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CASO DANIELA: COMOÇÃO E PRECONCEITO

                                                                  Paulo Henrique Longo

 
          No mesmo dia iniciaram-se as discussões. Seria louco? Estaria drogado? Teria sido forçado a confessar um crime que não havia cometido? As primeiras informações mostravam que o assassino confesso de Daniela Peres havia dito que a matara por não suportar mais o assédio da atriz, que insistia em manter um caso amoroso. Jogo conhecido este de transformar a vítima em ré, reagiram os colegas de Daniela, as feministas, parte da sociedade. Por tratar-se de uma pessoa pública, presente nas fantasias de milhares de pessoas, com um casamento também publicamente conhecido, rapidamente passou-se a especular sobre o caráter de Daniela Perez. Eram comuns comentários do tipo "será que uma moça como ela, bem casada, seria capaz de assediar aquele cara?".
          Logicamente a brutalidade animalesca e injustificável do crime gerou uma profunda comoção nacional, suplantando mesmo o momento histórico vivido na ocasião. O clima de festa foi encoberto pelo clima de revolta, a consolidação de uma punição substituída pela exigência imediata de outra.
          Procuravam-se os motivos do crime. A brutalidade do como demandando um porquê. Crime passional, magia negra, pactos (com o demônio ou com a esposa, que importa). Paralelamente, como reação a esta terrível tendência de levantar-se um perfil que justifique porque a vítima "buscou a morte", um grupo de amigos e familiares rapidamente vêm em defesa da vítima. Daniela não era apaixonada pelo marido, era uma pessoa super doce, etc. Características que só foram acrescentadas ao que todos podiam observar. Era uma moça super jovem, bonita, talentosa, com uma carreira promissora. Perfil não muito difícil de fazer e necessário como contra-argumento à dupla violência cometida, o assassinato e a calúnia, a difamação. Tirou-se a vida, é necessário ainda tirar a reputação?
          Dentro das diversas tendências quase óbvias dentro deste crime, veio a tona o "perfil do assassino". Inicialmente os colegas e vizinhos o definiam como calmo, bom companheiro, etc. Um levantamento de sua história profissional mostrava uma história comum a muitos atores iniciantes: vindo de outro estado, onde havia atuado em alguns espetáculos teatrais, tendo atuado no Rio naqueles espetáculos onde conseguiu espaço, uma ascenção relativamente rápida ao estrelato na TV, uma cara bonita, algum talento. A reação à prática difamatória de Guilherme de Pádua é unânime: não era assim tão calmo, era agressivo e estranho, tinha um preto velho que levava para assistir ao espetáculo, tinha uma relação doentia com sua esposa, etc. Até aí, tudo parece seguir dentro da tendência natural, mais uma vez como se fosse necessário a atribuição de (mais) características negativas a alguém que comete um crime tão bárbaro.
          Entre as muitas "estranhezas" de Guilherme, consta o fato de ter atuado no espetáculo "A Noite dos Leopardos", espetáculo que apresenta modelos masculinos nus no palco, cercados por uma atmosfera de erotismo. Apesar de ter atuado por pouco tempo (menos de 3 meses, segundo consta), este fato imediatamente depõe negativamente contra Guilherme, passando a ser parágrafo auxiliar no perfil do assassino. Não bastasse, foi atribuído a Guilherme "comportamento homossexual", segundo palavras de seus próprios colegas que teriam sido assediados acintosamente por ele.
         Não parecia necessário traçar um perfil tão positivo de Daniela Perez, barbaramente assassinada. Não parecia necessário encontrar um perfil tão negativo de Guilherme de Pádua, capaz de cometer tão bárbaro assassinato. O crime por si só suplanta os perfis dos envolvidos.
         Segue-se uma tendência de atribuir-se situações tão estarrecedoras a determinados grupos sociais. Como não bastasse o assassino ter sido "Leopardo" e supostamente homossexual, o articulista Arthur Xexéo, do Jornal do Brasil, o define como michê e o assassinato como "crime de michê". Como se estas referências contribuissem para o perfil psicopata do assassino, ajudassem a justificar a barbaridade. Apelo sensacionalista e preconceituoso, aproveitando a comoção deflagrada pelo crime para disseminar ainda mais o preconceito e a discriminação. O articulista chegou a comparar o assassinato com as mortes de Luiz Antônio Martinez Correa e Aparício Basílio, "crimes de michê, de pessoas que não tem nenhum respeito à vida".
