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O TRAVESTI, ESTE DESCONHECIDO
Darcy Penteado
a função cria o órgão, ou na natureza nada
se cria e nada se destrói, tudo de transforma
Lembro-me destes sábios, porém óbvios conceitos aprendidos
no colégio para exemplificar o surgimento, resultante de uma simbiose,
de um novo ser da categoria humana: o travesti.
Quem é ou o que é, afinal, o travesti?
"Travesti, s.m. (gal.) disfarce no trajar; (por extensão) disfarce.
"Pequeno Dicionário Bras. Da Língua Portuguesa.
Um outro conceito remoto e bastante amplo de interpretação
determina como travesti todo o indivíduo que adote um traje
e um comportamento com os quais se faz passar por uma determinada personagem
assumida. Assim, não só é travestido aquele que adota
trajes do sexo oposto como também, por exemplo, aquele que se vista
de rei, lobo, general, etc., sem sê-lo. Isto no entanto bem pouco
ou nada tem a ver com o sentido específico que adquiriram a palavra
e o ser em questão nos nossos dias. Hoje, travesti ficou sendo aquele
(ou aquela bem mais raramente) que use roupas do sexo oposto e que elabore
o próprio corpo com atitudes, posturas, maquilagem, hormônios
e cirurgias plásticas a fim de assemelhar-se ao sexo imitado - o
que ironicamente, no caso atual certos travestis masculinos, supera em
feminilidade o modelo adotado.
Para os leigos, a compreensão da sexualidade humana tornou-se algo
extremamente complicado porque os estereótipos acadêmicos
foram superados e a subdivisão atual está bem mais diversificada.
Não se pode dizer, por exemplo, que todo o travesti seja um transexual.
Pode existir a reincidência, mas quase sempre as cabeças funcionam
diferentemente. O transexual masculino tem corpo com caracteres masculinos,
órgãos sexuais masculinos completos (no hermafrodita, que
é ainda outra categoria, os dois sexos são atrofiados, com
predominância de um), porém comportamento mental feminino,
o que provoca constante atrito entre mente e o corpo antagônicos
- um tormento que resulta na rejeição e na repulsa do próprio
órgão sexual masculino.
Já o travesti (sempre naquele sentido modernoso que se lhe dá
hoje), é um indivíduo dotado de boa dosagem(?) homossexual,
digamos que seja daquele tipo de homossexualidade que mais se aproxima
do feminino ( a gama é imensa, como já foi dito) e que por
razões diversas, mas principalmente para satisfazer o ego, tenta
uma semelhança com o sexo oposto.
Mas então qual a diferença entre transexual e travesti? Cuca
, principalmente cuca!... O travesti (sempre nos termos de hoje, não
esquecer), sente como todos nós a necessidade de chamar a atenção
sobre sua a pessoa, mas a sua conformação masculina, devido
aos padrões estabelecidos, nem sempre é a mais favorável
para tal fim e ele se ajusta ao outro padrão, tranformando-se. Não
conheço nenhum travesti que, quando travestido seja tímido
nesse momento, como é óbvio, ele está imbuído
dessa sua forma de realização senão não se
travestiria. As implantações de seio, quadris ou pometes
no rosto, em silicone, são a complementação gloriosa
e plena dessa mística de beleza adotada como padrão.
O transexual (masculino) serve-se do travestismo por uma necessidade intrínseca
porém circunstancial, porque a sua mente está determinando
que ele é mulher, obviamente deve se vestir como uma delas. Na verdade
ele está vestindo-se, não travestindo-se, porém tem
contra sua mente certos caracteres físicos masculinos que precisa
esconder. Os poucos transexuais masculinos comprovados que conheço
são tímidos e não se satisfazem apenas com o travestimento:
todos anseiam por operações castradoras mas que, pelo menos
exteriormente, lhes dê aparência sexual feminina. Numa comparação
rasteira, pode-se dizer que os transexuais almejam ser mulheres simples
caseiras, enquanto os travestis têm alma de vedetes ou de mulheres
mundanas.
Certo que a timidez dos transexuais deve ou pode advir de insegurança
de situações sexuais e civis ambíguas, mas este fator
em si já comprova a diferença porque aos travestis o pênis
não causa traumas ou impecilhos e a quase maioria considera um absurdo
submeter-se a uma operação castradora que irá suprimir
o prazer da ejaculação, substituído por um prazer
dependente e apenas mental da posse pela introdução do pênis
do macho na vagina simulada que foi fabricada com pele do seu pênis.
A própria irreversibilidade do processo é uma parada dura.
