas participantes de nosso último encontro com a situação vivida por nós, é fácil constatar que pouco, muito pouco mudou na situação da mulher. Continuamos a desconhecer a nossa sexualidade, continuamos discriminadas no trabalho, na família, na sociedade". Só que, neste ritmo, aceitando apenas a "luta maior" como sendo a sua , teremos ainda várias décadas de imutabilidade na situação. E, no entanto, depende basicamente de todas as mulheres, através de nossos atos homossexuais, heterossexuais, ou os dois, apressarmos ou retardarmos por mais vinte anos nossa transformação histórica. (Leila Miccolis)