          Não é a primeira vez que isto acontece. Logicamente alguns crimes foram cometidos por indivíduos que aproveitavam a situação do sexo comercial para matar suas vítimas. Há o caso do michê paulista que tinha prazer em matar homossexuais. Certo, crimes ocorridos e provados. Há, porém, uma grande distância entre a existência destes crimes e a assertiva de que todos os michês matam ou pior, como tenta mostrar Xexéo, que somente michês são capazes de cometer crimes tão hediondos. Basta ler os jornais sanguinários, todos os dias apresentando crimes bárbaros. Seriam todos "crimes de michê" ?
          O fato de citar os michês como responsáveis por tais crimes (no caso dos dois homossexuais) coincide como fato das vítimas serem famosas. Será que só homossexuais famosos contratam michês ou será que os michês só matam clientes famosos? Só os michês matam os indefesos? Um crime pressupões no mínimo um assassino e uma vítima, assim como o sexo comercial envolve quem cobra e quem paga. A prostituição masculina envolve uma série de preconceitos, pois articula homossexualidade e prostituição em uma única prática. Em muitos casos envolve miséria e sobrevivência, sexo e, consequência indelével, violência. A partir disso, contudo, fica difícil dizer que michês são assassinos, ou pior, que assassinos são michês. A quem interessa vincular o michê ao que pode haver de mais bárbaro em nossa sociedade ? Se a intenção é afastar os homossexuais, que tem esse direito, dos profissionais do sexo, não funciona. Os michês continuam sendo procurados.
            Há pouco mais de um ano fomos convidados a participar de um debate com o elenco e público da peça "Blue Jeans". Levamos alguns michês, que assistiram ao espetáculo a convite da produção e deveriam participar de tal debate. Iniciamos mostrando que havia um sério perigo naquele espetáculo ao tentar vincular michê com assassinato, com crime. Marginalidade é diferente de criminalidade, precisava ser dito. A reação extremamente agressiva e feroz do diretor Wolf Maia, que insistia neste perfil de michê = assassino, deixava bem clara a falta de conhecimento da prostituição masculina, da qual mostrava apenas uma face, assim mesmo distorcida. Hipocrisia típica de quem estava ganhando os tubos explorando o lado mais conservador e discriminatório da atividade. Contava com a presença de alguns astros globais (pelados) no elenco, um público muito mais interessado nisto que uma discussão séria - ou mesmo uma reflexão - sobre o assunto. Mais interessava ver os globais nus, vende mais ingresso. Tal desconhecimento da atividade do michê pode ser evidenciado pelos telefonemas que recebemos do produtor Marcos Montenegro na ocasião de montagem do espetáculo. Queria que fizéssemos um perfil do michê, que deveria ser encaminhado por escrito para auxiliarnos nos ensaios. Não fizemos, não seria honesto. Da mesma forma comercialóide foram tratados os michês que compareceram aos ensaios. Topamos participar do debate e deu no que deu.
          Não é possível esquecer que a novela "De Corpo e Alma" mantinha a temática dos shows de strip-tease masculinos, através do clube de mulheres. Shows de homens nus, como a "Noite dos Leopardos", a suposta fábrica de assassinos. A exploração da temática levou à abertura de diversos shows do tipo em todo o país, com sucesso absoluto. Apesar de não ter aprofundado a discussão sobre o assunto, o que não seria objetivo de uma novela das 8 da Rede Globo, proporcionou no mínimo o reconhecimento da existência da atividade. Os shows continuam acontecendo, existe público. Apelo natural ao erotismo à sexualidade, mulheres querem sim ver os homens nus ( ou semi nus), sejam estes globais ou não. Por que não?
          Não temos o menor interesse em defender o assassino de Daniela Perez ou qualquer outro assassino. Não podemos concordar com o cruel jogo de utilizar-se a comoção de um momento como esse para a disseminação do preconceito. Até pouco tempo atrás o jogo de condenação social poderia relacionar-se  com o simples fato de ambos, assassino e vítima, serem artistas, atividade repleta de preconceitos e bastante discriminada. Guilherme de Pádua não é ex-michê, ex-leopardo, homossexual presumível. É apenas assassino e isso basta.