Muitos também evitam os hormônios porque estes reduzem ou
cancelam o prazer do coito, e consideram inclusive o fator (econômico)
da ereção, uma vez que boa parte dos clientes dos travestis-prostitutos
preferem ser sodomizados. Mas disto falarei mais adiante.
Chegamos então atualmente, com o travesti, a um ser humano que poderemos
chamar de novo porque nunca antes adquiriu características semelhantes.
Assexuado? Ao contrário: bissexuado. Ambíguo? Longe disso,
porque possui caracteres bem definidos, só que fora dos padrões
convencionais, do "dejá vue". Um protótipo, isto sim,
de uma época em que ambíguos e discutíveis são
conceitos de liberdade e permissividade.
Anatomicamente temos em mãos um ser humano que em tudo se aproxima
(ou faz por aproximar-se) dos moldes consumistas dos concursos de beleza
feminina e que, como não poderia deixar de ser pelo seu próprio
critério e caráter, são padrões tradicionalmente
machistas, isto é, da mulher que é selecionada anatomicamente
para dar prazer ao homem. Os enxertos plásticos conseguem dar aos
travestis resultados incríveis de simulação.
Um corpo antes masculino ou levemente dúbio define-se para o feminino,
com seios inflados de silicone líquido e que ficam do tamanho desejado
(eles quase sempre os querem grandes); os quadris são igualmente
injetados, evidenciando a cintura; os pelos e a barba eliminados com eletrólise
etc., etc., e tudo complementado com longos cabelos coloridos, maquilagem
e... muito charme, superior mesmo aos das mulheres comuns, algo que só
encontra parâmetros nos antigos modelos hollywoodianos.
A única diferença entre os travestis e as "stars" de cinema
está no pênis e nos testículos (dos travestis), únicos
resquícios masculinos exteriores que ainda lhes restam, mas que
podem ser dissimulados entre as coxas com o auxílio de um adesivo
(sendo que o melhor é o emplastro Sabiá, que não fere
a pele pelo uso constante). E é assim que um travesti aparece em
público, muitas vezes despido quase que totalmente, em shows
e bailes de carnaval, deixando que as dúvidas pairem mesmo entre
aqueles garanhões que se gabam de conhecer mulheres.
Não tenho dúvidas quanto ao fato de a categoria vir a ser
em breve analisado pelo "Museu do Homem" (sem ironia), entidade cultural
francesa que se especializa em estudar o ser humano nas suas origens, classificando-o
geográfica e etnológicamente. Porque o travesti, apesar das
conotações que podem parecer superficiais e imediatistas,
já tem o seu lugar definido (apesar dos pesares para os donos da
moral), na sociedade de consumo em que vivemos. Chamá-los apenas
de "anormais", além do cômodo julgamento preconceitual, é
escapismo da própria sociedade que deles faz uso, dando-lhes uma
função utilitarista. Ora, é indiscutível que
tudo o que não sirva para consumo no mundo de hoje é logo
relegado ao rol das inutilidades. Tendo-se em conta como ponto de
referência que numa cidade como São Paulo devem existir atualmente
de cinco a oito mil travestis (o cálculo é meu, de orelhada,
porque não existe nenhum recenseamento, nem na polícia),
é evidente que, queira-se ou não, eles estão cumprindo
uma função social exigida pelo meio; e são utilitários,
mesmo praticando a prostituição, porque a oferta não
subsiste sem a procura.
Seria muito cômodo considerar o fato apenas pelo lado sensorial,
isto é pela solicitação do ego de cada indivíduo
em questão, que assim estaria atravessando a porta semi-aberta da
permissividade atual. Porém , atrás de toda essa aparente
frescura, existe um fator social bastante sério: a exaustão
do mercado de trabalho, principalmente para a mão-de-obra não-qualificada.
O afluxo às grandes cidades à procura de melhores condições
de vida atinge também os setores considerados subterrâneos:
o homossexual pobre não resiste à pressão social,
econômica e familiar nas cidades pequenas e, tal como o lavrador
de quem o latifundiário usurpa a terra, emigra para os centros maiores.
O homossexual de classe média tem mais defesas para resistir
ao êxodo, o da classe baixa não.
Mas o que a cidade grande pode oferecer em princípio, a esse indivíduo,
como meio de subsistência? Talvez remuneração pequena
e esporádica por trabalhos isolados, biscates que podem ou não
ocorrer diariamente, ou então, na melhor das hipóteses um
emprego em funções domésticas em que ele será
aceito com salário baixo porque os patrões e patroas usam
o homossexualismo como timbre fácil para a exploração
alheia. Fora isto, resta-lhes o crime e a marginalidade generalizada, fator
comum na máquina compressora da sociedade atual.
