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ODISSÉIA TRANSEXUAL

Astrid Bodstein

          Em todas as partes do mundo gays e lésbicas lutam cada vez mais para ter seus direitos respeitados e postosem prática por uma sociedade que ainda reluta em aceitá-los. Mas não são apenas os homossexuais que empreendem essa verdadeira cruzada pelo direito à vida e à felicidade. Muitos desconhecem a existência de um outro segmento na fauna sexual: os transexuais.
          Estes, assim como aqueles, têm muito para contar a respeito de sua "odisséia" em busca da paz e da realização. E ao contrário do que muitos pensam, os transexuais vêm  cada vez mais com charme, inteligência e determinação conquistando o seu merecido espaço em meio à selva que tenta esmagálos. E essa conquista não é de agora, como podem afirmar alguns mais desinformados do assunto: ela já se faz presente há muito tempo. Vejamos os casos mais famosos.
          No final do século passado a Hungria se encantou com os escritos do Conde Von Sandor, que também encantava as damas da alta aristocracia húngara. Anos mais tarde a Hungria, chocada, descobre que na verdade o conde era nada mais nada menos que a Condessa Soraia Von Sandor. Já neste século, precisamente na década de 50, o mundo todo se extasia com a história do ex-soldado americano que após várias cirurgias na Dinamarca se transforma na esfuziante Christine Jorgensen. Nessa mesma época, o mundo do show business francês se curva diante do talento artístico da belíssima Coccinelle, que arrebatou corações. Um pouco mais tarde, início dos anos 60, o transexualismo quase alcança os degraus da realeza através do relacionamento de Rachel Harlow com Kelly, o irmão mais velho da Princesa Grace de Mônaco. Nessa mesma época no Brasil, o jovem Ayrton consegue finalmente fazer a mudança de seus documentos civis para o nome de Jaquelline Galiacci e segue uma glamourosa carreira como vedete do teatrorevista. Em 68, o mundo volta sua atenção novamente para a questão transexual: primeiro para a transformação da tenista austríaca Erica Schnnegger depois para a concessão do título de barão, pela Rainha Elizabeth 2a., a Ewans Forbes Sempill, nascido Elizabeth. Já na década de 70, o mundo dos esporte sofre novo abalo: a trasformação do tenista Richard Radley na simpática Renée Richards. Nesse período a Inglaterra é palco de nova transformação. Desta vez, a do jornalista James Morris (integrante da 1a. equipe que escalou o Monte Everest), na intelectual Jan Morris. Os anos 80 chegam com força total. No final, Hollywood descobre escandalizada que a linda garota que encantou os fãs do agente secreto James Bond era a transexual inglesa Carolyne Tula Cossey.
          Em Nova Iorque, os editores de moda elegem a americana Teri Toye como a garota dos anos 80 e meses depois a VOGUE americana dedica seis de suas páginas à sul-africana Lauren Shipton. No Brasil, quase todos se curvam diante a beleza de Roberta Close algum tempo depois, em menor escala, a de Telma Lipp. Finalmente chegamos aos anos 90. Últimos do século 20. E com eles novas revelações transexuais: a conservadora Itália assiste todas as noites, em um canal de TV, a beleza e simpatia da apresentadora Eva Rubins, famosa também no cinema italiano. Na católica Espanha, Bibi Anderson brilha no filme do cineasta Almodóvar "De Salto Alto". Já em 92, a Itália volta a tremer em suas bases quando se descobre que a Miss Itália daquele ano era uma transexual.
          Com certeza, os exemplos continuam em todas as partes e segmentos sociais. E não há como negar que, cada vez mais, os transexuais conseguem, sempre em escala crescente, o seu lugar ao sol. E parece que sabem ao certo e concordam com Caetano que "gente é pra brilhar e não pra morrer de fome".
          Convém lembrar também que em diversos os transexuais já se unem em organismos com a finalidade de lutar por seus direitos. Na Inglaterra, Phaedra Kelly está no comando; na África do Sul, Desirré Dexter; nos Estados, Tulia e em muitos outros lugares proliferam dezenas de outras instituições do gênero. Já se pensa até mesmo em nossas crianças (a garantia que nossa "raça" jamais desaparecerá). Em Nova Iorque já existe a Harvey High School, especialmente criada com a finalidade de adaptar aos padrões vigentes crianças gays, transexuais, hermafroditas e outros tipos.
          Aos que acham que transexual é minoria na minoria, e que é um "fenômeno" moderno, ficam aqui registrados todos esses exemplos e a seguinte curiosidade: os antigos romanos já adoravam uma deusa com rosto feminino e órgãos sexuais masculinos. O transexualismo que passou por todos os lugares, do cinema ao mundo dos esportes, do jornalismo ao teatro, da nobreza à alta costura, finalmente atingiu o seu ápice: a glória do Monte Olimpo.