
VIDA FÁCIL ?
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Paulo Henrique Longo
Muitas vezes, a
afirmação de que a prostituição é a
"profissão mais antiga do mundo" tem uma conotação
evasiva e vaga, já que não permite uma definição
mais clara acerca do desenvolvimento histórico e social desta atividade.
Assim, parece possível e corriqueiro usar o termo "profissão"
para uma atividade tantas vezes considerada marginal ou de segunda classe,
sem situar a sua "antiguidade"e outras nuances.
Os anos 80 assustaram-se
com a constante divulgação de um novo fenômeno dentro
da indústria sexual: a PROSTITUIÇÃO MASCULINA. Causando
ao mesmo tempo perplexidade, curiosidade e asco, a poderosa televisão,
as artes e a Ciência passaram a trazer à tona a existência
desta prática, durante tanto tempo negligenciada.
A epidemia de AIDS
em muito contribuiu para o desvelo desta vertente da atividade de prostituição.
Partiu-se subitamente da chamada liberdade sexual para a vigilância
sexual, pois enquanto doença sexualmente transmissível, precisava
encontrar seus vilões, os verdadeiros culpados pela expansão
da "peste". Desta forma, os michês seriam bons culpados: teriam um
comportamento eminentemente bissexual, servindo de vetores na transmissão
entre a população homossexual e a chamada população
em geral.
A constante veiculação
da existência da prática da prostituição masculina
provocou a imediata necessidade de definição das características
deste grupo social específico: afinal de contas, como seria o michê?
O termo, há muito usado nos meios homossexuais, passou a ganhar
uma relativa transparência social e extrapolar os guetos. A imprensa,
de uma maneira geral, ocupou-se de veicular um perfil do michê, contribuindo
para satisfazer as fantasias e a curiosidade gerais: o michê seria
um rapaz normalmente musculoso, esportista, bronzeado, com todas as características
do típico playboy da zona sul carioca, Normalmente cobrariam bastante
alto por suas transações, seriam extremamente viris e invejados
pela maioria dos demais homens, o que se concretizaria na sua postura super
macho man.
Logo em seguida,
passa a ser veiculada uma nova visão do michê, a do assassino
de homossexuais. Este ponto, primeiramente denuncia o comportamento homossexual
dos michês, já que fica garantida a imagem de que grande parte
dos clientes são homens; em seguida colabora para a construção
do preconceito social, associando sua imagem a violência, quase sempre
extrema, injustificada e com requintes de crueldade. Toda uma celeuma junto
aos homossexuais, usuários ou não dos serviços do
michê.
Nossa experiência
de quase três anos com diferentes grupos de michês no Rio de
Janeiro mostra uma realidade um pouco diferente. É necessária
uma imediata desmistificação daquela imagem outrora divulgada,
o michê não tem necessariamente a forma física descrita
pela imprensa e desejada por muitos. Grande é a sua surpresa quando
se constata que o michê pode ser qualquer rapaz, com ou sem o exagero
do masculino e sem inatingibilidade dos deuses do Olimpo. Jovens com aparência
típica de rapazes de subúrbio, sem roupas ou tênis
de marcas famosas, algumas vezes com um certo estereótipo de meninos
de rua também podem estar envolvidos na prostituição.
Importante esta
constatação de que é difícil conceituar o grupo
dos rapazes envolvidos na prostituição masculina. Certamente
não há características que permitam uma definição
do grupo ou mesmo de seus membros, tampouco de sua atividade. O contato
direto os seus "favores sexuais" por muito menos do que se imagina ou por
muito mais do que necessita. Passamos a ser contra uma delimitação
específica ou uma definição à priori do grupo.
Não são
poucas, contudo, as áreas em que se desenvolve a prostituição
masculina no Rio. Algumas já famosas, como a Galeria Alaska, o Bar
Maxim's, a Cinelândia, a Via Ápia. Outras que congregam as
chamadas "marginalidades" e permitem, num contrato implícito, que
a pegação se insinue e a michetagem permaneça. Por
mais que sejam diferentes as características destas áreas
e por mais personagens que participem deste cenário, certo é
que ali sempre estão os atores principais: o michê e o cliente,
que iniciam ali sua peça cujo epílogo quase sempre se dá
na cama.
E é na cama
que a delimitação exigida pode desfazer ou reforçar
fantasias. Diz-se que "entre quatro paredes tudo é permitido", embora
isto seja muitas vezes negado. Pouco importa. Fato é que se consuma
o prazer e que certamente este não é unilateral.
Grande parte das
vezes é efêmera a permanência na prostituição,
muitas destas o tempo suficiente para uma maior compreensão de sua
própria sexualidade ou de outras fontes de renda. Soma-se a isto
o desejo despertado no cliente, que tende a reduzir com o aumento da idade.
Muitas são
também as diferenças entre os que optam pela prostituição
nas ruas e pela chamada prostituição fechada, em saunas,
casas de massagem, hot-lines e similares. A prostituição
fechada pressupõe uma maior profissionalização da
atividade, o que não é fácil para a maioria, que acaba
optando pelas ruas.
Algumas curiosidades
nos confirmam que a prostituição masculina não é
um "fenômeno" assim tão problemático para muitas famílias.
Durante nosso trabalho no Programa "Pegação" pudemos perceber
que há uma forma de desenvolvimento da atividade que conta com a
plena cumplicidade das famílias de muitos rapazes: as chamadas "casas
de tias". São casas, sempre nos subúrbios e periferia, administradas
por homossexuais de uma certa idade (as "tias") e nas quais os rapazes
das redondezas se prostituem para clientes abonados da zona sul. Muitas
vezes as famílias incentivam, levam os rapazes e consideram a atividade
de "comer viado" uma boa forma de engordar a renda familiar sem comprometer
a masculinidade de seus pupilos.
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