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Prostituição masculina as alternativas
de uma política sexual: uma abordagem semiótica
Wilton Garcia
Se procurar bem, você acaba encontrando não a explicação
(duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como objetivo principal
refletir, sob uma perspectiva semiótica, algumas questões
que perpassam a prostituição masculina na cidade de São
Paulo, tendo em vista uma gama de elementos
que permeiam este Ser/Objeto. Tal estudo baseia-se
nas semióticas aplicadas, utilizando-se dos códigos
intersemióticos que possibilitam destacar
fragmentos intertextuais, como por exemplo: "garoto de programa", bem
como os derivados segmentos que ampliam uma discussão acerca
da prostituição masculina, dentro do mercado
do sexo. Um Flâneur/Voyer observador/observador, absorvidor/absorvidor
na metrópole.
Onde se instaura a relação
michê/cliente? Muitas são as indagações a esse
respeito. As relações no mercado do sexo, entre o prostituto
e o cliente, ocorrem através do ponto de vista de critério
avaliados por ambas as partes, pode-se dizer uma reverbação
de espelhos. Desta forma esses critérios
visam uma leitura do produto a ser negociado, gerando confrontos na hora
da oferta/procura, bem como o desfecho do encontro. Aventura, sexo,
dinheiro, poder e sedução, são elementos que
intercambeiam entre este emaranhado comércio do corpo " macho ".
Em suma, a natureza humana traz consigo, em sua raiz, uma série
de questões críticas à respeito desta troca
simbólica com outro. As diferentes possibilidades de circulação
comercial ampliam a discussão desta evolução sexual,
em que a imagem do preservativo aparece como uma solução
que evidencia, mais ainda, o distanciamento entre dois corpos. Diante
disso, o preservativo funciona como um utilitário da desvinculação
de qualquer compromisso, ou seja, elimina o contato da genitália
no inconsciente.
PROCEDIMENTO DE ANÁLISE
A intertextualidade de signos, que
podemos considerar junto ao contexto da prostituição masculina,
reflete uma hibridação de códigos intersemióticos
que propõem a intercambialidade de fatos, e conseqüentemente,
aos poucos, vão tecendo um variado perfil deste grupo.
A pesquisa de campo ocorreu de uma
maneira um tanto quanto irregular, tendo em vista a grande abragência
do mercado sexual na cidade de São Paulo. Através de intervenções
(que culminaram em algumas entrevistas, conversas e bate-papos) pode-se
constatar categorias que revelam alguns traços expressivos nos michês.
Realizou-se, ainda, observações e contatos em saunas especializadas
(04 saunas); como também, foram realizadas algumas tentativas de
contatos com "garotos de programas"que trabalham por telefone, anunciados
em jornais; além de algumas interferências com "boys de rua"
(encontrados normalmente à noite, na rua do Arouche, avenida São
Luiz e Trianon); por último, foram contatados alguns "garotos digitais",
que já começam a aparecer nas redes de computação
(informática).
Partindo de uma distinção
deste grupo, em suas partes, conforme descritas acima, pôde-se perceber
um leque de variedades entre os mais diferentes tipos de experimentos da
percepção, tais como:
1) Os "boys de rua trabalham com
um tipo de vestuários que apresenta as forma volumosas
do corpo. Ondas marcadas do corpo (costas, coxas e pênis),
pelas roupas dos michês, implicando no desejo do cliente
que translada pelas ruas da metrópole. Nesse
instante o vestuário deve estar bem expressado,
pois a sedução está diretamente incorporada
nas vestimentas;
2) Os "garotos de sauna"
trabalham o Apolínio. O corpo, normalmente,
é utilizado como elemento de sedução,
portanto o físico,.e, a imagem corporal está exposta como
uma extensão artificial da fala. Neste sentido, a visualidade
produz encantamento eficaz. Assim, o pênis argumenta como sendo um
outro corpo, um outro objeto que também deve estar explicitamente
demonstrado;
3) Para os "garotos do telefone",
a voz será utilizada como elemento radicalizador de efeito, ou seja,
a sedução funciona a partir da expressividade fonética
(tom, timbre, volume, entre outros), além de qualidade
conteudística dos termos. Portanto, julga-se necessário
um grau maior de escolaridade, bem como a
manutenção das despesas de telefone, anúncio
na imprensa escrita, culminando numa tabela de preço mais elevada;
4) Por fim, os "garotos digitais"
estão inseridos na rede de computação, desenvolvendo
um trabalho de sedução através da escrita. O
dinamismo da apresentação do texto escrito aponta para a
significação de metáforas sedutoras, formuladas a
partir das propostas surgidas no video-monitor
do computador. Pode-se considerar, então, que o nível
do discurso apresenta uma maior elaboração com
relação aos demais descritos anteriormente.