Ora, como atividade sexual dispensa carteira profissional assinada e não
exige especialização (esta só vem depois, com o tempo),
o homossexual desempregado, carente e muitas vezes esfomeado, recorre à
prática sexual remunerada como forma única ou complementar
de subsistência. Cara e corpo razoáveis ajudam, mas não
se pode negar que mesmo para os menos dotados, sem especializações,
sem organizações de classe, tabelamentos de preços,
etc., cidades como São Paulo e Rio dão possibilidades no
mercado de trabalho sexual. Mesmo para o não homossexual, que por
necessidade aceite esse trabalho temporário, as cidades grandes
não negam ajuda, basta fazer o "trottoir" nos locais convencionais
e a freguesia aparece.
No quadro das classificações homossexuais, o rapaz de aparência
máscula e que pratica o "trottoir" de rua é chamado de "michê"
ou "bofe". Ele não precisa obrigatoriamente cumprir a função
do ativo , o que de certo modo limita a sua atividade sexual. Por isso
os mais experientes preferem a postura contrária a fim de se poupar,
podendo realizar mais de um compromisso sexual por noite. Mas isto de certo
modo restringe o campo de trabalho dos afeminados porque, via de regra,
os clientes preferem sodomizar rapazes másculos. Para subsistir
então, o efeminado tenta outra faixa de clientela para a qual é
necessário fazer-se mais e mais feminino. E assim, paulatinamente,
ele chega ao travestismo. É lógico que com isto ele também
satisfaz o seu ego, dando vazão às solicitações
femininas da sua personalidade, mas é errado pensar que o travestismo
conduza à prostituição: são as exigências
do mercado da prostituição que geram o travestismo.
Dificilmente se pode falar sobre travestismo, em termos da sociedade de
hoje, que não seja ligando-o diretamente à prostituição,
porque o fato é antes de mais nada econômico. Contam-se nos
dedos as exceções, isto é, aqueles que atuam em shows,
ou são maquiladores ou cabeleireiros, e que também adotaram
o travestismo como forma de realização pessoal. Sendo o travesti-prostituto
um sucedâneo da mulher prostituta, ele pode realizar como passivo
muitas atuações numa noite, assim como elas, apenas simulando
o prazer. Mas existem os casos, que são até comuns (e dizem
os travestis que cada vez mais freqüentes), de clientes que os procuram
exclusivamente para serem sodomizados. É um complicado jogo de consciência
disputado com o complexo de machice em que subsiste a argumentação
de estarem sendo possuídos por uma mulher...
Como o travestismo, ou mais especificamente, a prostituição
praticada por travestis, é uma nova opção do prazer
masculino da sociedade consumista e permissiva atual, estranhamente ele
se criou e desenvolve-se por e para uma sociedade de raízes profundamente
patriarcais e machistas. Nossos avós, que ficaram ricos na exploração
do café em São Paulo, da borracha na Amazônia, da cana-de-açúcar
no Estado do Rio e em Pernambuco, importaram amantes francesas (que era
sinal de status e a elas cabia praticar todas as libidinagens que eram
vetadas às esposas virtuosas, cuja função era ficar
em casa procriando).
As mulheres contestadoras de hoje negam-se a continuar sendo apenas procriadoras
ou objetos sexuais dos homens. Esta segunda função (já
que a primeira lhes é impossível), está sendo encampada,
sem restrições pelos travestis. Os praticantes sexuais acadêmicos
poderão contestar que nada substitui a vagina num relacionamento
sexual; porém, sem que eu tenha qualquer argumentação
contra as mulheres, ao contrário, está provado que em matéria
de prazer o homem heterossexual brasileiro, é tão obcecado
por traseiros como é o norte-americano por seios volumosos. O hetero
brasileiro pode não ter coragem de confessar, mas o depoimento das
mulheres, constantemente assediadas nesse sentido, poderá contestá-los.
A confirmação visual do fato está nas nossas revistas
eróticas e nas que não se consideram como tal, mas em cujas
fotos de carnaval só se vem traseiros e mais traseiros. Tal é
a exuberância deles que chega-se a pensar ufanisticamente num novo
"milagre brasileiro".
E agora sejamos honestos: condicionamentos e preconceitos à parte,
mesmo para um machão (mas que não seja muito convicto em
tradicionalismos) qual a diferença entre um ânus feminino
e um masculino?
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