O MERCADO DO SEXO
Existem três crises que normalizam
as relações no mercado da prostituição masculina.
São elas: Crise de Identidade, Crise Social e Crise Econômica.
A Crise de Identidade incorpora todo
o discurso da sexualidade, em que tenta estabelecer o gênero do michê.
Heterossexual, bissexual, homossexual são termos que presentificam
o questionamento a cerca dos gasrotos. Por outro lado, não há
questionamentos quanto a figura do usuário -- o cliente. O qual
aparece como "espectador noturno" para solicitar a prestação
de serviço do boy.
A Crise Social está inserida
no discurso sedimentar do ato sexual, comercializado como ma profissão.
Cabe-nos aqui perguntar: o que você faria ao saber que alguém
do seu círculo de relações exercesse essa profissão?
Por outro lado, como você reagiria ao saber que alguém de
seu círculo de relações utiliza este serviço
de prostituição? Portanto, há um certo cínculo
que perpassa as questões sociais, e que englobam a participação
do sujeito e do outro. É correto afirmar, então, essas representações
são acompanhadasde valores estabelecidos socialmente.
A Crise Econômica está
vinculada como justificativa para o exercício pleno desta profissão.
O crescente número de desempregados, cria, por outro lado, novas
fontes informadas informais de obter capital. Assim, o mercado da prostituição
masculina não está a essa realidade. Ou seja, existe a lei
da oferta e da procura que circunscreve esse mercado na ótica capitalista.
Seguindo esses ditames, cabe no mercado de negócio empenhar-se naluta
pela competividade, nesse caso, a sexual.
Dentre essas crises perpassa
uma abordagem acerca do contexto dos garotos de programa e seus clientes
inseridos num lugar. A fala desse discurso, tanto do
garoto quanto do cliente, traz a especularidade da aventura, bem como a
contemplação do prazer. Um Flâneur, um Voyer -- personagens
de uma condição social pautada no
olhar contemplativo, estendendo-se exercício pleno
que estabelece a comunicação. E,
conseqüentemente uma troca simbólica situada num
tempo/espaço.
Pode-se afirmar que, o
Desejo torna-se público quando encontra-se exposto em relação
a "um outro qualquer". Noutro modo, seria a perda da individualidade, quando
esse Desejo vincula-se à exposição do prazer, conforme
um certo contrato que dita as regras a serem imbricadas no ato sexual.
Nesse contrato há pontos
que são rigorosamente discutido, analisados e deferidos conforme
interesse de ambas as partes, tanto do prestador de serviço
quanto do usuário. De fato, o beijo, como
um bom exemplo, traz consigo o conteúdo simbólico da
paixão, sendo assim, geralmente, não deve ser colocado em
aceitação pelo contratado. Existe uma
tentativa de não-vinculação, por parte
dos garotos de programas, que não
têm objetivo de permanecer com alguém. Contudo,
o beijo é o limite do prostituto,
uma reificação do corpo. Corpo este utilizado como
objeto distinto do pênis que funciona como objeto-outro, à
parte.
Nesse movimento de trocas, toques
e sedução fica difícil estabelecer um código
ínico e exclusivo para denominar o perfil deste profissional.
O michê, talvez, se sente na obrigação
de provocar o gozo no outro. Agora, se isso é o seu próprio
Desejo ou até mesmo a sua Perversidade,
isso é uma longa história... pois no desfruto
dessa oportunidade de estar com o outro, este ato implica um gasto de ambas
as partes.
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